sábado, 30 de agosto de 2008

jornalismo - eventos mais discretos - Paulo Serra em Belamandil

in Postal do Algarve - Novembro de 2006

Paulo Serra expõe no Chalé de Belamandil


Uma exposição de desenho de Paulo Serra foi inaugurada na passada sexta-feira no Chalé de Belamandil na freguesia de Pechão, Olhão. A exposição intitula-se “Sancho e umas flores” e gira à volta de um cão.
O Chalé de Belamandil pretende ser um pólo de dinamização duma cultura neo-ruralista da nova era.”, afirma José Bívar, o proprietário do Chalé,“a agricultura não morreu mas os agricultores do futuro serão pessoas que herdarão o mundo rural com uma consciência crítica do que é o mundo urbano e burguês. Procuram no rural os valores que perderam no urbano. Valores como o sentido da comunidade e da vida simples e partilhada.
A arte como ponte entre o rural e o social. Esta exposição de desenhos é um início. Estará patente ao público no Chalé de Belamandil até dia 30 de Novembro aos sábados e domingos entre as 15 e as 22horas.
Para outras informações ou possíveis visitas fora do horário estabelecido, contactar o telemóvel 918 378 733.

Texto e fotos de Paula Ferro

jornalismo - momentos marcantes - Viviane em Tavira

in Postal do Algarve - Maio de 2007
Espectáculo de Viviane em Tavira

A artista sente que um caminho está de novo a começar.

O Cine-Teatro António Pinheiro, repleto de público, recebeu Viviane no passado sábado. A leveza da sua voz quente foi enchendo a sala, aconchegando os corações dos tavirenses que há muito esperavam ouvi-la, ao vivo, na terra onde ela sempre foi querida e desejada. Os aplausos iam aumentando a cada canção, como se todos nós fossemos embalados pelos encantos daquela voz sedutoramente hipnótica transmitindo imagens simples e fortes de quotidianos que a todos nós nos tocam. Esta Viviane, mais madura e a solo, vem cumprir as promessas que acalentámos nos anos 80 quando a ouvíamos, ainda quase menina, já com a voz misturada aos acordes da viola do Tó Viegas, sempre cantando, pelas esquinas da vida.
Começou a ser conhecida pelo grande público em 1990 quando os “Entre Aspas” ganham o terceiro lugar no concurso de música moderna da Câmara Municipal de Lisboa e assinam um contrato com a multinacional BMG. Em 93 a voz de Viviane tornou-se um lugar comum com “Voltas” e “A criatura da noite”. A partir de 95 “O Perfume” de Viviane andava no ar enchendo os ambientes. Destaques de trabalhos que marcam a música pop portuguesa. Outros trabalhos se seguiram. Na viragem do século tinham regressado ao formato acústico, sempre trabalhando aqui e ali, em colaboração com outros artistas de tendências várias. Em 2005 o grupo “Entre Aspas “ extingue-se e Viviane inicia uma carreira a solo, sempre em parceria com Tó Viegas. Nestes dois últimos trabalhos “Amores Imperfeitos” e “Viviane” há um aproveitamento mais assumido da diversidade e adaptabilidade da sua voz .
De Viviane, já todos conhecemos a marca pessoal que coloca em tudo aquilo que faz por muito dispares que os trabalhos sejam. Temas diferentes, adaptações diversas a outros níveis e embalos do som, fizeram com que obtivesse um conhecimento mais pleno das suas capacidades e, com a sua honestidade e descontracção costumeiras, tivesse descoberto o caminho mais próximo e mais adequado para o uso das suas potencialidades como cantora e como música e para manter a sua originalidade.
A atitude simples e descontraída com que assume todos os papéis que lhe são colocados diante do próximo passo. A mulher que se entrega, sempre a mesma, perante a multiplicidade. E…Viviane não se perde, mesmo quando canta, conduzindo-nos a emoções tenras… que nos transportam … no seu… “A vida não chega”... Nem quando se transforma na mulher outra, a valente que se abre numa faceta diferente da sua feminilidade, o seu “tanguear” com momentos de voz que nos revelam a sua “latinidade” misturada e em gestos onde a catraia e a mulher consciente se misturam numa expressividade peculiar e única que a definem a ela e só a ela mesmo, Viviane, quando nos canta “Coração despido”. Nem quando assume a lusitana que também percorreu a noite lisboeta e assimilou uma vertente da tradição conduzida para outras formas de vivenciar, uma interpretação da sensação do fado, em “Amores Imperfeitos” ou em “Meu Coração Abandonado” e aí a temos de novo, ela mesma. Muito diferente da Viviane que nos encantou nos anos 90 com “Voltas”, e que, agaiatada menina nos cantava “…uma flor, uma pequena flor, que eu colhi, a pensar em ti…” mas ela continua a ser a mesma na sua autenticidade. Agora, mulher poema que mistura a vida com a balada, chegou a um patamar da sua maturidade e sente que um caminho está de novo a começar.
Neste espectáculo com que Viviane e os músicos que a acompanharam, Chico Santos no contrabaixo, Helena Mendes no acordeão, Rui Freire na bateria e Tó Viegas na viola e na guitarra portuguesa, nos ofertaram em Tavira podemos ser embalados por temas destes dois últimos álbuns como “Coração Abandonado”, “A vida não chega”, “Estes dias sem ti” entre outros e temas que fazem parte de outros trabalhos como “Formiga Bossa Nova” e “Alma Danada”.
No final Viviane agradeceu a todos os presentes, mostrando que vir a Tavira é para ela sempre especial e agradeceu à Câmara Municipal de Tavira, na pessoa de Macário Correia que estava presente, pelo apoio dado para que este espectáculo pudesse acontecer e por apoiar a música portuguesa.
Por muitos e diversos motivos, estou muito emocionada hoje”, conta Viviane ao POSTAL DO ALGARVE, “a nível pessoal foi um bocado estranho mas foi muito bom ter conseguido pisar este palco e ter conseguido dar o meu melhor às pessoas. Dei o meu melhor. Hoje de manhã não acreditava que ia estar aqui. Já tomei injecções de penicilina porque estou com uma amigdalite.”
E… ao virar costas, salta-me do ouvido do coração a voz de Viviane : … “tenho tanto por dizer…tanto por te contar… que a vida não chega…
Paula Ferro

Jornalismo - eventos importantes - Joana Vasconcelos no Palácio da Galeria em Tavira

in Postal do Algarve - Março 2007

Al(mas) de Joana Vasconcelos no Palácio da Galeria.

A instalação é o novo caminho da Arte.


O Palácio da Galeria inaugurou uma exposição de Joana de Vasconcelos intitulada "Al(mas)" no passado sábado. Joana Vasconcelos é considerada como a jovem artista portuguesa mais marcante nos últimos anos. Trabalha sobretudo no domínio da escultura e da instalação. Estudou Joalharia e Desenho no Ar-Co, onde foi professora de escultura. “Na joalharia aprendi a pensar tecnicamente e como construir uma peça. A Joalharia é muito exigente nesse aspecto.” Explicou Joana ao POSTAL DO ALGARVE. “No desenho aprendi a olhar, a representar. A joalharia e o desenho dão aquilo que é preciso para fazer escultura. Depois é uma questão de escala.” Para a artista a instalação é o novo caminho da Arte. “A diversidade, o multiculturalismo, as fronteiras abertas, fazem com que o tratamento também esteja multicultural.” Afirma. Perde-se portanto a ideia clássica do escultor na pedra trabalhando sempre o mesmo material. Neste momento todos os materiais estão disponíveis com uma informação. O escultor clássico ía do material para a ideia. Agora vai-se da ideia para o material. “ Chego aos materiais não por eles mas por aquilo que quero fazer.” Conta Joana VasconcelosQuero mostrar o que é a contemporanização. O que é que é o luxo em Portugal? Como é que eu vou representar isso? E chego à conclusão que é com talheres de plástico.” Uma das salas contem um coração de Viena, um coração de filigrana, vermelho, com quase 5 metros de altura que gira sobre si, brilhando, ao som da voz de Amália. Faz parte de uma trilogia, a trilogia do fado: Ouro, Sangue e Morte. Este é o Sangue e não tinha sido mostrado antes em Portugal. O que a artista pretende mostrar é que esta peça, sendo de plástico, tem tanta vida e brilho como se de ouro se tratasse, logo, os materiais podem ser nobres ou não, de acordo com o uso que lhes damos. Uma jóia de plástico tem tanto impacto quanto uma jóia de ouro ou de prata. Todos os materiais podem ser nobres se soubermos aplicá-los como tal. A contemporanização do luxo.
Nesta instalação podemos encontrar diversas salas com diferentes músicas, diferentes sons, aliados a iluminações adequadas ao diálogo dos objectos que nelas se encontram instalados. Instalar não é colocar objectos ao acaso. A instalação tem a ver com a colocação no espaço, a relação entre os meios. Todas as peças têm um jogo com a arquitectura, com a luz, com o som. Tudo isto forma um ambiente.
Duas das salas são inteiramente inéditas, uma delas representa os caranguejos da Ria Formosa. Peças ampliadas por Bordalo Pinheiro cobertas por renda. Três peças colocadas em cima de púlpitos com uma disposição específica, com uma determinada iluminação. “Se fosse apenas uma, no púlpito, seria uma escultura clássica.” Explica Joana. “O facto de serem três, de estarem dispostas de determinada maneira, com determinada luz é que faz delas uma instalação. Estas peças estão instaladas, não são só colocadas. Há toda uma relação.” Outro momento forte é a sala seguinte, as Algemas. “Algemas em espanhol quer dizer algemas e quer dizer mulheres. É interessante usar-se a palavra algemas também com o significado de mulheres.” Vai explicando Joana no seu ar tranquilo e despreocupado. “Estas mulheres estão presas aos seus homens mas esta peça não seria a mesma coisa se não estivesse ali aquela fotografia da senhora real também com as algemas. O real representado e o irreal verdadeiro. A imagem é do real e a realidade é uma imagem de…”. Outro momento forte é a sala onde se encontram as imagens de Nossa senhora de Fátima. Várias, de vários tamanhos, com uma iluminação em movimento enquanto na parede podemos ver passar um vídeo da viagem feita por Joana seguindo o percurso dos peregrinos a Fátima ao som do Bolero de Ravel e da música da Pantera Cor de Rosa. As Santas, todas agrupadas e arrumadas. A multiplicidade de objectos tão costumeiro em Joana Vasconcelos como demonstração da “estética de supermercado” representando em simultâneo o altar e a banquinha de venda. O religioso e o consumo no mesmo instante.
As “21 Maravilhas” outra sala inédita, apenas com a passagem de um vídeo de várias senhoras sentadas, sempre na mesma posição, fazendo renda, rodando, tendo como fundo algumas maravilhas de Portugal, como a Biblioteca de Mafra, o Palácio de Queluz, o Palácio da Pena, a Torre de Belém… Uma peça inacabada que gera a sala ao lado, A Valquíria, por isso também inacabada, toda em renda. A renda que as senhoras do vídeo estão pacientemente a fazer.
Esta exposição está patente ao público até dia 2 de Junho. De terça a sábado das 10 horas às 12 e 30 horas e das 14 horas às 17 e 30 horas. Vale a pena ir ver e ficar... a observar e a abrir outras formas de pensar.
Paula Ferro


Jornalismo - entrevista com João Manuel da Fonseca

in Postal do Algarve - Março de 2007



Através da pintura deixo sair os meus sentimentos, extravaso as emoções, as sensações, os meus estados de alma.



João Manuel da Fonseca nasceu em Tavira a 31 de Dezembro de 1953 mas reside desde criança em Santa Luzia, terra que adora. Actualmente colabora com Juntas de Freguesia do Concelho de Tavira na criação de cenários, cartazes e logótipos para as festas populares. Foi também o autor do projecto de uma rotunda sita em Santa Luzia. Ainda muito novo ganhou o primeiro prémio no concurso de construções na areia promovido pelo Jornal de Notícias durante três anos consecutivos. Foi Fuzileiro Naval mas as artes plásticas estiveram sempre no seu coração e sempre foram a sua segunda ocupação. O artista encontra-se representado em inúmeras colecções particulares tanto em Portugal como no estrangeiro. Participou em diversas exposições individuais e colectivas desde 1990.
Pode ser apreciada uma retrospectiva de trabalhos seus a partir do dia 6 do corrente mês no Salão da Junta de Freguesia de Santa Luzia de segunda a sexta-feira das 16 e 30 horas às 19 e 30 horas e aos sábados e domingos das 16 às 20 horas.

Pintar dá-me paz e tranquilidade.

POSTAL DO ALGARVE – Quando descobriu que tinha tendência para as artes?
JOÃO MANUEL DA FONSECA –
Desde a escola primária. Nessa altura já gostava muito de desenhar. A minha professora guardava os meus caderninhos. Todas as páginas dos meus cadernos tinham desenhos. Também desenhava para os meus amigos. Aos doze anos ganhei pela primeira vez o primeiro prémio da primeira categoria no concurso “Construções na Areia” que era organizado pelo Diário de Notícias. Prémio que repeti nos dois anos seguintes.

Também trabalha em escultura?
Sim. Na minha vida profissional como militar fiz alguns trabalhos de escultura, posso destacar a maqueta da pista de lodo que se encontra na Escola de Fuzileiros e as esculturas que se encontram na entrada do Batalhão nº 1 e na entrada do Edifício do Comando do Corpo na Base de Fuzileiros (Alfeite).


Formação artística.
Sou autodidacta. A minha aprendizagem foi feita sobretudo em casa e especialmente com o meu irmão, o Carlos Fonseca Martins.

Há mais artistas na família?
Que eu tenha conhecido pessoalmente, o meu avô materno que era mestre entalhador e músico. A minha mãe também tinha muito jeito. Tenho alguns quadros dela. E por último o meu irmão que é mestre de pintura.


Como conseguiu conciliar a carreira militar com as artes plásticas?
Não senti nunca dificuldades em conciliar uma coisa com a outra. Ambas se completavam. Inicialmente pintava nas horas livres, muitas vezes no quartel porque era asilante, depois a convite dos meus superiores, comecei a fazer outro tipo de trabalhos com maior seriedade.

Que tipo de trabalhos o convidavam a fazer?
Para além das esculturas já referidas, foram-me propostos logótipos. Sou co-autor do actual símbolo dos Fuzileiros, foram-me propostas várias pinturas, uma delas, representando os Fuzileiros que me foi encomendada pelo Comandante do Corpo de Fuzileiros e se encontra no seu gabinete.

A pintura e a escultura são como uma necessidade fisiológica.

Pintura e escultura. Qual a preferência?
Gosto tanto de pintura como de escultura. Se não faço mais escultura é porque não tenho um espaço físico adequado às necessidades deste modo de me exprimir. Fiz algumas experiências utilizando materiais da natureza, como conchas, pedras e outros, o que me deu muito prazer. Cheguei a expor trabalhos desses mas gostaria de ir mais além dentro da escultura. Gostaria muito de trabalhar com barro, esculpir pedra e experienciar outros materiais. Talvez um dia… Pintar é uma necessidade constante. Através da pintura deixo sair os meus sentimentos. Pintar dá-me paz e tranquilidade. A pintura e a escultura são como uma necessidade fisiológica. São onde extravaso as emoções, as sensações, os meus estados de alma, as minhas angústias, as minhas melancolias.

Também faz arte sacra. Porquê?
Faço arte sacra porque gosto de fazer retrato. Por exemplo o retrato de Madre Teresa de Calcutá e o de João Paulo II. Independentemente de serem figuras ligadas à Igreja, são pessoas que admiro pela sua obra e pela mensagem que nos deixaram. Mas, para além destas personalidades também pintei outros rostos públicos como por exemplo, o retrato do Duque de Bragança que se encontra na sua própria residência.


Também pinta paisagens.
Sim, sobretudo paisagens marinhas e urbanas porque gosto de pintar tudo aquilo que me rodeia.


Por vezes deixo-me ir atrás de mim próprio e o trabalho acaba por me ultrapassar.

Mas eu já vi quadros seus que vão para além desse realismo.
Por vezes eu proponho-me a fazer um trabalho mas deixo-me ir atrás de mim próprio e o trabalho acaba por me ultrapassar, ou surpreender. Outras vezes, apresento trabalhos com um ar de muita espontaneidade e que são o resultado de composições ou de decomposições.

Pinta com que regularidade?
Desde que me aposentei pinto com maior regularidade, praticamente todos os dias.

Qual a importância da cor?
A cor é fundamental porque a cor é luz e sem luz não há vida e viver para mim é criar.

Textura.
É um complemento da cor e da forma, dá mais possibilidades ao acto criativo.


Já vi quadros seus com relevo.
Isso tem a ver com a minha necessidade de inovar, de procurar novas texturas, de experienciar e descobrir novas técnicas.

Qual a importância da composição?
É fundamental. Dela depende a harmonia ou desarmonia, a beleza e a estética.

História de Arte. É importante?
Claro que é importante. É lá que vamos beber. Por isso é que cada vez mais é fundamental a manutenção e criação de museus, ou de outros espaços, onde se agrupem trabalhos artísticos para que todos possamos aprender com eles.

Tem especial admiração por algum artista plástico?
Sim, por muitos. Especialmente por Medina e Eduardo Malta, dois artista portugueses do séc. XX, na medida em que são retratistas que me influenciam.

O que é para si um artista?
Um artista, por maior que seja, jamais conseguirá fazer-se amar por todos. Seria ingenuidade pretender que uma obra agrade a toda a gente. Um artista é alguém que exprime sentimentos e sensações. No fundo, não é mais nem menos do que uma pessoa que cria obras de arte dignas de relevo.

Texto e fotos de Paula Ferro




(retrato de Jesus Cristo)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Jornalismo - entrevista com Tomás Colaço

in Postal do Algarve -Fevereiro 2007

Instalação "Animal-Carnival" na Artadentro em Faro.


Tomás Colaço revela: “Tenho um avô pintor, um bisavô pintor, um tetravô pintor…”



Tomás Colaço, formado em Arquitectura por Veneza, em 1994, doutorado em Teoria da Arte Contemporânea pela Sorbonne, em 1999, provém duma família de várias gerações de pintores e estuda Arte desde criança. Ensina arquitectura, desenho, pintura e escultura mas continua a receber aulas no Ar.Co e na Maumaus em Lisboa porque não quer parar de aprender. Vive e trabalha em Tanger e Lisboa. A pintura, o desenho, objectos e o vídeo, integram normalmente as suas exposições/instalações de cariz conceptual.

Quando descobriu que tinha tendência para a arte?
Tendência para a arte não descobri ainda, mas comecei a trabalhar muito cedo em arte. Seria difícil de fugir a isso. Tenho um avô pintor, um bisavô pintor, um tetravô pintor... Isto é já mesmo um mal de família, dizem. Comecei muito cedo a ter aulas. Não como criança no jardim-escola mas aulas de pintura. Com Cecília Mant fazia uma coisa chamada Educação pela Arte, fui aluno do Espiga Pinto, depois da Maria José Paço d’Arcos, uma “superartista” que pôs imensas pessoas a pintar. Perto dos 16 anos fui estudar para a Ar.Co., durante muitos anos. Ainda lá continuo. Dou aulas de arquitectura, desenho, pintura e escultura mas vou sempre recebendo aulas. Agora estou na Ar.Co. e na Maumaus que é uma escola um bocadinho conceptual.

É arquitecto.
Sim. Tirei Arquitectura. Comecei por fazer a Escola de Agronomia. Saí de Agronomia para ir para Direito e fui para Arquitectura. Acabei Arquitectura em Veneza mas nunca deixei de pintar, quem diz pintar, é pintar, fazer escultura, vídeo e fotografia. É esse o meu trabalho.

Qual é a relação que existe para si entre pintura, desenho, escultura, vídeo, fotografia e arquitectura?
Habituei-me desde cedo a fazer pintura, fazer escultura, fazer fotografia e fazer vídeo. No fundo são uma e a mesma coisa na medida em que são técnicas diferentes, meios de expressão diferentes para nós nos exprimirmos, para nós falarmos das coisas que nos interessam. São coisas que nós necessitamos de exprimir, é uma necessidade, é um desejo que se torna necessidade. Não é só mostrar a pintura, neste caso o que é que eu fiz? Aqui fiz uma instalação de pintura, escultura um pouco, mas essencialmente de pintura e desenho. A parte de instalação é tão importante ou mais do que a parte em que eu estive sozinho, isolado, a fazer as minhas pinturinhas que parecem umas coisinhas de bombons suíços, não sei… As pinturas são o álibi para as pôr na parede. Podiam ser minhas ou de outra pessoa, não é muito importante.

A Pintura é uma proposta de uma nova visão de objectos que já conhecemos.

Podia definir instalação.
Instalação é uma coisa muito simples, o nome é que às vezes assuste as pessoas. Porque tem o ar de contemplar, disparatado, maluqueira. É agarrar numa série de objectos e colocá-los num espaço para com isso expressar alguma ideia. No caso da Animal-Carnival, estão aqui as pinturinhas umas ao lado das outras, está aqui um bicho muito esquisito com uma cabeça muito esquisita que pode ter graça ou não, está ali um papagaio que tem um corninho de plasticina que pode ter graça ou não, mas, qualquer criança olha e vê, vê dessa maneira que nós podemos ver na instalação. E que é não levar muito a sério, não achar que tem imensos significados, fabulosos, extraordinários e transcendentes. É uma proposta de uma nova visão de objectos que às vezes já conhecemos. É aqui que reside a arte. Por exemplo a Pintura, é uma proposta de uma nova visão de objectos que já conhecemos, especialmente quando é figurativa. Naquele caso (apontando para um dos seus trabalhos expostos na parede), estou a propor ver o Palácio de Sitiais mais esverdeado do que de costume. Nesta exposição tentei ser um bocadinho divertido.
No Pós modernismo vai-se buscar objectos que já existem para recriar ou recontextualizar, para apresentar de uma nova maneira ao público mas não precisamos à partida de sermos grandes virtuosos pintores ou virtuosos escultores. Basta-nos à partida, da dita calma, agarrar nos objectos existentes de que nós gostamos ou que nos fazem sentir alguma coisa que mexem connosco e vamos propô-los às pessoas que nos vêm ver.

A Arte é a coisa mais séria que existe mas não em cada peça.

Quando faz uma instalação a sua preocupação está na mensagem ou com a parte estética?
Essa procura da mensagem, normalmente é o perigo da interpretação dos nossos trabalhos. Pelo menos no que se refere ao meu trabalho. Por exemplo aqui (apontando para uma coluna pintada com um papagaio em cima), se uma pessoa vir um papagaio com um corninho, em cima de uma coluna com um homenzinho assim meio morto e começar à procura de uma mensagem, aquilo corre mal, não é? (Risos) Corre-me mal a mim e corre mal à pessoa que está a ver. Mas se chegar aqui uma criança e olhar para a coluna com o papagaio, é uma simplicidade fantástica, não tem problema nenhum, é um papagaio que fica mais divertido com um corninho vermelho feito em plasticina, tem mais graça do que se não tivesse o corninho em plasticina e o resto da coluna é uma coisa que uma pessoa vai-se divertindo e vai pintando e não leva aquilo muito a sério. Por isso é que eu estava a dizer que se levarmos estas coisas muito a sério, é uma chatice. (Sorriso aberto e divertido) Se não levarmos muito a sério, é divertido, é bem disposto, fica-se contente, tem graça. Às vezes vê-se chegar uma pessoa a uma exposição e ficar com um ar aflito a olhar para as coisas a pensar: “ O que é que eu hei-de pensar disto?” e apetece dizer-lhe: “ Oh homem, relaxe! Descanse! Não fique aflito!” Quando digo para não levar a Arte a sério é neste sentido. A Arte é a coisa mais séria que existe mas não em cada peça. Repare, se eu dissesse que um papagaio com um corninho vermelho de plasticina era uma coisa séria, provavelmente, no mínimo batiam-me e acho bem. Ou uma girafa preta toda mal feita, com os cornos de um gamo que não é girafa nenhuma é, por acaso um gamo que vivia em Máfora e os líquens que são da Serra da Arrábida e depois acabou tudo pendurado em Faro, em cima duma coisa preta… Se uma pessoa levar isto a sério à procura de uma mensagem por detrás de tudo isto, é uma chatice. Se uma pessoa for achar que é divertido, tem graça, se vir que cada elemento é um elemento curioso ou chama a atenção ou é insólito suficiente para despertar alguma curiosidade, exercer uma atracção qualquer por qualquer coisa, já é diferente. A primeira necessidade é nós estarmos aqui bem dispostos e é o apelo estético realmente. É uma coisa que nós procuramos e que as pessoas acham que já ninguém procura mas é mentira, que é o apelo estético, o apelo a uma coisa que se chama a excelência, que é seduzirmos de alguma maneira. Nós queremos seduzir. Queremos, com os meios que temos, sejam eles quais forem, comprando cãezinhos na feira, pintando colunas em casa, fazendo plasticina em cima dos papagaios, indo buscar vinil para fazer girafas, seja o que for, nós queremos seduzir as pessoas que cá chegam e queremos que as pessoas encontrem uma coisa de que não estavam à espera. Seduzir tem a ver com esse factor surpresa, com essa coisa de dizer: “O que é que é isto agora? O que é que aconteceu? O que é que este gajo quer?” Essa coisa também pretende ser um factor de sedução. Agora é ou não é. Depois é conforme, tanto o cliente como nós. O sermos realmente excelentes ou não.

Texto e fotos de Paula Ferro

O porquê deste blog

Este blog acontece por uma razão prática: Pertenço a uma grupo de artistas, "A Ponte" que tem um site,
Surgiu a ideia de elementos que tenham mais material criarem o seu próprio blog para ser ligado ao site.
Essa ideia germina há meses cá dentro, impõe-se-me, até que conseguiu vingar e ser, este blog que aqui tenho.
As minhas actividades são várias:
Fotografia, Poesia, Desenho, Pintura, e tenho sede de mais e de misturar vários suportes...
Ao mesmo tempo sou jornalista cultural no semanário regional Postal do Algarve.
Parece-me adequado colocar aqui trabalhos dentro desta área, na medida em que um dos objectivos do grupo é ser ponte, como o seu nome indica, entre artistas e associações.

Jornalismo - Entrevista com José Delgado

José Delgado Martin é membro do grupo A Ponte.

in Postal do Algarve em Abril de 2006.
José Delgado Martin, pintor e ceramista espanhol, descobriu em criança a sua tendência para as artes. Dos 12 aos 19 anos estudou na Escola de Artes Aplicadas em Granada. Tirou Belas Artes em Madrid. Entre os 16 e os 21 anos ganhou vários prémios de pintura. Teve uma galeria em Detmold – Alemanha. Pertenceu à Berufsverband Bildender Kűnstler (Associação de Artistas Plásticos) na Alemanha. Está incluído no dicionário inglês Who’s Who desde 1978. Foi professor de arte na Alemanha. Expôs em diversos países da Europa e no Japão. Agora vive nos Moinhos da Rocha, na Assêca – Tavira com um gato e os seus bonsais, rodeado de obras de arte.
Postal do Algarve– Com que idade fez a primeira exposição?
José Delgado Martin –
Quando tinha 19 anos. Com 20 anos expus na sala de arte mais famosa de Granada. Nunca nenhum pintor juvenil tinha exposto antes no Centro Artístico de Granada. Nessa altura era tudo aguarela. Durante muito tempo só pintava aguarela.

Quando começou a pintar a óleo?
Não me lembro! Já faz tanto tempo!? Mas o prémio de Madrid já foi com um quadro a óleo. Em 54 já pintava a óleo e também pintava aguarela.

Quando descobriu a sua tendência para a cerâmica?
Descobri ao mesmo tempo que para as outras artes. Sempre gostei de trabalhar com as mãos. Ainda gosto. Mas a cerâmica é o meu hobby. A pintura é o meu trabalho. A cerâmica é muito interessante porque tem volume. Quando pinto, não tem volume. A perspectiva, tudo, tenho que pensar e manipular. Na cerâmica não. Fazer cerâmica não é um trabalho, é viver, é um prazer.

Investiga. Os vidrados, por exemplo.
Claro, e os diferentes tipos de argila. Há argilas muito diferentes, de baixas e altas temperaturas. E a nível das minhas cores. Eu faço as minhas cores. Se não fazes as tuas próprias cores, é cerâmica mas não é cerâmica como deve ser.

As suas peças têm uma grande durabilidade.
Depende. Os vidrados de baixa temperatura não duram tanto. Podem durar 100.000 anos ou mais mas têm que ser muito bem cozidos e tem de haver uma grande unidade entre a argila e o vidro. As de altas temperaturas podem durar milhões de anos, não se decompõem nunca. Alteram-se, claro, mas se estiverem bem cozidas sobre grés ou porcelana vão existir sempre como as pedras. Eu trabalho-as com cinza de árvores de aqui ou de Granada ou da Alemanha. Com cinza da lareira. A cinza tem um vidro natural porque a planta precisa de cálcio, fósforo, magnésio, silício, sódio, potássio… e depende da madeira, de que árvore é. Cada árvore tem uma composição diferente.

Usa prata.
Isso é quando não uso a cinza. Com vidros de baixa temperatura. Ponho prata, cobre, cobalto… depende do que quero fazer. Eu não faço os vidros. Compro vidro primitivo só mate ou só brilhante e ponho os óxidos metálicos de que preciso, e outros vidros. Um bocadinho aqui, outro ali, para dar uma qualidade diferente. Pinto duas camadas com diferentes óxidos. Isso é o mistério da minha cerâmica. Ponho por baixo brilhante e por cima mate ou dois mates, ou dois brilhantes com óxidos metálicos diferentes e pequenas modificações. Camadas mais grossas ou mais finas. Isso é que dá a mudança de cor. Pinto à mão. À pistola sai tudo perfeito e eu não gosto de vidros perfeitos. Gosto de vidros que vivem.

Viveu em Paris.
Sim, fui para Paris com 24 anos. Vivi lá um ano. Não fiquei mais porque não me deram autorização para trabalhar. Trabalhava como pintor de casas. O meu pai também pintava casas e esse foi o meu primeiro ofício. Eu tive sempre que trabalhar e estudar. Em Madrid trabalhei e estudei. Em Granada trabalhei e estudei.

Em Paris também estudou arte?
Não pude. Fui só à Sorbonne livre.

Quando foi para a Alemanha?
Em 1960. Em Maio de 1983 voltei para Granada, comprei uma casa que restaurámos e é onde vivem os meus filhos e a minha mulher. Em 2000 vim para Portugal.

Foi importante para si, como artista, sair de Espanha?
Sim, muito importante. Muitíssimo. Eu penso que todos os artistas têm que ver outras tendências noutros países, noutros sítios. É muito importante. O isolamento não é bom para nenhum artista nem para nenhuma pessoa.

Foi influenciado por outros artistas?
Claro que tenho influências! Tu influencias-me, o outro influencia-te e nós influenciamos os outros. Não só olhando para o que fazem mas também falando e criticando. Críticas construtivas. Também as negativas são boas às vezes. Os outros ajudam-nos a evoluir. O que não é bom é ficares na tua casa e dizeres que és o melhor artista do mundo e os outros são todos maus. Isso é que não é bom. Tu és artista e fazes o que tu fazes porque pensas e interpretas as coisas como tu és. Ele é artista e faz como ele é, e eu, faço como eu sou. Os outros são diferentes de nós, não são melhores nem piores, são diferentes, porque sentem as coisas de outra forma.
Deu aulas na Alemanha. O que é para si ensinar arte?
Para mim ensinar, seja o que for, é tentar transmitir algo que sabes a outras pessoas que não o sabem. Há muitas formas de ensinar. A técnica, pintar, desenhar, qualquer pessoa pode aprender como aprende a ler, a escrever, matemáticas ou outra coisa qualquer mas o artista nasce artista. Melhor, pior… diferente. O ser artista nasce, não se pode ensinar. Pode-se ensinar técnicas, inclusivamente a lidar com as emoções mas não se fazem artistas. A arte tem a ver com sentimentos, com emoções que queremos transmitir. Também não é só criar. Criar é criatividade. Nem toda a gente é criativa e nem todos os que são criativos são artistas. Podem ser inventores, cozinheiros, pessoas que fazem coisas muito especiais e que não existiam antes mas isso não é ser artista, é criar.

O que é um artista?
José pensou um pouco e respondeu de repente – Um louco!

Texto e fotos de Paula Ferro
Mais alguns apontamentos sobre José Delgado Martin:



Embora seja uma espécie de eremita e valorize profundamente os seus diálogos consigo próprio, assim como os seus silêncios, José é um óptimo anfitrião.




Gosta das pessoas e de as ver confortáveis.



Recebe-nos sempre com um sorriso no abraço e um café ou um chá, muitas vezes também acompanhado por aqueles bolinhos que ele também sabe fazer, todos cheios de ervinhas, de preceitos e da posse dos segredos da ancestralidade.


Conversar com ele é sempre agradável.

O José transmite calma, tolerância e tem sempre uma dica nova para ensinar ou para nos ajudar a pensar.

Há mais de 30 anos que se dedica também ao estudo da homeopatia.

Ao passear pela sua casa, sente-se o cheiro a raízes, à mistura entre o sonho, a magia e a terra, que nos atenta com um acender de melodias dentro de nós, e nos traz pedaços de infância, embrulhada em memórias de histórias de encantar.



Peças de cerâmica e quadros, uns a óleo, pintados a espátula, outros a aguarela, obras de outros artistas, bocados da natureza que ele encontra nos seus passeios pelo campo, livros... surpresas acontecem por tudo quanto é canto, todos a chamar sensações, sonhos, histórias dentro de nós que se querem revelar.

E este mar de pequenas surpresas, à nossa espreita, ligam casa e jardim.





Uma musa, escondida entre bonsais, aguarda-nos à entrada.


Algumas das peças que José usa no seu quotidiano, fabricadas por ele.


Se quiser consultar o site do grupo A Ponte, clique em: