segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Poesia de 1998 feitas em Alcoutim
nem mais que de repente
o que era triste ficou contente
e o meu peito que se havia fechado
abriu-se de par em par.
Mas,
o que será que ele deixou entrar?
Cadavais, Alcoutim, 18 de Maio de 1998
No fundo dos tempos
desprendem-se lamentos
que se agarram aos sons das coisas.
Cadavais, Alcoutim, 29 de Maio de 1998
A escuridão acomodou-se.
Lá fora há escuro
e estrelas
e a lua em quarto crescente.
O silencio escondido nas coisas
assalta-me o estar.
Há coisas que não entendo.
A minha vida parece um filme que vejo
e vejo-me nele
desenrolando um papel
que só vagamente reconheço.
Como se eu apenas vivesse
verdadeiramente
na interioridade de mim mesma
nessa parte que escondo de mim
não sei porquê.
Percorro a vida
como quem percorre um caminho
para se encontrar.
Sigo as pistas dos meus gestos
para saber o que fiz
sigo as pegadas dos meus passos
para saber onde andei
ouço o som das minhas palavras
para saber o que disse…
Há um véu entre mim e mim
entre a minha vida e o meu agir
partindo-me em duas.
Porque escondo dos meus olhos o meu próprio eu?
Porque me escondo de mim
Se é só a mim que eu procuro?
Porque me encolho nas cavernas de mim
como criança assustada
dobrada sobre si própria
sustendo a respiração
com medo de ser descoberta?
Que será que escondo eu?
O que é tão perigoso os meus olhos encontrarem?
De que posso eu ter medo?
Cadavais, Alcoutim, 22 de Novembro de 1998
e… porque não
permitir à força que me envolva,
me penetre
e se exprima através de mim?
nos montes que me rodeiam
há maternidade agreste
e a pureza do odor campestre
no serpentear da ribeira
há o frenesim da vida
que luta por se manter viva
que quer sobreviver
e labuta
entre pedras e cascalho
molhando a terra
infiltrando-lhe sementes…
as plantas emergem resolutas
travando lutas e labutas
entre pedras e cascalho…
porque não
permitir a esta força
que me inunde e que me envolva,
esta vontade de viver
entre pedras e cascalho
esta vontade resoluta
esta luta
entre pedras e cascalho
esta teima
este renascer
esta labuta
entre pedras e cascalho
esta luta
esta vontade de viver?!
Cadavais, Alcoutim, 22 de Novembro de 1998
Estou mais sóbria que antigamente
e as palavras entalam-se no pensar
já não jorram soltas
cheias de sentir bravio
selvagem
indomado…
o meu sentir está vivo
e há angustias
há temores
há questões
há tormentas no coração
há paixão
uma paixão amortecida
adoentada
cansada
algemada
agrilhoada
pela força das circunstancias
e dói-me qualquer coisa nas entranhas.
É a força do fogo
que luta por sobreviver
e a falta de oxigénio
que o condena a morrer.
É a brasa que me aquece
quando a vida me arrefece.
É a busca desregrada
e uma raiz tresmalhada
que mesmo tão maltratada
decidiu vingar e cresceu.
É a doçura de uma espera
que vem dos confins da infância
e a cabeça de João Baptista
a rolar calada
pela bandeja dos tojos
para se ir lavar à ribeira
ensanguentada.
São as coisas todas novas
em rodopio
no meio das coisas velhas
sem encontrarem morada
e as caras que se sobrepõem
aos molhos
formando novas pessoas
e as viagens de quem poisa
dois mundos em simultâneo
um pé na serra
um pé no mar…
e assim
naturalmente
sinto no campo o navegar
e no mar o cavar
o plantar
o semear
palmeiras
roseiras
girassóis
e o cantar dos rouxinóis…
Cadavais, Alcoutim, 22 de Novembro de 1998
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
poesia que foi exposta
1
atravessam as pedras gretadas
desta paisagem misteriosa
recantos encantados
escondem romances por acontecer
pousados na água
aparentemente adormecida
serenadas as espadas
as defesas dormem caladas
porque aquietadas se encontram já as dores
levantam pontas de um véu
soltam-se estilhaços de imagens
doutras realidades distantes
doutras viagens
soluços de plenitude
em liberdade resoluta
que numa imensa labuta
para poder contar outra verdade
que a vontade
consciente e assustada
tem medo de descobrir.
ganham forma e vida
em eterna transformação
no chão
que a gente pisa.
contradições ancestrais
por todo o lado acontece
a dureza da rocha
repartida
misturada
suavizada
pelo tempo a rolar quieto
11
a vida que se renova e acontece
através do cadáver vegetal
que flutua
e cobre as águas
12
a rocha traja-se de um imenso animal adormecido
com o rostoem sonhos celestiais pousado e perdido
13
por vezes
os deuses
também passeiam à tardinha
14
mantém-se
fazendo Arte
15
como serpente pueril
corta
amarelos e verdes
em mistura primaveril
o céu que a terra bebeu
16
quando a primavera acontece
as cores acordam e berram
em mistura de brancos, amarelos e verdes
numa melodia que entontece
17
há singelos salpicos cor-de-rosa
neste renascer anual
e um mar de alfazema
espalha-se
às mãos cheias
pelo grito natural
18
salpicados de luz residente
os montes ficam mais bonitos
19
como se a passagem de um animal imenso
feito de terra
dividisse mundos
criando dentro do espaço
um espaço
para quem lê no espelho
das miragens
que têm contornos definidos