quinta-feira, 28 de maio de 2009

Entrevista/reportagem com Jorge Rodrigues

in ".S" - Caderno de Artes
do "Postal do Algarve"
Fevereiro de 2009




A arte não imita, interpreta.”
in "Note Azzurre" de Carlo Dossi



Jorge Rodrigues
persistir e acreditar na própria genialidade


Jorge Rodrigues cresceu na Raposeira, uma terrinha a cerca de 20Kms de Lagos onde o mistério está instalado no ar e o peso da história reside nos gestos das gentes que a habitam. Desde que se conhece, o desenho e a pintura fazem parte do seu quotidiano. “É uma coisa natural em mim”. É curioso, gosta de experimentar. Enquanto aluno do secundário fez teatro e esteve ligado a diversas iniciativas que se prendiam com as artes plásticas. Depois, “Lagos, sempre teve muita força a nível das artes, muitos artistas passaram por lá”. Gosta de aprender com quem sabe, por isso colaborou com artistas de renome internacional, “o artista aprende com o mestre. As escolas afinal são recentes”.
No início da década de 90 decidiu estudar artes e a partir dos encontros que foi tendo apercebeu-se “que realmente no Ar.Co é que estavam os grandes mestres”.
Em 1994 era aluno do Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual) em Lisboa, onde se entregou afincadamente ao trabalho.
“Quando vou pintar, penso sempre que esta tela vai ser a melhor de todas”. Cria metas a si próprio, estimula-se, “tenho que ter um objectivo alto para me motivar e conseguir trabalhar”.
A sua máxima é: “quanto mais trabalhar, melhor conseguirei atingir os meus objectivos”. Não se permite a preguiças e acredita que “a inspiração não faz nada. Dá ideias, e é com o trabalho que ela se espevita. A inspiração acontece com o músculo do trabalho e depois torna-se viciante. Não consigo passar muitos dias sem pintar”.
Em 2000 terminou o Curso avançado de Artes Plásticas no Ar.Co e desde então já participou de diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. Está representado em várias colecções públicas e privadas das quais se citam o Banco de Espanha, a Galeria Filomena Soares em Lisboa, a Fundação EDP, a Fundação Arzpar Szenes/Vieira da Silva em Lisboa e o Hammersith Hospital em Londres.

O azul do silêncio, do infinito, do caminho para a claridade

Neste momento está patente ao público uma exposição de Jorge Rodrigues no Centro Cultural de Lagos intitulada “Silencescapes”.
“A exposição apresenta-alberga alguns trabalhos realizados recentemente. Trinta desenhos em formatos idênticos que foram criados para este projecto e percorrem metricamente todo o espaço. Estes são confrontados por pinturas sobre tela em formato maior que, cromaticamente, oferecem ao olho de quem passa e ao espaço, a consagração da cor. Estas telas levam-nos o caminhar até à última sala onde estão seis desenhos de referência, de trajectória”, obras mais antigas que nos fazem entender um percurso condutor, o caminho de um sentir. E é aqui, afinal, que começa a exposição, “quando se faz o percurso em sentido contrário”. À porta, “estrategicamente colocada à saída que é entrada”, uma tela, “a primeira e a última imagem que se tem da exposição” e “funciona como quadro eléctrico onde tudo se liga energeticamente”.
O propósito da exposição são os trabalhos sobre papel, são eles que “ lhe dão o título. Os outros complementam-nos embora também façam parte dessa solução”. Estes, “cada um tem o seu espaço, tempo e decomposição diferentes que formam ritmos entre si e no todo. Depois há a cor, de silêncio, a mesma cor de milésimas variações de tonalidade, o zoom da escala de cada cor. O azul, que os une em sintonia, aquele azul, das profundezas da cor, da transparência, do vazio exacto, puro e frio. O azul do silêncio, do infinito, do caminho para a claridade”.
Os azuis de Jorge Rodrigues deixam-nos presos a um tempo sem tempo, a um espaço sem espaço, num navegar em estado zen que nos transporta para dentro e para fora em simultâneo. E em paz.

Definir a arte é colocar-lhe limites e ela não os tem.

“O meu próprio olhar como fazedor de pintura e inventor de imagens começou pela paisagem. No início a terra enchia a tela e depois o céu foi crescendo. Fui dando mais importância ao céu, e depois houve uma altura em que deixei de me preocupar”, sorri e um pedaço do céu assoma-se do seu olhar. “É como o mapa da evolução humana, o homem vai-se levantando, vai-se aproximando do céu…”, faz o gesto de como o macaco se faz homem, e abre os braços, como quem já sabe voar.
Mas a sua terra é muito importante para a poética do seu trabalho, para a poética do seu sentir. A terra onde foi aprendendo a ser e a olhar “é finisterra em fim de mundo, é a divina comédia do vento. Onde o mar se ergue, determinante, explodindo de alegria, ao esculpir suas pedras como se de um espectáculo pirotécnico se tratasse”. Há ventos coloridos a correr pelos pigmentos do olhar. “A adrenalina das nuvens, as nuvens das ilusões, do anunciar. O movimento não uniforme, acelerado”. Pequenas pausas acontecem mas as imagens quase se atropelam e adiantam a melodia da voz. “A vegetação que se agita espevitadamente, direccionando e inclinando a verticalidade dos seus traços, proclamando o caminho pró sul”. Um cintilar interior invade o olhar de sorrir. “Em que o fantástico faz 360 graus no que é possível a retina reter em cada ser humano ou ‘coisa’ que capte imagem. Valores tempestivamente intemporais, que sinto de sentir e funcionam na minha pele, no meu corpo, quando me aproximo, e na memória, quando me afasto”.
Este sentir embala-lhe as pinceladas e as suas obras deixam em nós a sensação de uma espécie de concórdia acesa.
O palmilhar do seu trabalho “é espontâneo”. Tanto pode ser “devida e minuciosamente projectado” como pode acontecer “sem projecto algum”.
Para o Jorge, “a estética é formada/dividida por conceitos como beleza, equilíbrio, harmonia, forma. Conceitos que, ao longo da história, sempre estiveram intimamente ligados à arte”. Mas a arte é muito mais do que isso. “É valor acrescentado, é habilidade, consciência…” e não se define, porque “definir equivale a delimitar. Definir a arte é colocar-lhe limites e ela não os tem. Jamais poderia tê-los”.
O seu trabalho prende-se com a sua “(sobre) vivência mental e física enquanto ser humano. O ser conduzido por absoluta necessidade interior do fazer, do continuar”.
O seu lema é “ser perseverante, estar preparado para o reagir do tempo, das massas planetárias, mais, menos, muito ou pouco interessadas ou esclarecidas, que de algum modo têm acesso ao trabalho”.
Acredita que “há um artista em cada homem” e o mais importante “é persistir e acreditar na própria genialidade”.


Paula Ferro

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Entrevista com Margarida Palma

in "Postal do Algarve"
Novembro de 2008



“A arte é visão ou intuição. O artista produz uma imagem ou um fantasma: e quem aprecia a arte volta o olhar para o ponto que o artista lhe indicou, observa pela fenda que este lhe abriu e reproduz dentro de si aquela imagem”.

in “Breviário de Estética” de Benedetto Croce





"Vejo a arte como uma coisa do dia a dia."




O encontro com Bartolomeu dos Santos marcou a sua vida




Margarida Palma nasceu em Lisboa mas os três primeiros anos de Pintura em Belas Artes foram feitos no Porto, onde o ensino era “muito clássico, muito formal. Quatro horas de pintura três vezes por semana, várias disciplinas de desenho com objectivos diferentes. Essa ênfase muito grande no desenho está bem vincada no meu trabalho”.
Termina o curso em Lisboa e inicia-se uma nova fase da sua vida.
“Comecei por trabalhar no bar da Casa das Artes em Tavira”. Nesse dia conhece Bartolomeu dos Santos que “ia inaugurar uma exposição com alunos das diversas escolas por onde tinha passado como professor. O projecto chamava-se Caleidoscópio”. Este encontro marca definitivamente a sua vida. “Foi ele quem me incentivou a fazer o mestrado em Londres e também a voltar para cá”.
Bartolomeu dos Santos era cliente assíduo da Casa das Artes. “Fui conhecendo muita gente mas o Bartolomeu era uma figura constante. Um dia ele soube que eu era aluna de pintura e, generoso como de costume, convidou-me para experimentar a fazer gravura, logo ali, ao virar da esquina da Casa das Artes. E foi um momento mágico da minha vida. Quando vi uma primeira prova de uma gravura percebi que tinha que fazer aquilo. Então, primeiro fiz uma, depois outra, e comecei a fazer gravura com alguma regularidade”.
Um dia Bartolomeu dos Santos convida-a para ser sua assistente num registo mais regular. “Ele vinha a Portugal com frequência e eu ia a Tavira trabalhar com ele. O trabalho era muito intenso. Mas apesar da diferença de idades e de percursos, havia uma afinidade e um entendimento muito grandes”.
Bartolomeu continuou a transmitir-lhe conhecimentos e “a certa altura achou que já não fazia sentido eu estar aqui. Começou a incentivar-me para tirar um mestrado em Londres”. Margarida termina o mestrado em gravura na Camberwell College Of Arts em 2004. “Comecei a expor mais regularmente, criei uma rede de conhecimentos e consegui mostrar as minhas coisas noutros países, então o Bartolomeu começou a insistir para eu vir para cá pois era muito importante não perder o contacto com a realidade do meu país”.
No seu trabalho está patente a vivência como mulher portuguesa, “apesar de ter estado fora durante cinco anos, um período considerável numa vida de trinta, sinto-me profundamente portuguesa e sei que há coisas que preciso de explorar nessa identidade”.
Tavira marca-a como pessoa e como artista, “foi ai que se deu uma série de acontecimentos importantes. Foi ai que conheci o Bartolomeu e ai se passa muito da minha história pessoal. Cresci em Lisboa mas as férias eram sempre passadas em Tavira”.

A parte positiva da minha vida passou por Tavira

As vivências que as paisagens solicitam, que os lugares permitem, assim como o modo como usufruímos dos espaços, esculpe forma em nós, cria chão para as nossas aderências e opções no futuro.
“A parte positiva da minha vida passou por Tavira. O tempo para gozar as coisas, para sentir. Passou pela praia quando a ilha era uma coisa fantástica. Havia um microcosmo nas nossas brincadeiras que passava completamente despercebido a qualquer outra pessoa e que numa escala e uma natureza marcou o meu trabalho. Gosto desta dimensão íntima das pequenas coisas que ninguém vê”.
As raízes bem vincadas no solo, plantam gestos no fluir do nosso quotidiano actual. Selecções do real abrigam-se no nosso olhar, através das histórias de outros, onde o mesmo sangue dava outra forma à vida, no momento da habitação do tempo.
"O meu avô era de Santo Estêvão e a minha avó é de Santa Catarina. A família do meu pai tem uma história muito próxima da terra. Ficou-me o cheiro das alfarrobas e dos figos. Ouvir os grilos e as cigarras ao calor… é uma coisa tão intensa! Só conseguiria explicar isto a alguém que passou por lá e sentiu”.
Aqueles ensinamentos que passam de geração em geração e não são imunes à transformação. “Tinha uma bisavó a quem chamávamos a avó velhinha. Ninguém sabia exactamente qual a idade dela. Contava muitas histórias, as suas experiências, que para nós eram realmente do outro mundo. Outra época, outro manifesto. Essas narrativas da minha bisavó, as da minha avó, e as do meu pai, marcaram-me profundamente”.

Não seria quem sou hoje se não tivesse vivido e brincado nestes sítios

O passado só pode estar vivo dentro da transformação e da consciência da alteração que cada decisão individual implica na direcção de um percurso que pode ser de todos. “Acho que as coisas não se devem preservar como um boneco mas há memórias a guardar e tenho pena que se tenha perdido muita coisa genuína no Algarve”.
Sente-se feliz por ter tido acesso ao contacto directo, por ter convivido com os gestos adequados ao que era a vida neste local onde tudo se conjuga: paisagem, arquitectura, hábitos, crenças, sabores, cheiros, objectos e rostos. “Não seria quem sou hoje se não tivesse vivido e brincado nestes sítios. O Mediterrâneo tem esta força para quem o viveu, para quem o sentiu como criança. Marca muito mais do que a vida em Lisboa”.
Nós somos um resultado das nossas vivências, muitas delas prendem-se com os espaços que habitámos, são consequência dos hábitos e práticas daqueles que nos são mais chegados, daqueles com quem, no fundo, aprendemos a ser.
A sua avó era costureira e “os processos manuais de costura são uma coisa fundamental no meu trabalho”.
Passado e presente tocam-se através de instantes vividos que permanecem suspensos e residem em objectos que atravessaram o tempo, gerando hoje outras acções, outros começos.
“Parti para uma série de trabalhos que têm como base uma boneca que fiz, quando tinha onze anos, para oferecer à minha mãe. Uma boneca estranhíssima, totalmente disforme, com um corpo estranho. Mas eu achava a boneca perfeita quando a fiz. Tem um sorriso enorme, os olhos são bordados, o cabelo é linha mas a boca é desenhada. Fiz a boneca e coloquei-a numa caixa que na altura também achava perfeita e que agora acho incrivelmente mal feita. A minha mãe preservou-a mas só depois dela morrer é que voltei a pegar na boneca. Comecei a usá-la como uma espécie de metáfora para o corpo e para a identidade, para a tentativa de os definir. Ser perfeito ou não, depende do ponto de vista, depende da nossa percepção da realidade. E isso é um elemento que tem aparecido muito frequentemente no meu trabalho”.
O mundo estimula-nos, obriga-nos a uma adaptação permanente à sua transformação contínua, mas “nós temos as nossas ferramentas, físicas e emocionais, para nos conseguirmos defender e adaptar. Essa adaptação pode ser microscópica ou macroscópica, pode partir do interior ou do exterior mas temos que encontrar novas fórmulas para nós mesmos. É isso que essa boneca me tem trazido como ponto de partida para o meu trabalho, essa ideia de readaptação à realidade”.




Recolhia sobretudo uma mitologia familiar

A exposição que se encontra neste momento no Palácio da Galeria “começa por ser um desafio do Dr. Jorge Queiroz. Perguntou-me se eu gostaria de fazer uma exposição relacionada com ‘Tavira Patrimónios do Mar’. Explicou-me quais os princípios e no que é que ia constar essa exposição. Deveria haver uma relação entre o meu trabalho como artista e a minha ligação a Tavira. Deveria haver um paralelismo entre um conceito museológico e a Arte Contemporânea”.
O trabalho nasce então da partilha de vivências entre três gerações. “A partir de conversas com o meu pai e a minha avó comecei a fazer, até por curiosidade, uma espécie de árvore genealógica da família, mais no sentido figurado porque aquilo que me interessava não eram as relações e as linhas directas e indirectas, o que me interessava eram as histórias de cada uma das personagens. Para cada pessoa eu criava um balão enorme ao lado com as histórias. Recolhia sobretudo uma mitologia familiar”.
E o caminho surge de uma prática simples entre mãe e filho. “Começo a valorizar uma história que já tinha ouvido: o meu pai a aprender a ler e a minha avó, que não sabe ler, ambos ao serão. Ela a bordar e ele a ler para ela, à luz de um candeeirozinho a óleo, julgo eu. Mas ele lia um livro que não tinha as últimas páginas, que não tinha fim. E eles leram aquele livro uma série de vezes. Acho isto uma coisa extraordinária! Se a história não tem fim, porque a leram tantas vezes?”
A resolução de uma falta conduziu à prática da multiplicidade de possibilidades que o devir contém e “este exercício de projectar um final, interessou-me muito. Porque é realmente aquela ideia do fio quebrado e das múltiplas possibilidades, das reformulações, da história que pode ser aquilo que nós quisermos”.


Pretendi reflectir um pouco sobre o que é que nós guardamos, o que é que nós depois utilizamos no nosso processo, na nossa vida.

A história, que se constrói a partir das pequenas histórias, das histórias vividas por cada personagem que compõe as gentes dum determinado local. No fundo, as histórias individuais que se entrecruzam é que são o miolo da história.
“O que apresento é um paralelo entre o que é o museu e os princípios museológicos que estão por detrás daquilo que está feito na outra exposição, e uma espécie de ‘paramuseu’ que é o que eu fiz, que é o meu museu, a minha memória, a minha visão das coisas”.
A partilha é fundamental. Para que exista partilha, nalgum ponto, tem que existir identificação. “Há um lado da identificação que era muito importante alcançar: conseguir que o trabalho fizesse sentido para outras pessoas dali, de Tavira. As exposições atingem o seu objectivo quando uma pessoa se me dirige e percebo que o trabalho chegou lá, que lhe tocou de algum modo, que a pessoa reflectiu um bocadinho que seja sobre aquilo que viu”. Objectivo que consegue atingir. “Houve uma senhora que me disse: ‘obrigada por me ter deixado percorrer as suas memórias’, e fez mais alguns comentários evidenciando claramente essa identificação com o que viu”.
É importante perceber o que as coisas são porque a nossa acção sobre o mundo é transformadora, seja ela consciente ou não, da transformação que propicia. É importante ter consciência disso para percebermos o que fazemos com os bocados de mundo que nos vêm parar às mãos.
“Pretendi reflectir um pouco sobre o que é que nós guardamos, o que é que nós depois utilizamos no nosso processo, na nossa vida, na nossa personalidade. Como é que recebemos uma coisa e depois a transformamos noutra coisa qualquer”.
E, como quem arranca um fruto de uma das árvores do pomar dos seus avós, saboreia o conteúdo de “uma frase da Tracey Emin que acho muito importante: ‘não interessa o que uma pessoa tem ou recebe dos outros, o que interessa é o que uma pessoa faz com aquilo que recebe dos outros’. Como é que utilizamos aquilo que chega até nós para evoluirmos. A arte passa muito por aí. Conseguirmos compreender aquilo que chega até nós, reformularmos e darmos uma visão do mundo tal como o percebemos”.
De algum modo, ser artista é “continuar a pertencer a essa cadeia de eventos, de receber e dar algo. Não vejo a arte como uma coisa sagrada, vejo-a mais como uma coisa do dia a dia, dos objectos e das experiências”. Todos somos potencialmente artistas, “não acho que a arte seja pertença de alguns iluminados. Todos temos potencial para criar qualquer coisa, a predisposição para criar é que já é diferente. Nem toda a gente está disposta a olhar para ver, a pensar para depois transformar”. A arte “é um processo de transformação que deverá trazer algo de novo ou pelo menos deverá fazer olhar de novo para as coisas”. A arte tem um papel, o “de nos fazer parar e pensar” e deve ter um propósito social, “enriquecer o modo como as pessoas se relacionam com o mundo”.

Paula Ferro





quarta-feira, 13 de maio de 2009

Entrevista com Pedro Cabrita Reis




in ".S"


- Revista de Artes - Suplemento Mensal do Semanário


"Postal do Algarve"
( Fevereiro de 2009)






Cabrita Reis
autenticidade materializada










Cabrita Reis nasceu em Lisboa mas escolheu o interior da serra algarvia para construir a sua casa. Gosta da luz do sul porque possui um imenso “rigor mental”. Conta com o reconhecimento internacional dentro da arte contemporânea. Considera-se um pintor mas a sua obra tornou-se crucial para o entendimento da escultura.
Mantém-se em diálogo com as grandes tradições da história da arte moderna. Encontra nelas terreno fértil onde planta a sua imensa capacidade de se deixar impressionar por momentos simples mas únicos da realidade que depois de integrados faz acontecer em Obra.
Homem e artista aliançam-se numa amálgama compacta de vida que se busca e se expressa. Possui uma personalidade saliente que alberga um luzir constante. A sua presença sente-se. Quando entra, o olhar antecede-o e marca território no primeiro instante.
Para quem só o conhece do outro lado das coisas, ele intimida.

Como artista revelo-me em tudo aquilo que faço e na maneira como sou.

- O que é que leva uma pessoa a optar pelo caminho das artes plásticas e depois a manter-se nele? Perguntei. É por ser uma profissão como outra qualquer ou é algo mais visceral?
- Só posso responder por mim.
A sua voz é palpável e enche o lugar.
- Desde que me conheço sempre quis ser pintor e sempre o fui. Nunca tive qualquer dúvida ou hesitação. Nunca se me pôs a questão da dúvida sequer.
Há firmeza, ritmo, cadência, na projecção das palavras.
- As dúvidas que eventualmente pudesse ter tido, tenho e terei, prendem-se com as minhas interrogações sobre o trabalho, nunca sobre a minha vida, ou sobre aquilo que nem sequer escolhi fazer, fiz sempre.
Fica suspenso por um momento.
- Nunca me interroguei sobre a justeza desse modo de estar na vida.
Há uma frontalidade intensa no olhar. A sua presença instala-se como autenticidade materializada.
- Considera-se um pintor…
Deixa escapar uma pequena impaciência. As palavras saem-lhe a trote.
- Considero-me um pintor e sou um pintor e é coisa que faço sempre. Posso, de vez em quando, fazer ou não fazer esculturas, ou outras coisas…
- Era isso que queria dizer, como é que fazendo escultura…
- Não vejo as coisas tão diferentes umas das outras. Devo-lhe dizer que por mais de uma vez essa questão me foi colocada.
Uma macieza recente roça a tonalidade da voz que de repente volta a ficar firme e segura.
- Volto àquilo que sempre disse. Eu, de facto, sou um artista, com a carga e o peso que isso tem. Como é que me revelo como artista? Revelo-me em tudo aquilo que faço e na maneira como sou. Não creio que haja uma forma linear de determinar uma evolução causal no processo. Não faço desenhos para depois fazer pinturas, para depois olhar para elas e fazer esculturas. Provavelmente a pintura ainda não está seca e já estou a pregar as tábuas uma na outra e entretanto olho para o lado e vejo que não tenho pregos e já passa da hora para os ir comprar, e porque não posso continuar a fazer a escultura que estou a fazer, faço uns desenhos, enquanto a pintura está a secar. Não há um edifício causal em que umas coisas levam às outras num processo de evolução. O que há é um todo que é o eu, é o ser, é nome, é o olhar sobre o mundo, e esse todo vai-se reconhecendo a si próprio, vai-se materializando, existe, vai-se satisfazendo, fazendo o que lhe dá na gana. E eu sou assim.
Quando a comunicação se começa a estabelecer, há uma confiança que nasce no ar e o tempo começa a escorregar, balançado pelo sopro da sintonia.
- Há uma altura em que inclui lixo nas suas obras.
- Incluo tudo o que me interessa, tanto faz. Posso incluir um bocado desta conversa, ou uma imagem que tenha visto por acaso, fortuitamente. Posso dizer, por exemplo, que a imagem mais forte que hoje guardei na memória foi um gato entalado entre uma janela e uma grade. Entalado na transparência do vidro. Gostei de ver. Agora faz parte do meu caderno de apontamentos mental tal como um bocado de um lixo qualquer, ou algo que veja e mais tarde me dá informação para um trabalho.
- Para si a arte não tem limites.
- Creio que para ninguém.
Um sorriso marca o instante e um princípio de cumplicidade amanhece.
- Não imagino como poderia ter limites. Teria limites se tivesse uma determinação de funções e uma determinação de usos. Nem uma coisa nem outra se podem aplicar ao entendimento ou ao exercício da arte. A arte é, digamos, uma das características da espécie.
- Mas acha que a arte serve para alguma coisa?
Sorri.
- Não. Essa é que é a sua grande vantagem. Justamente.
A qualidade absolutamente extraordinária deste exercício que só nós inventámos é a sua absoluta inutilidade. Não serve para garantir nenhuma das funções da sobrevivência humana e contudo é específico da nossa espécie. Quer dizer que evoluímos ao ponto de fazermos uma coisa que não serve para nada. Mais ainda, evoluímos ao ponto de deixar que alguns de nós, da comunidade, possam fazer uma coisa que não serve para nada e que é, à posteriori, muito útil para todos, por muitas razões.
Deixa o tempo exacto para que as suas afirmações se aconcheguem no interior do outro. E continua:
- É, de facto, uma actividade que não tem qualquer utilidade, entendida esta à luz de um discurso de necessidades imediatas, por hipótese. E é isso que a torna tão escorregadia, tão fugidia, tão incapaz de poder ser massificada e inclusive de ser utilizada. Não é que tenham faltado ocasiões ou pessoas que a tenham querido utilizar por razões políticas, mas curiosamente, o resultado ou produto desses momentos é sempre o primeiro a ser descartado e mandado para o lixo porque não tem, jamais atinge, a qualidade ou a importância da arte que não é vista por esse lado funcional. Todas as fases da história da arte que foram ilustração propagandística deste ou daquele momento, desta ou daquela circunstância histórica e fugaz, acabam por ser deitadas para o caixote do lixo pela própria história. Neo-realismo, o Realismo Socialista, etc...
Uma curta pausa culmina em novo arranque sem espaço para questões.
- É evidente que a arte não está desligada das contradições sociais e da história. O Barroco não podia ter aparecido na altura do Neoclássico e a Arte Flamenga não podia ter aparecido na altura da Renascença, o Impressionismo só podia ter aparecido depois das primeiras descobertas ópticas e o Cubismo só aparece com a psicanálise. As coisas só aparecem no tempo em que podem aparecer. Daí inferimos, sem grande dor ou sofrimento, ou sem grande exercício mental, que a arte tem sempre um pé na história e um pé no futuro, na utopia, na visualização daquilo que há-de ser. Por isso é que a arte é importante, por ser aquela espécie de capacidade de poder configurar aquilo que nós viremos a ser. Curiosamente só se percebe isso depois.
As pessoas que cumprem na sociedade a função inútil de ser artistas, são pessoas que configuram modelos de relação, olhares sobre o mundo. Essas coisas não são importantes ou claras no momento em que se fazem, mas são, à posteriori, ferramentas para se perceber o tempo.
A arte tem algumas vantagens em relação a outras actividades humanas, ela é uma ferramenta do mundo, dizem que menos objectiva que a ciência, mas seguramente mais rica no modo como pode permitir ao ser humano imaginar-se como um todo. Posso perceber o que é que se passa com as células estaminais, posso considerar importante a questão da difusão da luz ou física quântica, contudo nada disto, em si mesmo, me dá uma noção absoluta de mim próprio e do mundo. São coisas parcelares, seguramente muito importantes para a luta contra o cancro mas absolutamente inúteis quanto ao entendimento da espécie. A arte tem essa capacidade, imagino eu. Se me perguntar como é que tenho a noção de como é que nós fomos e do que eventualmente poderemos vir a ser, seguramente temos muito mais margem para perceber isso analisando as pinturas, lendo os livros e escutando as musicas que foram construídas, do que analisando os decretos-lei, as decisões dos reis, ou as tricas da Igreja, meras questões parcelares. Há um conhecimento absoluto, radicado na posição artística, não verificável em qualquer outra manifestação da espécie.

A procura da beleza é a procura de uma coisa impossível que é sarar uma ferida, uma ruptura entre a expulsão do paraíso e a tentativa de retornar a ele.

Aproveito um silêncio e pergunto:
- E qual é o lugar da ética? Estética e ética. Há relação, não há relação?
- Não creio que haja uma relação intestinal entre ambas . A ética de um artista prende-se exclusivamente com a natureza do trabalho que faz. A ética é uma construção de um comportamento ou de uma atitude que apenas se prende com o modo ou a forma como esse artista pretende projectar uma imagem de si próprio sobre o mundo. Não pode ser um juízo valorativo ou um código determinador de comportamentos, não há, não pode haver.
- Nem chamadas de atenção…
- Não, de todo, de forma alguma. Não!
- É apenas a expressão de si próprio?
- Só pode ser assim e depois a sociedade digerirá ou interessar-se-á por isso, se a coisa for oportuna e se de facto tiver algum peso.
Posso-lhe perguntar: qual é a ética da escola de Barbizon? Aqueles pintores que pintavam umas ovelhas no campo, umas nuvens e uns pôr-do-sol. Aparentemente nenhuma. Não vem daí nenhum princípio normativo para regulamentação do comportamento humano. Contudo são o sintoma de uma coisa muito importante que é uma espécie de um momento pré moderno, e quando a saída do atelier para o exterior vem prefigurar uma mudança de paradigmas nos interesses dos artistas, que até essa data integravam sobretudo um universo muito ligado à mitologia, ou à religião, ou ao elogio heróico da sociedade política, dos reis. Libertos no campo com telas, pincéis e cavaletes, no fundo, os artistas preparam-se para se desviar das regras políticas que os tornavam meros ilustradores do status quo. Descobrem a individualidade e, passam a descobrir que a vida real, aqui simbolizada pela observação e representação da natureza, é suficiente manancial para reflexão e exercício da arte. Propõem-se, ao sair para a natureza, sem que o saibam ainda, fazer uma mudança radical que é subtrair a acção do artista à estrutura histórica de ligação a uma posição que, esteticamente, seria a validação permanente dos sistemas de valor políticos a que estavam ligados. Com a saída para fora do atelier, para fora do palácio ou da Igreja, cria-se uma ética nova.
Em arte, não creio que se olhe para a ética esperando que esta tenha uma função. Não se espera sequer que tenha uma função. O artista não está obrigado a salvar nada ou ninguém através da importância da sua arte. Tê-lo-á, ou não. A sociedade é que determina se a ética que o artista tem lhe interessa ou não. A estética faz parte da Filosofia. O problema da estética é o problema clássico da procura do Belo. É, e será sempre. O Belo é uma coisa muito simples, é a questão da harmonia, do equilíbrio. A procura da beleza é a procura dessa coisa impossível que é sarar a ferida, uma ruptura entre a expulsão do paraíso e a tentativa de retornar a ele. Uma necessidade, em absoluto, de encontrar a verdade. A beleza é uma espécie de harmonia última, é o lugar onde não há mal, onde não há morte, é o lugar da eternidade. Nesse aspecto interessa-me. A estética interessa-me seguramente mais do que a ética. A estética é uma permanente escavação num campo onde se julga que está um tesouro escondido. Esse tesouro seria a unidade absoluta entre o autor e a sua obra, entre as pessoas umas com as outras, era o lugar da perfeição, inatingível é evidente, por isso é que ainda continua o debate, e continuará sempre.
- Quando cria uma peça preocupa-se com a harmonia?
- É evidente que uma obra só estará acabada quando se sente que ela tem uma espécie de equilíbrio próprio, de vida própria, sabemos que ela não tem falhas, não há falta de balanço em todas as suas partes, é como se lhe reconhecêssemos uma capacidade de autonomia. Não sei como posso explicar isto melhor. É uma coisa que se sente, não é uma coisa que se possa explicar. É tal como quando faço uma obra. Sei que está acabada de uma forma que não tem a ver com a inteligência tal como a conhecemos. Não é um discurso racional ou lógico, é mais, quase um bem-estar físico oriundo ou fruto da sensação, assim: “Ah! Está feito!”
Uma expressão elevada e fresca sai em talhe de sorriso.
- E o corpo sabe isso de uma forma diferente da cabeça, sabe-o provavelmente com maior antecipação e talvez até com mais clareza do que a própria cabeça. A cabeça virá depois e analisará, lembrando-se, até, de como o seu corpo reagiu quando percebeu que a coisa já estava acabada.
- A cabeça já faz parte do corpo.
- Sim, mas tem tendência, o que não é desinteressante, para ter uma espécie de pensamento próprio. O corpo pensa de uma maneira, a cabeça pensa de outra, e isso é produtivo, é bom!
Acontece um silêncio. Pedro lembra-se do charuto que mantém na mão desde que chegou e leva-o à boca.
- Nas suas leituras tem preferência por poesia.
- É verdade. A poesia tem aquela coisa particular, de ter uma forma condensada, depurada, de linguagem. É uma forma quase perfeita.
- Na sua obra existe poesia?
- Na minha obra!?
Pendura um olhar no espaço e continua:
- Se entendermos a poesia como uma forma exaurida de utilizar a palavra no sentido de a tornar pura, é evidente que sim, eu gostaria de ter isso na minha obra. Gostaria de ter a capacidade de atingir essa pureza, essa lucidez, essa justeza, esse rigor mental.
A poesia é isso em relação à linguagem. O meu esforço maior é nesse sentido, é no sentido de que aquilo que faço transporte consigo essa inevitável certeza, percebe?
E a mão direita, porque a outra mantém o charuto hasteado, interrompe por instantes a sua dança constante que amplia o semblante ao pensamento.
- Tudo o que é a mais não existe, o gesto deve ser reduzido ao mínimo. Por muito confusa que possa ser, a contribuição das coisas todas deve ser pensada e feita de tal modo que não restem quaisquer duvidas. Não há nada a mais. Pode ser um caos, pode ser cheio de muitas coisas, mas contudo, o corpo da obra, por muito complexa que seja formalmente, deve ser perfeito, não deve ser fechado, não deve ter falhas, não deve ter interrogações ou dúvidas.
Pequena pausa. O corpo gira sobre si próprio e o olhar, virado para dentro, expressa uma fidalga divagação.
- Isso acontece uma vez em cada cinquenta anos. Mas não custa nada tentar.
Sorri, e o luzir interior anima-se.
O à vontade está estabelecido e a conversa flúi com a serenidade das águas que correm para a amplitude.

Não se tem outra coisa, como artista e como pessoa, que não seja o desejo absoluto, único e último de se ser tudo ao mesmo tempo.

- Este Verão fez uma exposição no Palácio da Galeria em Tavira com obras que pertencem a colecções privadas e agora uma exposição de trabalhos recentes na Galeria Trem em Faro. Há alguma marca na sua carreira que pretenda anunciar?
Sorri como se já esperasse uma pergunta assim. Movimenta-se no banco, dá uma fumaça no charuto e embala:
- Não, não há nada, é uma coisa muito simples. A exposição de Faro estava prevista antes da de Tavira. O Manuel Baptista, grande amigo, pessoa que admiro muito e um belíssimo pintor que já conheço há muitos e muitos anos, voltou a perguntar-me se, neste novo momento dele na direcção da Trem, eu quereria fazer qualquer coisa. Disse-lhe que sim. As exposições tinham uma natureza e uma dimensão diferentes. Pensei que não era bom para ninguém se as exposições fossem excessivamente próximas no tempo.
- Tem alguma coisa a dizer relativamente a estas duas exposições?
Volta a sorrir e dispara:
- Tenho a dizer que ambas me deram grande prazer e que alem disso ficaram muito boas. Tavira, o mérito de mostrar que existem coleccionadores, em Portugal, acompanhando o trajecto dos artistas e fazendo essa coisa extraordinária que é gastar dinheiro numa coisa que não serve para nada.
Pareceu-me interessante, mostrar um conjunto de obras que além de desvendarem o tempo de um percurso, revelam, por pertencerem todas a colecções privadas, que há pessoas que compram arte. Isso é muito importante. Essas pessoas, provavelmente não tendo disso uma consciência muito presente, também constroem de alguma maneira e, a seu modo, a história. São guardiães se assim o quiser, guardiães de ideias, guardiães de tesouros para os que hão-de vir depois. Ora bem, isso é importante mostrar. Acho que essas coisas têm que ser realçadas, daí que tenha ocorrido fazer a exposição e chamar-lhe “Colecções Privadas”. Fi-la apenas com obras que vieram de colecções privadas portuguesas, e isso, de alguma forma, permitiu-me trazer a Tavira um percurso transversal ao longo dos vinte e tal anos de trabalho que fui fazendo.
A de Faro é unicamente obra do atelier, trabalho recente, com dois, três anos no máximo. Contudo, encontra-se com a de Tavira no sentido em que pretende trazer às pessoas a diversidade de linhas de acção e de pensamento que se têm revelado no meu trabalho nestes últimos anos. Tavira informava sobre o meu passado mais longínquo, esta informa sobre questões mais recentes.
- O catálogo do Palácio da Galeria…
- O catálogo é um objecto muito, muito bonito, tem sido muito admirado e não há razões para menos.
- No catálogo diz que “não há obra de arte alguma que não seja ela própria uma substituição do mundo por inteiro.” Isto é ânsia, volúpia, intensidade?
- Em cada pintura, ou desenho, em cada risco simples num papel, está o seu autor e por inerência, quase poderia dizer também o mundo por inteiro. Num risco, nesse risco, está tudo aquilo que se precisa de fazer. Não se escolhe qual a parte de si mesmo que faz aquele risco.
O olhar apontado e os gestos acesos em movimento reforçam os contornos do sentido.
- Pega-se num lápis e faz-se assim no papel, (faz o gesto de desenhar), e ao fazer-se isto não se está a escolher de dois em dois centímetros qual é a parte da nossa vida que se está a pôr ali. Uma coisa que é verdade é que esse risco transporta tudo aquilo que se é. Ora, cada um só é o mundo inteiro, porque não se tem outra coisa, como artista e como pessoa, que não seja o desejo absoluto, único e último de ser tudo ao mesmo tempo, porque é a única maneira de desprezar a morte. Cada traço, por mais simples que seja, é o mundo inteiro. É isso que essa frase queria dizer.
Desde o momento em que se começa qualquer coisa de novo, volta-se a querer continuar… a querer continuar a não morrer.
- E isto é uma atitude do homem ou só dos artistas?
- Não creio que haja diferença. Cada um de nos fará à sua maneira e como souber, riscos sobre o papel.
Pára uns instantes. Fico suspensa no saborear as suas palavras. A sua energia sugere uma estrutura sólida, terrena, que contém no seu interior um rio galopante, imparável, transportando imagens, ideias, emoções várias, que vêm ao de cima com precisão e consonância.
- Na sua “Autopsicografia” Pessoa define o poeta como um actor do seu próprio sentir. E o pintor? O Pedro é actor quando cria?
- Acho que não há gesto humano, por mais simples que seja, que não carregue consigo essa qualidade que Pessoa descreve nessa poesia. Toda a vida é uma mediação do mundo. Nas coisas mais simples, desde lavar os dentes até seja o que for. E todo o caos, o rio infindável de gestos humanos entendidos seja individualmente, seja socialmente, são mediações do mundo, são coisas que têm como única função criar uma hipotética verosimilhança para justificar porque é que se existe, porque é que se está aqui. Se entendermos que existe na actuação, ou no ser actor, essa espécie de deslocação para criar uma projecção de comportamentos que, sendo abstracta, seja de algum modo simbólica, trazendo consigo alguma coisa mais do que simplesmente o gesto que se vê, acho que essa qualidade residirá, afinal, em tudo o que fazemos e portanto não posso estar fora disso. Não, não estou fora disso.


Paula Ferro

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

imagens do pensamento

Chovem côdeas na paixão
nascem figos no tomilho
ouço vozes no convés.

Abate-se uma traineira
no grelo da tradição

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Diário de bordo

Resolvi criar mais este item no blog.
Um item que não exija de mim uma preparação prévia, onde me permita soltar-me e seguir o fluir do pensamento,
onde me exponha numa outra dimensão,
é este que enceto agora,
o diário de bordo.
De momento a minha vida divide-se entre as minhas duas cidades
embora só uma seja realmente e verdadeiramente a minha: Tavira!
O meu ser,
o meu sentir,
o meu cheirar,
a minha musicalidade...
a minha aprendizagem do mundo e da sua valorização foi feita aqui
em Tavira
e através desta cidade, das suas manchas cromáticas, dos seus volumes, dos arredores, dos seus ventos e águas... das suas temperaturas... das suas gentes, enfim....
se me começaram a despontar os humores
e a classificar os sabores.
A outra,
é aquela onde nasci, Lisboa,
aquela que nunca quis conhecer, nem quando para lá fui e lpor á andei a vender cursos de porta em porta,
(não vendi grande coisa porque não estava muito convencida do que queriam que eu convencesse os outros a comprar...)
nem quando lá renasci,
no Ar-Co,
escola que frequento agora de novo, após vinte e um anos de ausência.
Essa coisa de ter nascido fora da minha terra sempre me deu que fazer por dentro.
Sempre achei que Lisboa me tinha roubado qualquer coisa por me ter visto nascer.
Arrancou-me à plenitude das minhas raízes e eu fiquei muito zangada.
E não me tornei menos provinciana lá por causa disso, palpita-me que bem antes pelo contrário,
sinto uma mistura profunda com o horizonte natural destas bandas.
Com o urbano nem por isso.
A Eulália marcou o meu destino com as histórias que me contava na minha infância, quando eu estava doente ou, muito simplesmente, quando ela precisava de fazer qualquer coisa, e por isso era imperioso que eu me mantivesse pelo menos quieta.
Ela conseguia prender minimamente a minha atenção com aquela coisa da Maria dos Reis, a lavadeira que levava os meninos que não comiam a sopa toda ou que se portavam mal.
Antes de me mostrarem na rua a Maria dos Reis de saco às costas, pois eu ainda ía construindo uma imagem de uma criatura humana capaz de levar tanto menino dentro do saco, mas quando a vi, ri-me logo toda por dentro e pensei cá com os meus botões que elas deviam achar mas é que eu era tansa. Como se eu não tivesse já sentido prático e noção do que é plausível de ser verdadeiro ou falso.
Então, pois se andavam sempre a chagar-me a mioleira porque eu marinhava às árvores, corria pelos telhados, queria apalpar as coisas e misturar-me com o mundo...
Quem corre e finta e salta, tem que avaliar os balanços do corpo, medir a força dos músculos... eu competia também com rapazes nestas brincadeiras necessárias a encontrarmo-nos com a matéria que nos rodeia e com aquela que nos enforma...
Com certeza que quando me disseram que aquela senhora meio magra com ar triste, não de má, que vergava uma quase corcunda de fazer as costas aos sacos... eu pensei: Coitados, não vêem que isso não tem jeito nenhum!? Então não se vê logo que o mundo não pode ser assim?
Às vezes ia para a contra loja das minhas tias e escondia-me dentro dos caixotes de papelão.
Ai!? Precisava de respirar fundo de tanto disparate que me envolvia. Depois andava tudo à minha procura e eu ficava ali encolhida a pensar: Já está! Já estou outra vez metida numa embrulhada!?
Ah! A Eulália tinha também aquela da Mulher das Orelhas Grandes que estava escondida na casinha do tanque. Está bem!
Não acreditava lá muito mas o que é certo é que a Mulher das Orelhas Grandes de algum modo marcou a minha infância pois houve fazes em que já adulta sonhei muito com a casinha do tanque, com uma espécie de elefante do tamanho da minha tia Júlia mas gordo como um elefante, de pé, no meio da casinha, com um ar de estátua imperturbável mas que no seu interior continha uma vida com tiques de perversão e olhava com ironia por dentro de um outro olhar que pareciam bocados de vidro que fazem de conta que vêem.
E esse elefante baixo, sem dentes mas com tromba, estava ali, prostrado, no centro, contornado por um lago redondo que circundava a ilha onde o elefante permanecia, cheio de cobras pequenas, muito coloridas, muito cheias de intensidades fosforescentes nos seus corpos longos e finos ou curtos e finos, muitas, diferentes, rabeando por todo o lago, impregnadas de venenos dispares e intensos.
Toda a luz existente na casinha do tanque, nesses sonhos, provinha daí, desse lago entre dois círculos... o que dava ao (à) elefante um ar ainda mais ridiculamente pérfido.
Mas, na vida real da minha infância, eu também não ia lá muito nessa coisa da Mulher das Orelhas Grandes. Achava que já que ela insistia tanto, até que podia ser que realmente existisse uma mulher de orelhas grandes escondida na casa do tanque pronta a fazer mal a qualquer criatura inocente que passasse. Isso para mim, mesmo em pequenina, não fazia sentido nenhum.
Quando embalava mais na cantiga da Mulher das Orelhas Grandes era quando seguia as suas descrições, fazia uma espécie de visualização (a gente sempre fez coisas destas, das maneiras mais caseiras possíveis, só que não lhes dávamos nome nenhum, nem pensávamos nisso, né? Agora é que a consciência dos processos vem a chamar a essas coisas de "visualizações" e são-no na realidade e podem ser conduzidas de milhentas maneiras). Ficava em transe, pois claro, e aí a gente embarca em muita coisa...
Mas a Eulália um dia descobriu o Tarzan!
Contou-me uma história do Tarzan e eu nunca mais quis outra coisa! Tarzan é que era!
Aí, aderi perfeitamente à personagem e depois comecei a ler bandas desenhadas do Tarzan e depois também romances... e depois... colei-me ao bom selvagem solitário cheio de valores.
Esse, toda a gente sabe que era inventado, eu também sabia que o Tarzan tinha nascido da cabeça de um homem. Pois, mas esse que me disseram que era inventado, eu cá achava-o até muito real.
E foi assim que a Eulália, sem crer, marcou definitivamente o meu destino porque me abriu uma porta, tipo luva, para eu encaixar uma directriz estrutural para o olhar.
A Ilha de Tavira fez o resto.
É interssante que estas imagens me venham à cabeça exactamente na altura em que resolvo conciliar-me com Lisboa, em que me disponho a conhecê-la e a re-partir para a minha vida também dentro dela.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Fotografia - Reflexos e Pintura 1

Aqui está outro registo fotográfico de reflexos de barcos de pesca na ria, na Fuseta.

É por estas e outras que eu costumo dizer que ando à procura das pinturas do Criador. As pinturas que já estão dentro das coisas, do mundo real que nos circunda, tão cheio de histórias e lendas escondidas por contar.


Tenho outras que são autênticos quadradinhos de banda desenhada, mas interessa-me mais mostrar a plasticidade da realidade não apenas nos reflexos mas na forma como estes podem estar instalados na realidade, como podem já estar enquadrados "à maneira" nos bocados da realidade onde a gente pousa o olhar.

Ou como esta foto que se segue, que me suscita de imediato mil histórias para desenvolver e onde ao mesmo tempo se pode ver o que o toque da evidencia do real, encarnado naquela tira de lancil, pode implicar na composição.

Fotografia - Reflexos e Pintura

Sinto que as minhas buscas com a máquina fotográfica me conduzem à pintura.
Nos reflexos torna-se muito evidente essa minha tendência para a pintura.
O olhar pictórico.
Aconteceu-me encontrar este reflexo no Sécua, foi registado do lado de lá da ponte (na zona das esplanadas à beira rio, a seguir ao arco, perto da Ponte Romana).
A rua de onde se vê nascer a luz, sobe em direcção às traseiras do Palácio da Galeria.
De algum modo parece uma pintura, mas não é, é um registo fotográfico.

Um registo fotográfico que pode ser reenquadrado:


Pode ser reenquadrado de várias maneiras, dando destaque a partes diferentes do mesmo registo.


Posso querer explorar apenas a luz de permeio quase de um diálogo.


Ou procurar, a partir da luz, um ténue princípio de um rosto.






E estes registos podem apenas iniciar projectos de pintura que evoluem posteriormente para outros caminhos.