terça-feira, 8 de setembro de 2009

Entrevista - Reportagem com Rui Martins




in "Postal do Algarve"


Agosto de 2007








“Pouco importam as notas na música, o que conta são as sensações produzidas por elas”.
Leonid Pervomaisky






“A Arte tem qualquer coisa de mistério e de mágico.”






“A música, no estado puro, é independente do instrumento e do género.”



Rui Martins começou a interessar-se pela música ainda em criança. Em menino, pediu aos pais para lhe oferecerem uma guitarra, “porque eu gostava desse instrumento não sei porquê”. Aos 12 anos começou a tocar “com amigos que já eram músicos na área popular, no rock. Aos 13, 14 anos é que entrei na Academia de Amadores de Música. O presidente era o Lopes Graça, o grande compositor português”. Fez os seus estudos na Academia e no Conservatório de Musica de Lisboa com os professores J. Coutinho, N. V. de Almeida, e P. Naggy. “Depois de completar os meus estudos fui para França”. Foi aperfeiçoar-se na guitarra e em harmonia com A. Ponce e A. Weber e M. Rosset, professores do Conservatório Superior de Paris. Obteve o diploma superior de guitarra do Conservatório Nacional de Região de Música de Courneve e a Medalha de ouro - 1º Prémio (diploma superior) da Escola Nacional de Música de Fresnes. As suas actividades como músico foram variadas, desde concertista a professor de guitarra clássica no Conservatório de Música de Bois-Colombes (região de Paris) e na Escola de Música de St. Witz (França). Organizou encontros de guitarra, foi director de orquestra e júri de diversos concursos do ensino musical.



“É um erro analisar a arte só pela técnica”


Para Rui Martins “a música, no estado puro, é independente do instrumento, é até do género, se é música clássica, barroca, popular, rock, jazz… cada vez me delicio mais com qualquer género de música, quando gosto. Ia dizer quando é boa mas isso é muito vago, pode uma coisa parecer-me boa para mim e má a outra pessoa devido à nossa sociabilidade, à nossa cultura, e à qualidade técnica. Às vezes os músicos analisam a música um bocado mais tecnicamente ou deliciam-se com música que é muito técnica. No entanto uma música pode ser extraordinária com três ou quatro sons diferentes. Não é a quantidade de notas que nos faz deliciar”. O que nos delicia numa música nem sempre é a sua intelectualidade, “é um bocado como na pintura, não me estou a referir a Miró ou Matisse ou a artistas específicos, mas há quadros em que num bocado, num traço, existe uma coisa qualquer que nos faz sentir uma força, uma poesia… e não é preciso o quadro estar cheio de técnica ou de cores. Com a música é a mesma coisa, não é preciso a música estar cheia de notas, com uma técnica incrível, com contrapontos e uma harmonia extraordinariamente intelectual. Com três ou quatro notas pode colocar-nos assim num estado sentimental profundo”. A simplicidade é muito importante, “Mozart era um génio da simplicidade. Tem harmonias extremamente simples, só que as faz de uma forma extraordinariamente bela e genial. Quando a gente sinaliza uma partitura de orquestra dele é uma coisa simples, é acorde de dó, é mi, é sol. São quase as três notas do acorde. Claro que não é só isso mas a base é assim. Outros músicos, contemporâneos e não só, já fazem uma coisa muito mais intelectual. Não quer dizer que não nos possamos deliciar também. Não há assim tanta regra para os sentimentos das pessoas, é como gostar de outra pessoa. Porque é que eu gosto dela? A gente não se vai pôr a definir não sei com quantos parâmetros porque gosta da pessoa: é isto, isto, e isto… às vezes a gente nem sabe bem dizer porque é que gosta de uma pessoa e a Arte também é assim. É um erro analisar a arte só pela técnica. Quando se tem a técnica como referência é muito mais fácil não se errar a fazer um julgamento sobre uma pintura ou uma fotografia. Na música também é mais fácil dizer que um músico que tem mais raciocínio intelectual é bom. Ao ouvirmos um músico popular que usa poucas notas, é mais difícil dizer se é bom ou não mas acho que é mais importante ligar às sensações que nós sentimos do que propriamente à técnica”.


“Uma música pode ser extraordinária com três ou quatro sons diferentes”






“A harmonia é uma questão de moda”
Desde criança que o compositor está presente nele, “ com um amigo meu, o Carlos Cabral, desde a primeira vez que nos encontrámos, enquanto os outros meninos jogavam à bola, nós tocávamos. É giro porque éramos miúdos, não sabíamos tocar, não sabíamos notas mas fazíamos música”. Em França compôs peças de carácter pedagógico e de concerto para guitarra, coro, quarteto de cordas e orquestra. “Componho mais na área da música contemporânea, embora não seja música da vanguarda, longe disso. Tenho uma pulsação rítmica forte. O ritmo é importante porque é essencial na nossa vida”. Os sons, a harmonia “é uma questão de moda. Sons que eram dissonantes aqui há uns anos, são agora perfeitamente normais e as pessoas gostam” mas o ritmo é eterno e faz parte da vida, está dentro dela
, “quando andamos temos o nosso ritmo, a maneira de falar, cada um tem o seu ritmo, o ritmo existe na vida. Quando se faz uma música sem pulsação rítmica, como há pessoas que fazem, para mim vai contra a natureza, toca-me muito menos. Mesmo quando se toca Mozart, Bethooven, Fernando Sor, etc., compositores de guitarra clássica do séc. XVIII, XIX, essa música tem que ser tocada com uma pulsação forte e é muito mais difícil criar essa pulsação quando não há percussão e bateria”.

“Agora penso é na música que está dentro da minha cabeça”
Quando compõe põe-se num estado especial de concentração “concentro-me e liberto-me, começo a compor, a tocar, começam-me a sair as notas, escrevo, começo a encontrar outras vozes, outros instrumentos e só a partir de um certo momento é começo a ver onde é que a música me vai levar. Começo a encontrar um tema e um título para a música e só aí é que sigo a direcção daquela música. Funciono muito pela intuição e por sensações”. A técnica é importante
“ quando faço a música e me liberto, começo a libertar as notas, aos poucos e poucos começo a utilizar a técnica, porque da técnica precisamos todos, mas tento sempre libertar-me ao máximo disso. Não gosto muito de raciocinar antes, raciocino depois, claro. Quero ir mais directamente a uma coisa que não se explica pelo raciocínio. Acho que a Arte tem qualquer coisa de mistério e de mágico.”
Tem apenas uma guitarra clássica, a música não depende do número de instrumentos que se possui nem de um instrumento especial, a música existe dentro dele
. “Já senti uma intimidade maior com a minha guitarra do que sinto agora. Antes, um instrumento era assim como uma pessoa, ligava-me ao instrumento de uma forma muito íntima, pessoal. Agora não, agora penso é na música que está dentro da minha cabeça e a guitarra é um simples instrumento”.
Actualmente lecciona nos Conservatórios de Vila Real de Sto António, de Faro e de Olhão.

Paula Ferro






terça-feira, 11 de agosto de 2009

Jornalismo - Entrevista com António Inverno

in ".S" - Caderno de Artes do "Postal do Algarve"

Setembro de 2008





“Libertar as pessoas é o objectivo da arte, logo, a arte é a ciência da liberdade.”
Joseph Beuys







António Inverno
Defensor incondicional da liberdade










Um defensor incondicional da liberdade, cria e dinamiza projectos culturais por onde passa. Partilha o que sabe com a naturalidade com que respira. Fundou instituições como o Centro de Comunicação Visual A.R.C.O. e o Centro Cultural de Almada. Nasce como serígrafo para salvar a Seara Nova e hoje é um homem de destaque internacional na serigrafia, pintura e gravura. Trata por tu os grandes da arte e da política. Actualmente, entre outras actividades, é professor na ESE de Beja.





António Inverno nasceu em 1944 em Monsaraz. Em 64 conclui o curso de Gravador Litografo na Escola António Arroio. Teve como principais mestres, Roberto de Araújo, Manuel Lima, Estrela Faria e Abreu Lima. Trabalhou no atelier de Jorge Barradas na Fábrica da Viúva Lamego, com Rogério Ribeiro e Mário Rafael. Colabora na decoração de interiores do edifício da actual sede da Gulbenkian. Fez parte da equipa de Thomas de Mello, no sector gráfico na Feira Internacional de Lisboa. Em 1970 colabora na "Seara Nova" onde promove edições de serigrafias de artistas portugueses contemporâneos o que lhe dá dimensão internacional. Cria um atelier exclusivamente consagrado à serigrafia na Avenida Conde Valbom. Colabora com Júlio Pomar, Vespeira, Charrua, Espiga Pinto. Eduardo Nery. Maria Keil, Francisco Relógio, Jorge Vieira, Costa Pinheiro, Eurico Gonçalves entre outros. É sócio fundador do Centro Comunicação Visual A.R.C.O. e membro fundador do Centro Cultural de Almada. Organizou e leccionou cursos de serigrafia através de quase todo o país, destinados a professores de Educação Visual, bem como a animadores ligados às autarquias. No âmbito do intercâmbio com África seleccionou jovens artistas aos quais são atribuídas bolsas de estudo nos principais centros culturais da Europa e deu assistência a bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian.
Em 1993 criou o Centro de Serigrafia António Inverno. Colabora em vários Centros Culturais no Alentejo, promovendo exposições de artes plásticas de âmbito nacional. É professor de pintura, gravura, serigrafia e desenho na Escola Superior de Educação de Beja e brevemente também na de Viseu.

A gravura e a serigrafia, são ambas, métodos de reprodução gráfica. Qual a diferença?
Para se fazer serigrafia tem que haver um original e na gravura o original é feito em cima da chapa. Pode haver uma ideia preconcebida para aquela gravura mas a chapa é desenhada na altura.
Em Portugal, a gravura tem vindo a desaparecer, para grande mágoa minha porque gosto muito de gravura. Faz uma pequena pausa como quem desfolha lembranças e continua, olhe, havia um homem que infelizmente faleceu há pouco tempo, para mim um dos melhores gravadores da Europa ou mesmo do mundo, o Bartolomeu dos Santos. Vieram pessoas de todas as partes do mundo para aprender com o Bartolomeu. Ainda existe a Sociedade Portuguesa de Gravadores Portugueses onde ele também trabalhou. Aqui há uns anos os pintores faziam lá os seus trabalhos de gravura. Mas a gravura exige tempo e aquilo suja muito as mãos. Riu-se, há uma série de factores. Uma prensa não é muito cara mas é muito pesada, é difícil deslocá-la. Para fazerem as suas próprias gravuras, os artistas têm de ir a Tavira, onde está a prensa do Bartolomeu ou à Sociedade dos Gravadores Portugueses. Há uma também na Galeria Diferença em Lisboa.
A gravura tem que ser feita pelo próprio artista, não é como a serigrafia que pode ser feita por terceiros. Comecei a fazer serigrafia, as coisas começaram a correr bem, vinha gente do estrangeiro para trabalhar comigo. E a gravura foi sendo anulada. Neste momento, dentro das minhas possibilidades tento recuperá-la.

A arte tem que estar obrigatoriamente ligada à liberdade

Há uma relação entre o António Inverno serígrafo e a Seara Nova.
Pousa o olhar sobre mim com um sorriso e relata: houve uma altura em que a PIDE destruiu a Seara Nova. Fiz uma edição de 18 pintores para pagar coisas da Seara Nova que era uma revista muito importante, onde escreveu o Mário Soares, o Manuel Alegre, o Soromenho, o Zé Saramago… onde escreveu muita gente. Uma revista muito interessante. E a partir dessas edições comecei a ficar conhecido a nível mundial. Acabo por nascer na Seara Nova. Mas só fiz isso porque era preciso manter a Seara Nova, a PIDE partiu máquinas, partiu armários, partiu tudo…

A arte tem de estar ligada à liberdade?
Obrigatoriamente à liberdade. Razão pela qual os pintores na União Soviética, desapareciam, fugiam. Não tinham liberdade. E há boa pintura na Rússia, mas tinha muitas casinhas, muitas florzinhas… Tinha que ser tudo muito concreto.
O artista nunca se deu bem com a falta de liberdade.
Ninguém tem o direito de interromper o meu pensamento. De dizer: ‘tu não podes!’ Um pensamento é sempre criticável. Ninguém é dono da verdade, mas deixem-me ser livre! Faz uma pausa, olha-me de frente, sorri de novo e continua, agora, infelizmente vivemos num país onde as autoridades políticas não fazem nada pela cultura. Têm medo da cultura, sorri, olhe, o futebol! Não tenho nada contra o futebol nem contra quem gosta de futebol, mas é um tónico que dão às pessoas para terem ausências de pensamento, para nem sequer experimentarem a ter liberdade.

E, o que é a liberdade?
A liberdade? Olhe, a liberdade não é fazer tudo o que me apetece. Não, não é nada disso! A liberdade é não haver polícias, não haver juízes, não haver fome, não haver miséria. Um homem ter a possibilidade de se exprimir de qualquer forma, seja através da arte ou do que for. E é ter mais respeito pelo semelhante.

Portanto a liberdade define-se a partir de valores como o respeito e o livre pensamento.
Exactamente!

Mas tudo tem um reverso e cada atitude que se comete, uma consequência.
Claro!

Quando se age livremente pensa-se nas consequências dos nossos gestos e aí está a responsabilidade, não é?
É evidente! E esta liberdade que hoje dizem que temos, é mentira. E incomoda-me bastante este desprezo pela cultura. Não estou a acusar o ministro da cultura. Sou amigo dele, é uma pessoa muito inteligente, um grande senhor, mas não faz muito pela cultura neste país. Não há condições para isso, nem ele as vai criar.


Quando há cultura, as pessoas lidam umas com as outras de outra maneira.


A cultura é mesmo fundamental?
É! Pois claro que é!

Porquê?
Olhe, porque há países com menos recursos naturais que Portugal e no entanto têm um nível de vida superior porque têm melhor nível cultural.
A cultura é necessária sim, e constato que só por carolice nossa é que hoje se passam coisas muito interessantes neste país e cada vez mais, fora de Lisboa. Mas essas pessoas que dinamizam esses projectos deviam ser apoiadas. E o apoio nem sempre é dinheiro. As pessoas querem sentir-se compensadas com o seu acto de liberdade de pensamento. O Ministério da Cultura tem a mania de responder: “não temos verba para isso”. Ninguém lhes está a pedir dinheiro e muitas vezes se pedirem é para material que fica ali para outros eventos.







Homenagem em Algezur

Foi-lhe feita uma homenagem no passado dia 2 de Agosto em Aljezur onde pode ser visitada uma exposição fotoducomental, de serigrafias e aguarelas até dia 28. O evento contou com o Alto Patrocínio do Presidente da República. Presentes estiveram cerca de 400 pessoas provindas de diversos lugares do mundo e entre elas, personalidades como Luís Cabral. Na Comissão de Honra, encontram-se nomes como Elísio Summavielle e Gonçalo Couceiro e como os patronos, personalidades como Durão Barroso e Mário Soares. Contou com o apoio de instituições como o Governo Civil de Faro, Fundação Calouste Gulbenkian, Circulo Artur Bual e a Câmara da Amadora, entre outras.






Foi-lhe feita, em Aljezur, uma Homenagem. Qual a sua relação com Aljezur?
Gosto muito de andar por ali porque é de facto um ambiente de liberdade com interesse pelo saber. Existem projectos que não contam só com a população de Aljezur que é um concelho pequeno. Há a colaboração da Amadora. Penso que o Ministério da Cultura também vai participar. A Câmara de Aljezur? O Vereador, o Presidente e o Francisco Oliveira são pessoas abertas. Noutros sítios por onde tenho andado, às vezes perguntam: ‘aquele teu amigo não é de direita? Ou, não é de esquerda? ‘Houve lá uma série de conferências que se chamavam Desconversas, fui eu quem convidou as pessoas e nunca ninguém me perguntou se os meus amigos são de direita ou de esquerda.
O vereador da cultura é um grande senhor, sabe muito bem o que quer e tem uma vantagem, quando não sabe, pergunta. O Presidente da Câmara, é um homem que fala com as pessoas, senta-se à mesa com toda a gente, é uma pessoa calma e respeitada.
Em Aljezur sinto-me bem porque há democracia. E aquilo que está mal, procuram fazer melhor, e procuram aprender. E acho engraçado, eles perguntarem às pessoas como é que é.


Mas afinal o que é a cultura?
É ter a noção do que se passa à nossa volta. Se houver cultura há informação e poderemos fazer crescer algumas pessoas e atenuar as mágoas e as dores de muita gente. Tem que haver cultura para tudo isso. O mundo não pode viver só com fábricas. E as pessoas que estão na caixa de um supermercado também têm que ter cultura para fazerem mais e melhor, terem consciência e atenderem com alguma delicadeza. Olhe os polícias, um polícia não tem o direito de me tratar mal só porque tem uma farda. Isso não é cultura nem liberdade nem coisa nenhuma. Quando há cultura, as pessoas lidam umas com as outras de outra maneira.


Nem todos os capitalistas são fascistas

A cultura é imprescindível para ter mundo?
Claro! Faz uma pequena pausa, olhe, quando estive na guerra, estive na Guiné. Por vezes ocupei-me de explicar aos soldados portugueses afinal o que é a liberdade, o que é a cultura. Mostrar-lhes que para atingirmos a liberdade temos que dar liberdade aos outros. Fui castigado por causa disso! Eu tinha uma boa relação com o chamado inimigo exactamente através da liberdade que eu sentia e queria para os outros. É que as crianças não podem fugir e os velhos também não, ficam no terreno. Era consciencializar os soldados. Muitos abraçaram-me e outros trataram-me mal. Faz uma pausa. Sente-se nele uma certa comoção. Quando o homem tem alguma cultura entende muito bem e eu sempre procurei, dentro daquilo que eu possa saber, ensinar os outros.
Nessa altura já havia quem defendesse a liberdade dos povos e também devo dizer que nem todos os capitalistas são fascistas. Olhe, um grande capitalista que vivia em Lisboa, o Manuel Vinhas entregou-me sacos de dinheiro que eu, ainda jovem, entregava ao Agostinho Neto, ao Amílcar Cabral e a outros. Nova pausa, com outro sorriso, sereno, fiquei com muitos amigos, mas também fiquei com inimigos. E os inimigos quem são? São homens que por falta de cultura, por falta de educação, por falta de informação, por falta de uma série de coisas, viam em mim um mau exemplo, não defendia o meu país. Isso é mentira! Eu sempre defendi o meu país! Mas neste sentido: que os outros também sejam livres. Para eu ter liberdade não posso oprimir os outros. Isso foi o meu grande problema e que deixou marcas. Pausa. Agora lamento muito que outros homens, que às vezes vão para o poder, e que andaram a atirar pedradas, não para magoar alguém, mas contra um determinado poder, quando lá chegam, fazem exactamente aquilo que condenaram nos outros.

Acha que o poder é corruptor da humanidade dos homens?
Acho que sim!

Como pode ser educado o homem que vai exercer o poder?
Isso é muito difícil, repare, já há polícias para guardarem outros polícias. Já se mandam juízes para julgar outros juízes. Já não se está a acreditar em ninguém. Teríamos que nos educar a todos, a nós próprios, primeiro. Então, a partir daí, poderia nascer qualquer coisa.

A cultura é muito vasta, não é só erudita.
Com certeza, olhe, por exemplo, devia haver muito mais respeito pelos poetas populares, porque a erudição vem depois.

Artesanato e arte?
A arte é uma coisa e o artesanato é outra. Para o artesanato tem que haver muita habilidade, na arte pode não se ser tão habilidoso. Há indivíduos que são muito habilidosos e vivem dessa habilidade, mas a habilidade também não é a mesma coisa que a arte.

E o ultra-realismo?
Tem mais habilidade que arte. Por exemplo, encomenda um retrato da sua avó, paga ao pintor, põe na parede e depois convive com aquilo, chega a uma altura em que deixa de lhe dar importância. Os retratistas não ficam na história.

Mas o retrato pode ser feito de outro modo.
Pode! Olhe, o retrato que o Pomar fez do Mário Soares.

Concorda que o 25 de Abril chegou à Galeria da Presidência da Republica com o retrato do Mário Soares feito pelo Pomar?
Sim, sim. Riu. Foi muito contestado, não é?

A arte estimula o pensamento do artista e o seu trabalho estimula o pensamento de terceiros?
Exacto. Eu posso fazer uma pintura e daí a uns tempos alguém me vir dizer que descobriu isto e aquilo nessa pintura e eu responder: ‘isso é verdade, mas nunca tinha pensado nisso’.


O valor é do autor do quadro, não é do habilidoso que o reproduziu

Isso significa que perde a propriedade da sua pintura quando acaba a obra? A obra passa a ser propriedade do colectivo?
Eu vendo um quadro e esse quadro só deixa de ser meu ou da minha família 75 anos depois de eu morrer. Por exemplo, há aquele quadro de Fernando Pessoa que fez o Almada. O que está na Gulbenkian é uma réplica. O verdadeiro está no Museu da Cidade. Aqui há muitos anos o Jorge de Brito comprou-o e ofereceu-o à cidade. Comprou esse quadro num leilão. O que o Jorge de Brito pagou pelo quadro foi muito mais do que aquilo que o Almada recebeu por ele. Tenho impressão que o Almada recebeu mais da mais valia do que pelo quadro. Existe uma réplica na Gulbenkian, mas o seu valor é do autor do quadro, não é do habilidoso que o reproduziu.

O acto de pintar é um acto de solidão?
Um pintor está fechado entre quatro paredes, não fala com ninguém mas de propósito. Não se considera um indivíduo que vive em solidão. Mas pintar é um acto de solidão, sim.
O Sá Nogueira dizia que um pintor nunca deve estar desacompanhado. Tem que ter sempre um livro aberto, uma revista, uma coisa qualquer, mesmo que seja de pernas para o ar. E depois é a música, normalmente um pintor tem música no atelier.

A pincelada pode ser influenciada pela música?
Pode, pois pode. Até as cores podem ser influenciadas pela música.

Um allegro pode determinar um quadro cheio de movimento?
Sim, pode! A pintura é um acto de liberdade. Um homem é livre de fazer aquilo que quiser quando pega num pincel. Onde aprendi também muito foi com os loucos. Aquela liberdade que eles têm de se soltarem num espaço branco e depois começam a fazer aquelas pinceladas e começam a rir, e começam a soltar-se, começam a subir, a crescer.
Há essa solidão e depois também há esse acto de liberdade.



Onde aprendi muito foi com os loucos!



A relação do desaprender de Picasso e o acto do louco que não aprendeu mas que apenas se exprime e a arte em si?
O trabalho dos loucos interessa exactamente porque não aprenderam, já são crescidos e fazem as coisas como crianças. Um indivíduo chega a uma certa altura acaba por mecanizar os gestos e os pensamentos, por perder essa espontaneidade que os loucos têm.

Como começa um quadro?
Prefiro começar pelo caos, ir organizando um caos. Primeiro jogo a tinta para o espaço, depois dou pinceladas de todo a maneira e feitio. Muita gente começa por aí. Depois começo a organizar o caos. Uma das minhas funções é organizar esse caos. Muitas vezes acabo por descobrir no caos coisas que tinha pensado há muito tempo. Tem que ter uma dimensão de equilíbrio e uma dimensão da cor porque as cores também têm uma dimensão.

A arte mora no pensamento.

A arte mora onde?
Mora no pensamento.
A arte não é copiar o que se vê, isso pode ser habilidade. A arte quer transmitir um pensamento, um estado, uma emoção. Por exemplo na minha relação com os toiros na pintura, estou cá em cima na bancada e todo aquele desenho que se desenvolve numa arena, aquelas cores, aquela gente, o próprio desenho da arena, as pessoas ali sentadas e é redondo normalmente. Acho aquilo muito bonito! Aquelas cores lá em baixo, aqueles capotes, o toiro, a areia, tudo aquilo é bonito e tem movimento. A pintura não é uma coisa estática, tem que ter movimento. Esse movimento e toda essa emoção, um habilidoso pode não ser capaz de retratar, um menos habilidoso por vezes busca uma outra solução, faz de outra maneira e torna-se muito mais interessante. Por exemplo, se eu pintasse toiros na Rússia não ia preso, ou se calhar ia porque não há lá toiros, mas eles preferiam que eu pintasse uma casinha, uma jarra, uma criancinha a correr, tinham que perceber o que é que eu estava a pintar. Nada dessa coisa desses estados e dessas emoções. Nada que fosse discutível, que fizesse pensar, e a arte, no fundo é o pensamento. E faz com que as pessoas pensem.

Paula Ferro e Ricardo Claro








quinta-feira, 23 de julho de 2009

Entrevista com Miguel Lobo Antunes


in ".S" - Caderno de Artes do "Postal do Algarve"

Abril de 2009



“Quem tem imaginação mas não tem cultura, possui asas, mas não tem pés”.
Joseph Joubert


Miguel Lobo Antunes
Clareza, eficiência e flexibilidade


Miguel Lobo Antunes foi vice-presidente do ex-Instituto Português de Cinema (1983-85), director para o Cinema e Animação na Europália (1989-92), assessor jurídico de Lisboa Capital da Cultura (1994), geriu o Centro Cultural de Belém (1996-2001), foi programador do Festival Internacional de Música de Mafra, jurista do Tribunal Constitucional e actualmente é gestor da Culturgest.

Nunca houve tanta produção artística como actualmente

Gostaria que me falasse sobre a relação entre educação e cidadania e do papel da arte em ambas.
A arte é qualquer coisa de intrínseco à natureza humana. Desde sempre o homem teve uma necessidade ou um impulso para a criação artística. E continua a tê-la. Faz parte da condição humana. O homem sempre teve a procura do belo, ou o uso da imaginação, ou da construção, seja na arte popular, seja na erudita. Isso é um impulso, faz parte da natureza humana. Ninguém pode apagar isso, nunca se apagará. Haverá sempre artistas, sempre, enquanto existirem homens e mulheres.
Põem-se outras questões: haver um ambiente mais ou menos propício para que essas vocações, para que essa necessidade interior que as pessoas têm, se possa de exprimir e chegar aos outros. E isso tem variado segundo épocas históricas embora se tenha mantido sempre.
Existem épocas menos florescentes e épocas mais florescentes na história da humanidade. Houve alturas em que, por circunstâncias variadíssimas, se deu um crescimento singular, excepcional, na produção artística. Acho que actualmente vivemos um desses momentos, no sentido em que a produção artística se generalizou pelo mundo todo. Há imensas relações de comunicação, logo temos o acesso facilitado às produções artísticas mais díspares e das origens mais diferentes. De algum modo a criação artística globalizou-se.
Nunca houve, provavelmente, tanta produção artística como actualmente. Um dos problemas da gestão cultural que se começa a assinalar é que há mais oferta que procura. Há mais gente a produzir e os públicos não aumentam significativamente. Esse é um problema actual que não é de Portugal, é de todos os países mais desenvolvidos.
A arte relaciona-se com a cidadania, no sentido em que, para se exercer bem a cidadania, o conhecimento é importantíssimo, e o conhecimento da inovação e da criação são fundamentais para a formação das pessoas, para o esclarecimento das pessoas, para que tenham uma visão do mundo mais compreensiva, mais tolerante.
O conhecimento da actividade artística, do produto do que os artistas fazem, ajuda-nos a reflectir sobre o mundo, a reflectir sobre nós próprios, portanto, por consequência, a sermos melhores cidadãos, no sentido em que, o conhecimento é fundamental para exercermos bem a nossa vida com os outros.
A educação também se relaciona com isto porque é outra forma de contribuir para a formação do homem, para nos salvar da selvajaria, para nos dar outra dimensão.

Não há razão nenhuma para que se aplique o raciocínio económico à criação artística

Como educar para a cidadania com arte, ou como educar para a cidadania através da arte? É possível? Deve ser assim?
A educação, por natureza, contribui sempre para a cidadania. O simples aprender a ler, a escrever e a contar, mesmo que o ensino seja muito mau, mesmo que haja muitas críticas sobre o ensino, não tenho dúvidas que o adquirir conhecimentos, mesmo que a importância desses conhecimentos não seja a maior, esses não sejam os conhecimentos mais importantes para adquirir, é sempre positivo. E, as opiniões sobre a educação têm variado muito ao longo dos anos, os homens têm-se enganado tanto sobre o que é a educação…. De qualquer maneira, esta é sempre positiva para a cidadania porque forma as pessoas, porque dá conhecimento, e está provado que as pessoas mais educadas são aquelas que têm mais propensão para apreciar, gozar e compreender as práticas artísticas, sobretudo as práticas artísticas não populares, que exigem alguma reflexão, que interpelam as pessoas, que as põem em causa, que interrogam a sociedade. As pessoas que têm educação estão mais habilitadas a perceber, a compreender e a apreciar esse tipo de objecto artístico de construção dos homens.
Como deveremos agir nas nossas cidades relativamente à arte? Devemos dar-lhe valor? Incentivar?
Hoje em dia não há dúvidas. Toda a gente está de acordo que as artes devem ser incentivadas. A parte artística, a construção de objectos artísticos deve ser incentivada. Onde as pessoas se podem dividir é relativamente aos modelos para o fazer. Basicamente existem dois modelos: onde a intervenção do estado é fundamental, e o modelo anglo-saxónico, em que a participação dos particulares, dos privados, é mais predominante, ainda que nesses modelos particulares existam benefícios fiscais, e aí, o estado, indirectamente também apoia. Hoje em dia isso é indiscutível, ninguém põe em causa que sempre foi assim na história da humanidade.
Há certo tipo de realização artística que o mercado não justifica, não sustenta, e sempre foi assim a partir de certa altura na história do homem. Suponho que isso é pacífico. Há um acordo unânime que a prática artística, aquela que não consegue resolver-se no mercado, só sobrevive graças à generosidade dos particulares ou à generosidade do estado.
A arte não poderá nunca ser rentável?
Não. Eu acho que não.
Porque não serve para nada, é isso?
Não, não. Serve! O problema está em que, a certa altura, nos anos oitenta, o poder económico começou a predominar em todos os campos da sociedade. O único padrão de valores, a única maneira de dizer aquilo é bom e aquilo é mau era um discurso económico. No Renascimento, na Grécia, quando se faziam catedrais ou quando se faziam pirâmides, ninguém pensava nisso assim. Era a coisa mais abstrusa do ponto de vista económico e também social, morria imensa gente, os custos eram elevadíssimos.
A certa altura da nossa evolução, só se justificava aquilo que o mercado justificava, aquilo que economicamente se auto sustentava. Acho que não há razão nenhuma para que se aplique o raciocínio económico à criação artística, sem que isso signifique um completo desprezo pelo público.
O artista romântico e muitos artistas contemporâneos achavam que aquilo que tem muito êxito, não presta. Sobretudo a partir do romantismo há muito essa ideia, que muitos artistas geniais, aquilo que faziam, só teria valor se fosse apreciado por muito poucos. De facto, quando as coisas são muito inovadoras, não são compreensíveis pela generalidade das pessoas, são compreendidas por uma fracção. Daí a 50 ou 100 anos já não é assim, mas no momento em que surgem, são de tal modo inovadoras que o número de pessoas para quem aquela obra de arte fala, é um número muito restrito. Mas se não houver inovação também não há evolução na criação artística, por isso é essencial que isso exista assim. O artista, de alguma maneira, está à frente na compreensão. É muito mais inventivo, está muito mais à frente do que a generalidade das pessoas, por isso é que é artista.

Não é por se ouvir muito Marco Paulo que se chega ao Bach.

Para que a arte erudita seja mais amplamente compreendida, deveríamos tentar motivar as pessoas para se interessarem pelas artes. Isso implica uma aprendizagem. É útil e válido intensificar a cultura popular? Há um grau aqui?
Uma coisa não tem a ver com a outra. Não é por se ouvir muito Marco Paulo que se chega ao Bach. Não é por aí! O que não quer dizer que não se dê grande valor à cultura popular. Acho óptimo que as pessoas se emocionem com essas coisas. Muitas vezes não têm outras maneiras de se exprimir, de vibrar.
Agora em relação à arte mais inovadora, acho que deve haver um esforço de explicação. Há artistas que acham que não, que a obra vale por si, quem compreende, compreende, quem não compreende, não compreende. Não concordo, acho que, sobretudo nas formas de maior ruptura, se deve dar a maior informação possível, com a maior qualidade possível, para que maior número de pessoas possa entrar nesse mundo. Daí os serviços educativos e outras medidas que se criam hoje em dia.
Por exemplo nas artes visuais a ruptura é muito complexa. Na música contemporânea a ruptura foi muito grande. Ganha-se em dar às pessoas informação que lhes permita apreciar essa criação. Quanto mais pessoas apreciarem melhor.
Para alguns criadores isso é indiferente, suponho que grande parte deles cria para um grupo restrito de pessoas. Há outros que não, que precisam do sucesso, o sucesso é-lhes fundamental porque chegam a mais gente. Para outros o sucesso é visto noutra dimensão, não é o sucesso em números, é outra coisa.
Mas acho que deve haver a preocupação de tentar, não é explicar, é dar informação, ao maior número de pessoas possível, que há-de ser sempre um número relativamente restrito. Não é possível que todos os homens e todas as mulheres apreciem a Guernica, ou um quarteto de Bartók. Não creio que seja possível. As Quatro Estações de Vivaldi ainda acredito que sim, mas a maior parte das criações não. Depois, há pessoas que gostam de música e não gostam de pintura, depende de cada um. Os homens são muito variáveis.

Paula Ferro

Entrevista reportagem com Rafa Sendin

in ".S" - Caderno de Artes do "Postal do Algarve"


Abril de 2009





“Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria para a fogueira pelo direito de ter e de mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.”

Friedrich Nietzsche


Rafa Sendín
Arte com(o) atitude




Rafa Sendín nasceu em Salamanca em 1971. Frequenta ateliês dinamizados por Christian Boltanski, Gabriel Orozco e Nacho Criado e estuda com Rogelio López Cuenca. Desde 2000 participa em mostras individuais e colectivas, em Espanha, França e Portugal. Em 2005 beneficia da Bolsa Francisco Zurbarán da Junta da Extremadura. A sua obra é objecto de várias publicações e integra as colecções do Banco Santander, da Junta da Extremadura, a Colecção MEIAC, da Institución Cultural El Brocense e do Domus Artium.

A arte detém o conhecimento da história de arte, e há certas normas não escritas, uma delas é a liberdade.

Em “Fossa Comum”, exposição de fotografia e vídeo que se encontra patente ao público até dia 16 de Maio na Artadentro em Faro, Rafa Sendín reflete a partir de registos que retratam o brilho do progresso, ou a informação como sedução. “Este trabalho surge das fotografias publicitárias que podemos ver pelas ruas”, explica, “quando passeio com a minha câmara vou recolhendo muitas coisas, entre elas, fotos aos cartazes publicitários”.
Neste conjunto de obras primeiro vem a ideia, como um desenho mental, depois vêm as fotos, e a seguir, o trabalhá-las em computador. “O estúdio leva-me a elaborar o trabalho de outra maneira. Comecei a reflectir sobre o retrato. Construo um retrato a partir de dois retratos, feitos por outro fotógrafo. Estou a apropriar-me do trabalho de outro artista, ou de outro profissional, neste caso da fotografia publicitária. Utilizo uma parte feminina e outra masculina, e assim introduzo a noção de género: Feminino, masculino. Introduzo o tema da tendência sexual: homem/mulher, mulher/mulher, homem/homem”.
As coisas acontecem. A realidade motiva o olhar de diferentes pontos de vista. “São trabalhos que se desenvolvem muito lentamente. Então, vou introduzindo uma temática múltipla. Não há apenas uma, mas muitas leituras. Por exemplo, os cadáveres esquisitos dos surrealistas. Fazer retratos com duas partes de rostos diferentes que fazem um só retrato. E é curioso ver como duas expressões, de duas secções dos rostos, fazem uma expressão natural”.
Pára diante de uma das suas obras, olha um pouco em silêncio, aponta a fotografia, vira-se e afirma:
“O género não está no rosto nem está no corpo, está na cultura, na educação”.
Somente?
“Principalmente, não somente. É lógico que fisicamente o homem e a mulher são diferentes. Não no rosto, no rosto não são diferentes”.
E no comportamento?
“No comportamento? Sim, mas o comportamento geral é dado pela cultura”.
Nada pelos genes?
“Logicamente algo influirá, mas não tanto como agora sucede”, e lembra, “as nossas mães trabalhavam em casa, cuidando de nós e da casa, enquanto os nossos pais trabalhavam fora. Agora vêem-se, as mulheres e os homens, não de uma maneira igualitária ainda, a aproximar-se muito no desempenho dos mesmos trabalhos”.
Pensa que entre os homens e as mulheres não existem diferenças?
“Muito poucas. As mesmas diferenças que existem entre uma pessoa e outra”.

A arte é uma ferramenta de pensamento e por isso de construção individual

A arte é assumida como gesto, o gesto de um observador intenso em estratégia reflexiva sobre o mundo, essa globalidade variável em permanente transformação.
Também fala de homossexualidade e heterossexualidade…
“Não falo, penso, reflicto. Não trato de resolver. Não me interessa resolver estas questões. Interessa-me assinalar que é negativo que suceda que nos vão guiando. Não quero guias, não quero guias nem na arte, nem na vida. Mas quero informação, quero que me digam as coisas. Com isso me basta, eu decidirei”, pausa., “por exemplo, não tenho formação artística, não estudei arte”, encolhe os ombros num gesto desprendido, “bem, não estudei de forma académica. Evidentemente que me tenho informado e me mantenho informado”, olha com clareza e simplicidade, “não quero tutores. Há uma canção em Espanha que diz ‘eu não quero um bom tutor, prefiro enganar-me eu’”.
“Fossa comum”. Porque razão este título?
“A fossa comum é o local onde se enterravam os fuzilados, na guerra civil, sem identificar os corpos. E como isto sai da publicidade”… sorri, “para mim a publicidade é como uma fossa comum do pensamento dos indivíduos”, olha-me sério, “não?” Pausa, “a publicidade trata de guiar o pensamento, e eu trato aqui de libertar as ideias, de abrir o pensamento”.
Rafa Sendín está atento ao que o rodeia, e para além da dimensão estética, o seu trabalho encerra uma dimensão ética, na medida em que se debruça sobre os fenómenos da alienação colectiva em que vivemos.
“Creio que em arte há um único ponto a atingir, infelizmente muito distante, que é a liberdade. A liberdade de pensamento e a liberdade de acção. A liberdade na hora de trabalhar a obra, na hora de pensar, e na hora de viver”.
Gosta que o espectador da sua obra vá desprevenido de informação, “quero que se possa apreciá-la sem todas as minhas reflexões. Não me importa que não se veja. Quero que o espectador, quando se confronta com uma obra minha, esteja limpo de informação. Primeiro que a veja, que a perceba, e se lhe interessa, que aprofunde a causa. Para isso existe o livro, o texto crítico, as minhas ideias, as minhas intenções… mas primeiro, a obra tem que funcionar visualmente sem informação. Tem que ser vista.”
A arte como generosidade individual, como comportamento, ou melhor, como atitude. “Para mim a arte é uma ferramenta de pensamento e por isso de construção individual”.
Constrói-se através da arte. Essa é uma das funções da arte? Qual a função da arte?
“Bem, função!?” e joga a mão ao queixo para agarrar o pensamento, “bem, não acredito que a arte seja uma coisa inútil. Logicamente não é uma forma de ganhar a vida, não é um trabalho remunerado. A arte é uma atitude, uma maneira de fazer, de pensar e de viver. Não é um trabalho ao uso, que chega ao fim do mês e alguém paga. E não tem horários, pode-se estar trabalhando toda a vida, incluindo quando se dorme. Um artista, tudo o que faz é arte”.
E o que é um artista?
“Aquele que faz arte”.
E o que é a arte?
“A arte detém o conhecimento da história de arte, e há certas normas não escritas, uma delas é a liberdade”.
A liberdade é o caminho da arte?
“Claro, pelo menos como a vejo. Com Goya, nas pinturas da Quinta del Sordo, ou com a pintura política, de livre pensamento, não arte de encargo”.
Pensa que a sua arte é política?
“Existem aí conceitos políticos mas não são reconhecidos na obra. Podem sê-lo, porque falo da liberdade”.
Pensa que a política e a liberdade estão ligadas?
“Sim, claro, a política implica a liberdade e a condenação”.

Nunca me interessou desenhar a realidade. Para isso temos olhos, para vê-la.

Esta exposição é de fotografia, mas Rafa Sendín usa outros suportes para se exprimir. “A ideia vem primeiro, e a ideia é, principalmente, essa meta distante da liberdade. Esteticamente vou procurando a liberdade criativa. Em desenho trabalho com círculos porque me parece ser a forma mais básica. O quadrado é muito artificial. Não faço círculos perfeitos. Se usasse compasso cortaria a minha liberdade”. Em fotografia? “Não sou fotógrafo, utilizo a câmara”.
Gosta especialmente de retrato. “Quando comecei a desenhar fazia sempre retratos. Retratos imaginários, nunca retratavam ninguém. O retrato podia ser desta ou daquela pessoa, mas a única coisa que se assemelhava fisicamente à pessoa que queria retratar era o nome, não o desenho” e sorri, simplesmente, “nunca me interessou desenhar a realidade. Para isso temos olhos, para vê-la”.
Mas o retrato, “é quase o mais importante em arte. O retrato representa-nos, não?”, o olhar abre-se com ar de óbvio, “e através dele quero introduzir muito mais temas. A vida interior do adormecido e a casca da morte”, faz um gesto com a mão, “o corpo que sai…”, olha-me num sorriso, “e estou falando de religião também. Ao fotografar um morto, estou fotografando a alma, ou simplesmente algo que não tem vida? São muitas coisas…” e entrega-se a um sorriso pensativo.
Corto o silencio:
A religião e a morte estão relacionadas.
“Claro, mas eu sou agnóstico. Não creio absolutamente em nada que não seja a vida, o amor, e a liberdade”.
É a concepção da morte, a descoberta da existência da morte, que faz nascer a religião.
“Claro. As perguntas inexplicáveis deram origem à religião. Claro. Inventar histórias para que possamos viver mais a gosto com essas perguntas que não têm respostas”, repousa o olhar no infinito aberto em sorriso, “quando é muito melhor ter perguntas que não têm respostas”.

Paula Ferro

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Entrevista/reportagem com Jorge Côrte-Real

in "Postal do Algarve"
Abril de 2007


"A foto-retrato é um campo cerrado de forças. Quatro imaginários aí se cruzam... diante da objectiva, sou ao mesmo tempo, aquele que a fotografia julga e aquele de que se serve para exibir sua arte."
Roland Barthes in “A Câmara Clara”






Quando deixar de haver “material fotográfico sensível” a fotografia morre.

Jorge Côrte-Real nasce praticamente com uma máquina fotográfica nas mãos. O negócio de família na fotografia vem de Angola faz mais de 60 anos. Começou com um tio paterno que mais tarde passa o negócio a seu pai (hoje com 80 anos). Já em Portugal, passa para o seu irmão mais velho (já falecido). Actualmente encontra-se nas suas mãos. Como profissional começou a “dar ao dedo” em velhas maquinetas analógicas aos 14 anos. Na firma, inicialmente a sua tarefa era mais parecida com a pintura. Limitava-se a retocar os positivos de fotografia. Não apenas as de maiores dimensões como era habitual, mas em todos os tamanhos devido ao perfeccionismo do pai. Apesar de ser um trabalho mais de pintura do que de fotógrafo, entusiasmou-o e agudizou a sua paixão pela imagem.

Depois do 25 de Abril “caí em Olhão por acaso. O meu pai é natural de Ermesinde mas como na altura não havia lá lugar para nós, acabámos por rumar ao Algarve. Naquela altura mandar revelar um rolo de fotografias a cores demorava no mínimo uma semana. Eram todos revelados em Lisboa. O meu pai abriu o primeiro laboratório a cores no Algarve para onde passaram a ser encaminhadas quase todas as revelações da região. Trabalhávamos praticamente 20 horas por dia. Quase todo o trabalho era artesanal”. Nessa altura os Côrte-Real já tinham preocupações ambientais. “Os químicos não eram despejados directamente nos esgotos. Eram previamente filtrados. O processo permitia não só evitar descargas poluentes mas também a recuperação da prata existente na película fotográfica que era posteriormente vendida, o que nos proporcionava uma mais valia. Hoje em dia temos de pagar a empresas para a recolha das soluções químicas.”



- Desculpem interromper. Isto é uma entrevista?
- É!
- Para que jornal?
- Para o “Postal do Algarve”!
- Mas como? Eu também venho fazer uma entrevista para o “Postal”. Há aqui qualquer coisa que não bate certo!
- Problema seu... o meu está praticamente resolvido.
- Mas o que não está é o meu...


- “Desculpem, não tenho nada a ver com isso nem quero ser mal educado, mas ou fazem mais perguntas ou vou-me embora. Tenho mais que fazer!”

Regista Olhão, o Algarve e as suas gentes há mais de 30 anos.

Jorge Côrte-Real regista Olhão, o Algarve e as suas gentes, em película, até hoje. Isso resulta num espólio considerável. Um testemunho histórico importante que já merecia ser estudado e publicado. No seu deambular de mais de 30 anos pelas ruas desta cidade foi captando imagens do que já não existe e daqueles que já cá não estão. Muitas personagens típicas desta cidade só continuam a existir graças às suas películas religiosamente guardadas.
A primeira exposição de fotografia em que Jorge participa foi uma colectiva em Olhão em 1981, num antigo café à data abandonado, onde hoje funciona a dependência do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa. Exposição que na altura se saldou por um sucesso de público calculado em alguns milhares de pessoas.
Em “A Semana Santa do Senhor Morto em Olhão” - fotos nocturnas de 1984- as fotografias são impressas em tela de modo artesanal, o que lhes confere um ar quase “sobrenatural” quando a cor e o brilho da textura da tela se misturam. Todo o processo é manual, desde a captação das imagens sem flash, até às molduras que ele próprio cola e pinta.
- Desculpe mas agora sou eu a fazer a pergunta!
- Como queira, desde que não me atrapalhe!
- Ora querem lá ver!?
- “Ou se entendem ou vou-me mesmo embora!... Santa paciência!”


Possui material e conhecimentos para ampliar fotos em grandes dimensões

Possuidor de diverso material que possibilita ampliações de grandes dimensões em papel fotográfico, mantém-no guardado numa cave do seu antigo laboratório em Olhão, Jorge Côrte-Real confidencia que consegue “revelar fotos de 3 por 5 metros. Hoje em dia não sei se haverá mais alguém em Portugal com capacidade ou conhecimentos para fazer ampliações tão grandes. Há alguns anos havia laboratórios que o faziam mas agora não sei se haverá.” Truques que aprendeu na mestria do ofício e lhe permitem, utilizando pequenas tinas, revelar fotografias de grandes dimensões. Um segredo que guarda só para si: “há pessoas que têm noções de fotografia e quando vêem fotografias grandes dizem: ‘Isto teve que ser no chão, teve que ser na banheira!’ Não é nada disso! A ampliação faz-se na parede e a revelação em tinas pequenas. São trabalhos que dão muito gozo mas que hoje raramente faço por falta de tempo. Estou sozinho no negócio. O meu pai já tem 80 anos, está reformado, o meu irmão faleceu. Tenho mais irmãos que gostam de fotografia mas não se dedicam a ela profissionalmente”.

A firma Côrte-Real foi das últimas a aderir ao formato digital sem ter abandonando o analógico. Prova disso é que as reportagens efectuadas pelo Jorge ainda são feitas em filme e só depois passadas para digital. Diz-nos com alguma mágoa que “no dia em que a película a preto e branco acabar, a fotografia para mim e para outros que eu conheço, acaba também. A fotografia analógica tem magia! É uma lente mágica! Quando deixar de haver o “material fotográfico sensível” a fotografia morre, perde o interesse.”

Não somos pessimistas ao ponto de pensar que a fotografia acabará quando se deixar de fotografar em película ou quando se deixar de revelar em papel fotográfico. A prova disso mesmo é existirem artistas como ele. E enquanto existirem artistas tão sensíveis e imensamente grandes na sua simplicidade como Jorge Côrte-Real uma coisa é certa: as coisas que eles fizeram ou vierem a fazer, quer queiramos ou não, ficarão para sempre guardados em filme, ou em fotografias amareladas pelo tempo, muito para lá da nossa memória colectiva.

- Só por curiosidade, quem assina a entrevista?
- Claro que sou eu!
- Tu... E porque não eu?
- Porque estou há mais tempo no jornal e porque fui eu quem começou a entrevistar o Jorge.
- Pois vê-se pelos cabelos brancos! Mas também pelo que escreves... não aprendeste nada.
- “Basta! Xau até depois. Mas que seca de entrevista!”
- Jorge... Jorge? Espera lá, Jorge... ainda não...
- Olha, foi-se embora! Tinhas mais alguma pergunta para fazer?
- Eu não. E tu?
- Eu também não... que se lixe! Fica assim...


Paula Ferro versus Henrique Estêvão




Entrevista/reportagem com Daniel Vieira



in "Postal do Algarve"
Abril de 2007









“Pela Arte o homem sente que domina e detém, enfim, o poder de imobilizar e conservar, não só o que viu à sua volta, mas também o que viveu dentro de si.”

RENÉ HUYGHE




A minha verdadeira universidade foi pelos cafés e por aí.


Daniel Vieira começou a gostar de pintura em criança. “O meu pai pintava a vista da varanda e eu gostava daquilo. Um dia apareceu aqui um pintor da velha escola dos impressionistas, o senhor Jorge Falcão Trigoso. O meu pai levou-o para casa. Eu gostava das coisas que ele fazia.” Não achava graça à escola. “ Fui estudar para Faro. Mau estudante! Não estudei nada! Eu gostava era de rua! Voltei para Alte e comecei a pintar com o meu pai. Tinha pr’ aí 12 anos.” Hipnotizado pela vida, não parou de aprender coisas. “A gente aprende em qualquer lado, não é? A minha verdadeira universidade foi nos cafés e por aí. O meu tio Caixeiro, um dia deixou cair uma bilha no poço. O poço tinha o gargalo de pedra. Ele disse-me: Estás a ver? O baraço é mole, não é? Mas tantas vezes foi buscar coisas lá em baixo que furou a pedra! Assim podes ser tu!” Nessa altura já Daniel queria ser pintor e “um senhor, parente do Cândido Guerreiro, disse-me que um pintor tem que saber de tudo. Essa também me ficou na cabeça. Entusiasmei-me e comecei a estudar em Loulé, na explicação do sr. Porfírio Lopes. Um personagem engraçado! (parou a olhar para o ar como quem regressa por instantes a um lugar já inabitável mas que se mantém aceso na sua memória. “Fiz o 2º ano, fui para Lisboa. Fiz a António Arroio à noite. Fui trabalhar na Caixa Geral de Depósitos e matriculei-me na Escola das Belas Artes” que concluiu em 1974.

Quem nos tira a aguarrás tira-nos tudo.

Daniel Vieira fez cursos nocturnos de Pintura, Gravura, Música, (um deles com o professor João de Freitas Branco, “grande maestro, gostava muito de ver as mãos dele!”), Teatro, Expressão Dramática… Em Belas Artes especializou-se em Gravura, “quem nos tira o cheiro da aguarrás tira-nos tudo!” Não pára de estudar. No ano passado voltou para as Belas Artes para um curso de Ilustração porque sentia “necessidade de falar com pessoas novas!” Um eterno jovem. “ Nasci no ano da graça de 1937. No ano em que Picasso pintou a Guerenica”, a última invenção feita em Arte. Agora é muito difícil criar algo verdadeiramente novo. Pinta por necessidade, porque sente coisas e tem que as pôr cá fora. Não trabalha todos os dias a horas certas, funciona por impulso quase visceral. “Bem, estou trabalhando sempre, mas às vezes é só de cabeça!” Tem imensos quadros inacabados e trabalhos terminados que são compostos por várias telas que se completam, como se de um puzzle se tratasse. As exposições que apresenta na Horta das Artes, muitas vão-se renovando e continuando, porque o tema lhe agrada e encontra sempre forma de melhorar aquilo que exprimiu. Isso acontece com a actual, intitulada “Herotices”, “sim, sempre fui virado para o herótico mas agora estou mais descarado!!!” (risos), e se mistura com uma série de outros trabalhos que enchem as paredes da “oficina”, trabalhos seus e trabalhos de outros que por ali passaram. Em simultâneo existe outra exposição, permanente, de gravura (sempre a renovar-se, claro!), esta sobre a música popular, tema que trabalha neste instante também em desenho, aguadas e técnicas mistas e sobre a qual tem umas “esculturazitas” de barro.

Aprende a tocar viola campaniça… pelo telefone!?


Detentor de aguçado espírito crítico e social preocupa-se com as raízes dos hábitos e costumes das gentes que estão na vida. Participou em inúmeros Congressos e Colóquios ligados à cultura e música popular. Investiga nessa área. Tem vários trabalhos publicados como “ Simbologia do Povo Português”, “Música, dança e gastronomia medievais” entre outros publicados e inéditos. Teve diversos cargos públicos. Fez várias recolhas de música popular e desde 1976 tem pertencido a diversos grupos de música popular portuguesa, nalguns como coordenador. Ainda hoje pertence ao Grupo de Música Popular Erva Doce da Casa do Povo de Alte (voz, bandolim, cavaquinho e percussão). “Agora deu-me para aprender a tocar viola campaniça.” Como aprende? “Pelo telefone!” Olha para mim, divertido, “com um amigo meu de Évora, o Virgílio Neve, vou-lhe perguntando coisas e ele vai-me explicando.”
Para o Teatro, Daniel Vieira elaborou cenários, foi actor, encenador, agente cultural, e fundador do Teatro da Estrada, um projecto que já vinha de Messines, criado por Pedro Ramos e outros. Continuou-o e adaptou-o juntamente com a Célia Martins “uma força da natureza. Ela é assim como eu, dá tudo pela Arte, até recusou pertencer a um grupo de teatro onde poderia ganhar dinheiro para se dedicar a isto onde o que ganha é trabalho.”
O projecto Teatro de Estrada funciona dentro da Horta das Artes que “começou de uma maneira muito simples. Quando acabei o curso de Belas Artes fiquei por lá a trabalhar em gravura com o Mestre Teixeira Lopes e com a professora Matilde Marçal. De vez em quando lembrava-me de Alte e tinha as minhas confissões. O Teixeira Lopes perguntou-me se eu não tinha cá uma casa velha onde pudesse fazer uma oficina de gravura. Inicialmente isto era só um armazém onde o meu pai tinha as alfarrobas e as amêndoas. Ele deixou de apanhar alfarroba e amêndoa e eu roubei-lhe a casa. (Risos) Fiz a minha primeira oficina! Depois houve aqui um curso intitulado ‘Pensar Alte’ com sociólogos e arquitectos de vários países. A Isabel Raposo era a comandante da malta. Fez-se um estudo bastante completo e interessante sobre como reconstruir a aldeia. A Isabel Raposo escreveu dois livros, ‘Alte e a roda do tempo’, que conta a história de Alte e da sua arquitectura e outro sobre a maneira de reconstruir a aldeia. O livro foi para a Câmara Municipal de Loulé e durante três ou quatro anos esteve guardado em caixotes. Depois de terem feito estes mamarrachos todos é que fizeram o lançamento do livro!?” Nessa altura constatou-se que era necessário criar uma escola. Havia falta de terreno. “Se fizerem uma escola dedicada às artes gráficas, eu dou o terreno. A Câmara não quis! Então eu pedi dinheiro emprestado, a Isabel Raposo fez o projecto, ainda me vi à rasca com isso, cheguei a dever dinheiro a dois bancos ao mesmo tempo. Mas cá está a Horta das Artes” com exposições e outras actividades culturais que abre diariamente das 11 às 19 horas, não apenas aos visitantes mas também a quem queira ir para lá aprender e trabalhar.
E… fica afinal quase tudo por dizer sobre este homem onde a vida pulsa, lançada em diversas direcções que se completam, em permanente renovação.


Paula Ferro

Entrevista/reportagem com Susana Nunes






in "Postal do Algarve"





Novembro de 2007






"Não há nada mais fútil, mais falso, mais vão, nada mais necessário que o teatro."
Louis Jouvet






Já fiz praticamente de tudo que se possa fazer em teatro.











O seu percurso como actriz foi muito autodidacta.



Susana Nunes sempre gostou muito de cinema e de música mas o teatro passava-lhe ao lado até que veio estudar engenharia biotecnológica para a Universidade do Algarve. No primeiro ano inscreveu-se num “curso de iniciação teatral do SIN-CERA. Tinha 19 anos”, era um curso “de três meses, expressão dramática, o geral, o básico para pessoas que quisessem ter o primeiro contacto com o teatro” orientado por “Vítor Zambujo que é actor e professor. Trabalha com o CENDREV em Évora, é um dos manipuladores dos bonecos de Santo Aleixo. No final fizemos uma pequena apresentação pública a partir de uns textos de Karl Valentim, e adorei aquilo, foi a primeira vez que tomei contacto com aquele tipo de exercícios e foi toda uma nova série de possibilidades que se abriram ali. Foi uma sensação muito clara porque foi muito orgânica, uma coisa desproporcionada em relação àquilo que via que os meus colegas estavam a sentir. Não tinha memória de ter feito alguma outra coisa na minha vida que me tivesse dado tanto gozo, que me tivesse dado tanta alegria fazer e percebi que independentemente do curso que a minha vida viesse a tomar, ia ter de arranjar maneira de continuar ligada ao teatro porque simplesmente não havia outra hipótese. Continuei a colaborar com o SINC-ERA e fiz de tudo: sonoplastia, operação técnica de luz, de som… fui fazendo workshops de teatro, de movimento, de dança… coisas promovidas pelo SIN-CERA e por outras entidades em Faro, em Lisboa… Fui complementando a minha formação, comecei a ver espectáculos, tudo o que tinha possibilidade de ver, aqui, fora, onde quer que fosse. Fui-me envolvendo de uma forma cada vez mais intensa com o SIN-CERA, estive na direcção durante quatro anos e a trabalhar como intérprete, sonoplasta, produtora… durante seis anos. Já fiz praticamente de tudo aquilo que consigo lembrar-me que se possa fazer em teatro. Não fiz direcção, nunca parti para um projecto de raiz para encenar e assumir inteiramente a responsabilidade artistica de um trabalho. Para já não é o que me interessa, também porque não me sinto preparada para o fazer. Acho que convém ir acumulando experiências, ver o trabalho dos outros, observar, conversar, ler, e perceber se tenho alguma coisa para dizer e de que forma é que o posso fazer…”


O teatro não pode apartar-se de uma certa responsabilidade.


Quando está a representar “a sensação que considero mais interessante experimentar é a dualidade. Conseguir estar em dois espaços, em dois estados de consciência em simultâneo…é uma viagem que permite abstrairmo-nos completamente de tudo. Um estado de concentração… essa possibilidade de me conseguir fechar sobre uma coisa, sobre um objecto, sobre algo que estou a fazer, mas em que há um publico, um receptor muito concreto”.
O seu percurso como actriz “passou muito pela auto descoberta, desenvolver o auto conhecimento, foi de uma forma muito autodidacta”.
Para Susana Nunes “o teatro não pode apartar-se de uma certa responsabilidade. Considero que a experiência é intensa para o público, sempre. O teatro é eficaz, de uma forma sub-reptícia para que as pessoas se encontrem e se confrontem com as suas próprias emoções. Essa eficácia e esse poder não podem ser usados de uma forma inocente e quem o faz, tem que saber que tem essa responsabilidade. O teatro pode ser um veículo transformador, de desbloqueio, mas não tem que ser nada massivo. Aqueles pequenos dados que se vão introduzindo, deixando sementes... trabalhar com essa subtileza pode ser mais eficaz do que estar a ‘bandeirar’ explicitamente determinadas ideias”. Creio que o essencial é gerar diferenciação, confrontar o público com novos dados, novas perspectivas e deixá-lo ir para casa germinar”.






Representar em interacção com o público é um bocadinho como estar em queda livre.


É muito diferente representar uma peça onde o público não intervém directamente e representar quando existe contracena com o público, como acontece muitas vezes com o grupo Al-MasRAH, do qual Susana Nunes também é fundadora. Representar em interacção com o público é “um bocadinho como estar em queda livre. Ainda que não tenhamos que esperar uma resposta do público, olha-se para as pessoas e percebe-se exactamente o que elas estão a sentir, percebem-se as emoções, os pensamentos, as reacções, em esgares muito pequeninos, em momentos muito pequeninos de expressão. Se calhar as pessoas pensam que estamos alheios ao que elas estão a sentir, que criamos uma esfera para nos protegermos e não deixarmos que isso nos perturbe ou distraia, mas não, nós estamos atentos, presentes e altamente sensíveis a esse estímulo. Esse jogo é muito interessante, a possibilidade de o espectador, de um momento para o outro, tomar a coisa nas suas mãos, alterar o curso, introduzir um dado novo, agora mando-te esta, o que é que fazes com isto? Não posso ignorar isto senão estrago o jogo. Só que nunca acontece, e é essa linha ténue que o actor vai percorrendo porque sabe que o espectador a maior parte das vezes não tem coragem para o fazer, há uma espécie de intimidação, se bem que a possibilidade está sempre presente. Enquanto espectadora sinto muito isso. Quando estou numa plateia e sinto que de repente os actores vão arrancar para o público, vão agarrar alguém pela mão, ou que me vão perguntar alguma coisa, eu fujo! Não sei bem porquê. Se calhar, há uma certa perda da inocência quando se conhece o processo de dentro, e depois se parte para o lugar de espectador. Parte-se do princípio que o actor precisa dessa inocência para fazer o jogo funcionar, e se calhar eu não lhe vou dar isso, só vou tornar a coisa mais complicada”. Quando trabalha directamente com o público, “há essencialmente essa troca e uma sensação muito clara que as pessoas são altamente generosas, receptivas e estão cheias de vontade de participar. Isso é muito evidente e muito estimulante”.




Teatro e expressão dramática não são a mesma coisa.


Susana Nunes também é formadora, “a experiência que tenho é só ao nível da expressão dramática e com um público muito jovem, entre os seis e os doze anos, essencialmente. Teatro e expressão dramática não são a mesma coisa. Expressão dramática, não tem por propósito a criação de um objecto teatral formal para mostrar a um público. É uma disciplina com exercícios próprios, uma ferramenta de trabalho para o teatro mas existe fora do teatro. Existe agora no currículo de escolas secundárias, por exemplo, e independentemente de os alunos virem a ser actores ou não, expressão dramática é útil para a vida”. Para as crianças, “basicamente é o exercício da imaginação, estimular a imaginação. E, é auto conhecimento, o contacto com o outro, o conhecimento dos outros, o conhecimento do seu corpo e da sua expressão particular, dos seus potenciais e limites. Ajuda a inter agir e é partir daí que se cresce. Qualquer pequena brincadeira de crianças tem todo esse processo, eles fazem expressão dramática naturalmente, criam personagens instintivamente, imitam o que vêem os adultos fazer, em casa, na televisão, os professores… O que nós também podemos fazer é trazer questões da vida deles, conflitos, problemas, evidenciar isso de alguma forma no trabalho de grupo e ajudá-los a reflectir para encontrarem soluções”.
A expressão dramática, seja para crianças ou para adultos, ajuda o individuo a tornar-se mais assertivo na medida em que “desenvolver a empatia pelo outro, conhecer o outro, desenvolver o auto conhecimento… predispõe a entender o meio em que se encontra. Se a pessoa se conhecer bem, sabe lidar melhor com os seus próprios ‘reveses’, aceita melhor o que a vida lhe traz, torna-se mais responsável pelos seus gestos e pelas circunstâncias em que se encontra. Fica mais perto de si própria e por isso também mais perto dos outros e do mundo”.

Paula Ferro