domingo, 28 de janeiro de 2018

Entrevista com Petra Frey

Ciclo de entrevistas o ambiente é de todos realizadas pelo Núcleo de Jornalismo da Associação Min-Arifa no Jornal diariOnline - Região Sul
Jornalista: Paula Ferro


O ambiente é de todos

Tudo o que existe é de todos




Entrevista com Petra Frey
A terceira entrevista do ciclo de entrevistas intitulado “o ambiente é de todos” que o Núcleo de Jornalismo da Associação Min-Arifa está a realizar no diariOnline do Região Sul, é com Petra Frey, cofundadora do movimento Tavira em Transição que desde 2008 é comerciante exclusivamente de produtos biológicos, em Tavira.
“Os princípios do Tavira em Transição nascem nos valores da Permacultura. A Permacultura respeita e valoriza aquilo que a terra tem e os métodos da agricultura são os mais naturais. Tudo é reaproveitado”, esclarece Petra Frey, “a filosofia da Permacultura estende-se para lá da agricultura, estende-se à vida quotidiana. É importante não criar lixo e por isso há que reaproveitar tudo o que há. Outro valor importante é o da partilha. Temos que aproveitar tudo o que existe e tudo o que existe é de todos”.
Neste preciso momento, a principal luta do Tavira em Transição “é contra o fracking e as plataformas de petróleo no Algarve. Temos feito algumas acções, sendo as principais informar os cidadãos que não estão ainda despertos para os malefícios de ambas as técnicas usadas na exploração de petróleo e também para as atitudes que o governo tem vindo a tomar no sentido da exploração do petróleo nesta zona, neste momento”, continua Petra, porque “estão a ser assinados contratos sem consultar a população e até sem consultar os próprios autarcas, o que é muito preocupante porque isto mostra que não existe poder local. Como é possível que o governo esteja tão centralizado? Como é possível que seja em gabinetes e longe da verdadeira realidade local que as decisões sejam tomadas? Como é possível que estejam a vender a ‘nossa terra’ sem nos consultar?”
Petra Frey é cofundadora da ARBIO, Associação dos Retalhistas de Produtos Biológicos em Portugal e explica: “A ARBIO defende que os produtos biológicos deviam ter o IVA mais baixo, a 6%, para que estes produtos sejam mais acessíveis à população porque ao contrário da agricultura convencional não trazem o mesmo tipo de gastos ao Estado na medida em que evitam que exista poluição”.

A entrevista com Petra Frey vai acontecer no diariOnline do Região Sul no dia 18 de Dezembro de 2015, às 15:15 horas.



Tudo o que existe é de todos

Petra Frey nasceu na Alemanha em 1966. Estudou línguas em Berlin. Visitou Tavira, pela primeira vez, em 1989. A partir de aí, esta cidade passou a ser um local de visitas frequentes até que decidiu, em 2001, residir nesta zona.
Entre 2004 e 2007, Petra Frey foi guia turística na Câmara Obscura, em Tavira. Em 2008 abriu um estabelecimento comercial, perto do Mercado Municipal de Tavira, para vender exclusivamente produtos biológicos.
Petra Frey é um dos elementos fundadores do Tavira em Transição, um movimento para a cidadania activa que se integra num outro movimento, a nível mundial, chamado Cidades em Transição que procura promover uma vida sustentável e tem como base os princípios da permacultura. Petra é ainda cofundadora da ARBIO (Associação dos Retalhistas de Produtos Biológicos em Portugal).

Porque te tornaste cofundadora do movimento Tavira em Transição?
Porque vivo em Tavira tal como os outros cidadãos que criaram e que participam neste movimento e é aqui, onde nós estamos, que devemos agir. Se queremos alterar os hábitos e mentalidades no sentido de construirmos um mundo melhor para todos, temos que começar por nós próprios e pelo meio envolvente, pelo local onde nos encontramos.
Há muitos valores que têm que ser alterados mas o mais importante de todos é recobrar o respeito pelo planeta Terra. Nós esquecemo-nos que somos apenas uma pequena migalha no meio do Universo e a primeira coisa a alterar é a arrogância do ser humano.
O movimento Tavira em Transição é um movimento de cidadania activa onde todos trabalham voluntariamente.
O voluntariado enriquece a própria pessoa que o faz enquanto, neste caso, enriquece o meio-ambiente.
Nós temos um projecto na Mata de Santa Rita, onde retiramos acácias, que são plantas invasoras, e plantamos árvores autóctones. A seguir há sempre um piquenique onde cada um traz alguma coisa e todos partilhamos o que trazemos. Precisamos de reaprender a partilhar e estas pequenas acções vão gerando hábitos comunitários.
Os princípios do Tavira em Transição nascem nos valores da permacultura. A Permacultura respeita e valoriza aquilo que a terra tem e os métodos da agricultura são os mais naturais. Tudo é reaproveitado.
A filosofia da permacultura estende-se para lá da agricultura, estende-se à vida quotidiana. É importante não criar lixo e por isso há que reaproveitar tudo o que há. Outro valor importante é o da partilha. Temos que aproveitar tudo o que existe e tudo o que existe é de todos.
Outras acções deste movimento focam-se muito na transmissão deste tipo de valores, na prática dos mesmos, o mais possível, e em mostrar casos de sucesso onde estes valores são aplicados em comunidades.

Qual a principal luta do Tavira em Transição neste momento e que acções está a promover nesse sentido?
Neste preciso momento é a luta contra o fracking e as plataformas de petróleo no Algarve. Temos feito algumas acções, sendo as principais, informar os cidadãos que não estão ainda despertos para os malefícios de ambas as técnicas para a exploração de petróleo e também para as atitudes que o governo tem vindo a tomar no sentido da exploração do petróleo nesta zona, neste momento, quando está mais que provado que temos que deixar 80% do petróleo onde ele está, ou seja, no subsolo, senão os nossos filhos e netos vão ter que pagar muito caro pela nossa permissividade e pelos nossos erros de hoje.
Estão a ser assinados contratos sem consultar a população e até sem consultar os próprios autarcas, o que é muito preocupante porque isto mostra que não existe poder local. Como é possível que o governo esteja tão centralizado? Como é possível que seja em gabinetes e longe da verdadeira realidade local que as decisões sejam tomadas? Como é possível que estejam a vender a “nossa terra” sem nos consultar?
E tudo isto num local turístico, rico em ofertas e em diferentes áreas, com tanto sol que poderia bem ser aproveitado como fonte de energia privilegiada.
Estamos a colaborar com outras associações na recolha de assinaturas para petições e em acções de esclarecimento.
Pretendemos incentivar os cidadãos e os autarcas para, todos juntos, reagirmos contra estes contratos que estão a ser feitos entre o governo e companhias petrolíferas sem consultar autarcas nem cidadãos, repito, o que é, no mínimo, uma grande falta de respeito por tudo e por todos.

És defensora dos produtos biológicos. Porquê e em que é que isso se liga aos valores do Tavira em Transição?
Porque opto por ter uma saúde não artificial. Quando comemos uma maçã provinda de uma macieira que foi desinfetada na fase da flor, o coração desta fruta, na minha opinião, já está envenenado, porque os químicos que lhe são aplicados afastam insectos e doenças da árvore, o que traz maior rentabilidade à macieira mas, ao mesmo tempo, pode trazer doenças e alergias ao consumidor dessa fruta. Uma maçã biológica, para além de ser mais saborosa, é mais rica nos seus nutrientes, logo é mais saudável e não polui a terra. É por isso que não percebo porque é que os agricultores de produtos biológicos têm que ser certificados por uma entidade a quem têm que pagar pela sua certificação enquanto os agricultores convencionais e que produzem em grande escala não têm que pagar por estarem a poluir a terra e o ambiente. Deveria ser ao contrário, até porque os agricultores biológicos têm mais trabalho e menor rentabilidade.
Sou cofundadora da ARBIO, Associação dos Retalhistas de Produtos Biológicos em Portugal. Esta associação promove a produção biológica nacional embora também importe produtos biológicos de outros locais. A ARBIO defende que os produtos biológicos deviam ter o IVA mais baixo, a 6%, para que estes produtos sejam mais acessíveis à população porque ao contrário da agricultura convencional não trazem o mesmo tipo de gastos ao Estado na medida em que evitam que exista poluição.
O Tavira em Transição e a agricultura biológica provém da mesma filosofia de vida: respeitar a natureza, o ambiente os seres vivos. A filosofia básica do Tavira em Transição assenta nos valores da permacultura que é ainda mais rígida nas suas regras do que a agricultura biológica, ou seja, a agricultura biológica está a caminho para a Permacultura, por isso é que a horta que criámos na Escola Secundária de Tavira é feita com os princípios da agricultura biológica, no sentido de se dar um passo em frente em direcção à permacultura.



sábado, 27 de janeiro de 2018

Entrevista com Flor Georges-Picot

Ciclo de entrevistas o ambiente é de todos realizado pelo Núcleo de Jornalismo da Associação Min-Arifa no Jornal diariOnline - Região Sul
Jornalista: Paula Ferro



O ambiente é de todos
Tavira é uma “galinha de ovos de ouro” que está a ser destruída
Entrevista com Flor Georges-Picot





A segunda entrevista do ciclo “o ambiente é de todos” é com a paisagista Flor Georges-Picot, um dos elementos do movimento Tavira em Transição e tem como tema os objectivos do movimento e a sua acção na cidade de Tavira e o impacto das estufas hidropónicas para frutos vermelhos neste concelho.
Flor Georges-Picot nasceu na Suíça com pai francês e mãe russa. Viveu em diversos países: Inglaterra, Estados Unidos da América, México, Jamaica, entre outros. Permaneceu algum tempo no Algarve no final dos anos 80, regressou há cerca de quinze anos e aqui tem vivido até hoje.
No final dos anos 70 ganhou uma bolsa para estudar horticultura no New York Botanical Garden, seguidamente foi para a Jamaica onde criou o seu primeiro jardim e se formou como paisagista.
Nos anos 90, juntamente com Fred Levy, Flor organizou o primeiro curso de Permacultura em Portugal tendo convidado Emilia Hazelip, uma grande referência na área.
Neste momento, Flor Georges-Picot faz parte do movimento Tavira em Transição que tem como objectivo dar a conhecer ideias, métodos e formas para se viver em cidadania com qualidade de vida e sem macular a natureza e o ambiente.
O movimento Tavira em Transição não é uma ideia inédita”, explica a paisagista, “está inserida na ideia de Cidades em Transição que é um movimento social, a nível mundial, baseado nos princípios da permacultura aplicados a uma comunidade”.
“O movimento Tavira em Transição nasceu há quatro anos e, desde aí, temos estado a replantar uma floresta na Mata de Santa Rita com os métodos da permacultura, houve um ciclo de cinema informativo sobre ecologia que decorreu no Clube de Tavira, criámos uma horta comunitária na Escola Secundária de Tavira que incluiu um ciclo de aulas pela professora Teresa Afonso e palestras realizadas por vários convidados e temos feito muitas outras coisas”, esclarece Flor Georges-Picot, “há cerca de dois meses que estamos no Mercado Municipal de Tavira, aos sábados de manhã, com uma banca informativa, fazendo recolha de assinaturas para as petições de várias associações que vão levar estas problemáticas até à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu”.
“O domingo, dia 29, foi realmente um grande dia, houve uma concentração de cidadania para chamar a atenção para a COP 21 de Paris, para o problema das estufas que se estão implantando nesta região e para a ameaça das plataformas de petróleo na costa algarvia assim como do fracking no interior do Algarve”, continua Flor.
“Foi-nos relatado por dois trabalhadores de uma destas estufas hidropónicas para frutos vermelhos, naturais do Nepal, que em locais como Nepal, Bangladesh, Malásia e Filipinas, entre outros países, existem agências criadas para aliciar pessoas para virem para cá trabalhar”, confidencia Flor e conclui: “penso que Tavira, pela sua localização, clima e cultura, entre outros factores, é uma espécie de “galinha dos ovos de ouro” que está a ser destruída também com esta invasão de estufas cujo intuito é apenas produzir o que não é de cá para os que não são de cá”.

Esta entrevista vai acontecer no dia  11 de Dezembro de 2015, às 15:30 horas, no diariOnline do Região Sul.



            Tavira é uma “galinha de ovos de ouro” que está a ser destruída

Flor Georges-Picot nasceu na Suíça com pai francês e mãe russa. Viveu em países como Inglaterra, Estados Unidos da América, México, Jamaica, entre outros.
Vive no Algarve há cerca de quinze anos mas já cá tinha vivido no final dos anos 80.
No final do anos 70, Flor ganhou uma bolsa para estudar horticultura no New York Botanical Garden. O curso, intensivo, durou dois anos. Seguidamente Flor foi para a Jamaica onde criou o seu primeiro jardim e se formou como paisagista.
Nos anos 90, juntamente com Fred Levy, Flor cria o primeiro curso de Permacultura em Portugal tendo convidado Emilia Hazelip, uma grande referência como pioneira da Permacultura.
Neste momento, Flor Georges-Picot faz parte do movimento Tavira em Transição que tem como objectivo dar a conhecer ideias, métodos e formas para se viver em cidadania com qualidade de vida e sem macular a natureza e o ambiente.
Todo o trabalho realizado pelos membros deste movimento é voluntário.

Como nasce e em que consiste o Tavira em Transição?
O movimento Tavira em Transição não é uma ideia inédita, está inserida na ideia de Cidades em Transição que é um movimento social, a nível mundial, baseado nos princípios da permacultura aplicados a uma comunidade. Este movimento foi implantado por Rob Hopkins, preocupado com a dependência que todos temos de combustível e de alimentação, quando se apercebeu que o cenário de mudança climática e de escassez de petróleo só irá piorar.
O objetivo do movimento Cidades em Transição é viver de uma maneira mais consciente e mais ecológica.
O movimento Tavira em Transição nasceu há quatro anos e, desde aí, temos estado a replantar uma floresta na Mata de Santa Rita com os métodos da permacultura, houve um ciclo de cinema informativo sobre ecologia que decorreu no Clube de Tavira, criámos uma horta comunitária na Escola Secundária de Tavira que incluiu um ciclo de aulas pela professora Teresa Afonso e palestras realizadas por vários convidados e temos feito muitas outras coisas.
No fim-de-semana de 27 a 29 de Novembro, o movimento Tavira em Transição fez uma série de eventos. Podes falar sobre isso?
O domingo foi realmente um grande dia, houve uma concentração de cidadania para chamar a atenção para a COP 21 de Paris, para o problema das de estufas que se estão implantando na região e para a ameaça das plataformas de petróleo na costa algarvia assim como do fracking no interior do Algarve.
Tivemos a colaboração de outras associações como a ASMAA, a PALP, a Copernico, a Almargem, a Min-Arifa, e de outros voluntários que se juntaram à causa.
Este evento teve início no Mercado Municipal de Tavira onde, aos sábados de manhã, durante cerca de dois meses, tivemos uma banca informativa e para recolha de assinaturas para as petições de várias associações que vão levar estas problemáticas até à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu.
Na sexta-feira, também integrado neste evento, na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, existiu um debate/reflexão aberto ao público em geral, seguido de palestras e apresentações feitas por Laurinda Seabra da ASMAA e por Manuel Vieira da PALP e foi inaugurada uma exposição com artistas de várias nacionalidades que está patente ao público até dia 22 de Dezembro.

Em que consiste a problemática das estufas?
 A problemática das estufas mexe com várias áreas. O visual de um país tão bonito, com terras agrícolas de grande qualidade que estão a ser destruídas pela implantação de estufas hidropónicas que só servem para a produção de frutos que não são regionais, não têm nada a ver com a cultura deste local e que servem apenas os interesses de muito poucos. A população da região nem sequer tem acesso a estes produtos, o máximo que pode ver é o refugo, aquilo que não está apto para a exportação.
Estas estufas, para além de destruírem a paisagem, destroem os próprios terrenos devido às infraestruturas que são necessárias e à dimensão gigantesca das estufas. E depois, a maioria dos trabalhadores nem são da região.
Foi-nos relatado por dois trabalhadores de uma destas estufas, naturais do Nepal, que em locais como Nepal, Bangladesh, Malásia e Filipinas, entre outros países, existem agências criadas para aliciar pessoas para virem trabalhar para cá, e fazem-no com tal competência que estas pessoas pagam cerca de dez mil euros a troco de passagem, permissão de residência por um determinado período de tempo, alojamento, comida e muitas vezes também uma bicicleta a pedal e expõem-se a emigrar. Chegam a hipotecar a sua própria casa a fim de investir numa vida melhor. Quando chegam cá, são alojados muitas vezes sem as condições básicas, com horários de trabalho que ultrapassam as oito horas diárias, sem folgas semanais e muitas vezes com temperaturas insuportáveis.
Recebem 504€ por mês na estação baixa. Na estação alta, quando se dá a apanha do fruto, dobra a quantia, mas começam a trabalhar de madrugada e terminam já de noite.
Estes trabalhadores não entram para as estatísticas de desemprego em Portugal nem trazem grande rendimento para os locais (fora os proprietários dos terrenos, os construtores das estufas e dos sistemas de rega) e esta prática ainda favorece uma cultura de escravatura, que foi abolida no séc. XIX.
Depois, para quem reside perto de uma estufa, o clima altera-se porque o efeito faz-se sentir na vizinhança, o trânsito constante de camiões a passar rente às casas levanta pó e faz barulho que, quando chove, se torna ainda mais intenso. E a paisagem está a tornar-se lunar.
Muitas pessoas que aqui compraram casa já a estão a vender mas com um prejuízo que ronda os cinquenta por cento do valor inicial.
Tavira é uma cidade de turismo, de cultura, de bem-estar, é a cidade que levou a dieta mediterrânica a ser classificada como Património Cultural Imaterial da Humanidade, e a mentalidade, o modo de viver mediterrânico não poderá sobreviver se estas estufas continuam a ser aqui implantadas pois é uma absoluta contradição.
Depois, considero alarmante o que foi dito pelo autarca de Tavira na última Assembleia Municipal. Jorge Botelho afirmou que não tem poder legal para travar este processo pois é tudo resolvido pelo governo.
O que eu penso é que Tavira, pela sua localização, clima e cultura, entre outros fatores, é uma espécie de “galinha dos ovos de ouro” que está a ser destruída pelo governo também com esta invasão de estufas cujo intuito é apenas produzir o que não é de cá para os que não são de cá.
Mas a nossa luta não terminou. O movimento Tavira em Transição não baixa os braços, bem antes pelo contrário, já conseguiu travar temporariamente o desenvolvimento de uma estufa de 16 hectares e o movimento está a conquistar adeptos que se juntam a esta causa e lutam connosco.

Queres dizer mais alguma coisa em especial?
Sim. Gostava de dizer que uma das expressões portuguesas a que acho muita graça é “puxar a brasa à sua sardinha” porque é uma expressão que define bem os portugueses, sobretudo os algarvios, e talvez seja essa característica, uma das principais razões para as coisas estarem na situação em que estão.

Entrevista com Luísa Bernardo

                                                   Ciclo de entrevistas  
                                               O Ambiente é de Todos
            Núcleo de Jornalismo da Associação Min-Arifa no Jornal diariOnline - Região Sul
                                                  Jornalista: Paula Ferro








A primeira entrevista de o ambiente é de todos foi com Luísa Bernardo como título: 
As estufas de frutos vermelhos podem impossibilitar os terrenos para culturas futuras


Notícia da entrevista com Luísa Bernardo

A evolução demasiado rápida da tecnologia alterou os hábitos dos homens e estes afastaram-se de valores que são incontornáveis para a manutenção do planeta. As consequências do abuso no modo como o ser humano tem vindo a usufruir do planeta Terra estão à vista. É imperioso que estejamos informados sobre o que está a acontecer em torno de nós no que diz respeito ao ambiente.
O Núcleo de Jornalismo da Associação Min-Arifa  inicia uma série de entrevistas sob o título “O ambiente é de todos” no intuito de divulgar informação sobre diversos pontos do ambiente, incidindo sobretudo na região do Algarve, muito embora tenha em consideração a ligação que existe com o ambiente em geral.
A primeira entrevista é com Luísa Bernardo e tem como tema “as estufas hidropónicas para frutos vermelhos no sotavento algarvio”.
Luísa Bernardo é natural de Sto Estêvão, é engenheira técnica agrícola desde 1971, trabalhou na antiga Estação Agrária, no Centro de Reforma Agrária de Faro e na Direcção Regional de Agricultura do Algarve. A sua actividade profissional distribuiu-se por diversos sectores como a extensão rural (desenvolvimento agrícola e familiar), o arrendamento rural, o apoio técnico ao desenvolvimento rural e também como produtora agrícola.
“A implantação de estufas inicia-se nos anos 70 na zona dos concelhos de Faro e de Olhão. Eram pequenos e médios produtores que optaram por esta técnica devido ao clima favorável à precocidade dos produtos hortícolas,” esclarece Luísa Bernardo, mas “nessa altura ainda não se falava em questões ambientais, só uma elite é que falaria nestes temas por isso não se pensava em desvantagens ambientais”.
“O resultado da intensificação das culturas em estufa provocou na zona de Faro e de Olhão, a captação intensiva de águas através de furos, o que provocou o aparecimento da salinidade nas águas nas zonas de maior intensidade de horticultura com estufa”, continua Luísa Bernardo.
“Nos finais dos anos 80, as estufas tradicionais começaram a desaparecer. Desde que entrámos na União Europeia, o mercado transformou-se, deixou de ter o valor e o escoamento de produto que tinha anteriormente e os agricultores ficaram descapitalizados”.
A diferença entre as estufas tradicionais e as estufas hidropónicas para frutos vermelhos “reside na magnitude da infraestrutura e da estrutura em si”, continua a engenheira técnica agrícola, “as estufas hidropónicas para frutos vermelhos chegam a atingir os 4 metros, ou mais, e abafam as populações vizinhas que vivem de cultivos ao ar livre. Quando existem chuvas intensas, não é possível prever os estragos que causarão em zonas planas ou que ficam mais baixas do que as estufas porque o chão das estufas está impermeabilizado”.
“Não encontro nenhum enriquecimento para a região” com estas estufas, continua Luísa Bernardo, “nem sequer para as estatísticas de emprego porque a maioria dos trabalhadores que lá se encontram são estrangeiros”.
A resposta para uma agricultura adequada à região “no fundo, está em Bruxelas, onde agentes que desconhecemos e que não sabemos se conhecem verdadeiramente a situação real da nossa zona, decidem tudo em gabinetes”.

A entrevista com Luísa Bernardo vai acontecer no dia 8 de Dezembro de 2015, às 16:00 horas.


Estufa de horticulas

Estufa de vinha (antiga)



Estufas de frutos vermelhos na zona de Sto Estêvão - Tavira

Estufas de frutos vermelhos na zona de Sto Estêvão - Tavira
Entrevista com Luísa Bernardo
8 de Dezembro de 2015
no Jornal diariOnline - Região Sul



As estufas de frutos vermelhos podem impossibilitar os terrenos para culturas futuras


Luísa Bernardo é natural de Sto Estêvão, é engenheira técnica agrícola desde 1971, trabalhou na antiga Estação Agrária, no Centro de Reforma Agrária de Faro e na Direcção Regional de Agricultura do Algarve. A sua actividade profissional distribuiu-se por diversos sectores, a nomear: extensão rural (desenvolvimento agrícola e familiar), arrendamento rural, no apoio técnico ao desenvolvimento rural e também como produtora agrícola.

Quando, como e porque começa a implantação de estufas no Algarve?
A implantação de estufas inicia-se nos anos 70 na zona do concelho de Faro e Olhão. Eram pequenos e médios produtores que optaram por esta técnica devido ao clima favorável à precocidade dos produtos hortícolas na medida em que intensificavam essa precocidade e davam oportunidade a novas culturas não tradicionais que foram iniciadas na época, nesta zona, como a beringela e a curgete.
A vantagem das estufas, nessa altura, era a chegada aos mercados abastecedores principais do país mais cedo do que os mesmos produtos provindos de outras zonas, em especial do Ribatejo Oeste.
Nessa altura ainda não se falava em questões ambientais, o ambiente era algo abstrato e só uma elite é que falaria nestes temas, por isso não se pensava em desvantagens ambientais.
O resultado da intensificação das culturas em estufa provocou, na zona de Faro e de Olhão, a captação intensiva de águas através de furos o que, por sua vez, provocou o aparecimento da salinidade nas águas em zonas de maior intensidade de horticultura com estufa. É bom referir que nessa época não havia barragem e por isso o único meio de obter água era através de furos.
Nos finais dos anos 80, as estufas tradicionais começaram a desaparecer pelo elevado custo dos materiais e da mão-de-obra e pela escassez de escoamento de produtos porque desde que entrámos na União Europeia o mercado transformou-se, deixou de ter o valor e o escoamento de produto que tinha anteriormente e os agricultores ficaram descapitalizados tendo optado por culturas menos dispendiosas, mais adequadas à região e que começaram a ter apoios comunitários.

Qual a diferença entre as estufas dos anos 70 e as estufas hidropónicas que neste momento invadem em especial o sotavento algarvio?
A principal diferença reside na magnitude da infraestrutura e da estrutura em si. As estufas hidropónicas para frutos vermelhos, há que referir isto, pois existem estufas hidropónicas para horticultura, plantas aromáticas e medicinais, e outras, que não atingem estas dimensões e por isso não são tão prejudiciais.  
Só a altura destas estufas, que chegam a atingir os 4 metros ou mais, abafa as populações vizinhas que vivem de cultivos ao ar livre e quando existem chuvas intensas, não é possível prever o estragos que causará a zonas planas ou que ficam mais baixas que as estufas porque o chão das estufas está impermeabilizado.
Existem valas, mas com chuvas intensas não se consegue prever qual a quantidade de suporte necessário para estas valas não escoarem para as outras valas, tanto as naturais (os ribeiros) como as artificiais (as canalizações da população), provocando inundações.
Poder-se-á verificar a veracidade desta afirmação nas zonas de Bernardinheiro e da Campina da Luz de Tavira, onde estas inundações já se verificaram, mesmo antes da implantação das estufas, com a implantação das estufas, a situação natural desta zona poderá agravar-se.

Qual a razão porque aparece este surto de estufas hidropónicas para frutos vermelhos no sotavento algarvio?
Existem vários fatores a ter em consideração. Um dos principais fatores é o abandono das terras, provocado pelo envelhecimento de muitos proprietários e os seus descendentes não estarem vocacionados para dar continuidade às atividades dos seus pais. Outro fator é a falta de incentivos aos agricultores locais para cultivarem. Um fator importante é a descapitalização dos agricultores locais em conjunto com as agradáveis quantias que são pagas por hectare, numa renda fixa, sem que os proprietários tenham trabalho ou investimento para obterem rendimento quando arrendam os seus terrenos para esta atividade. Depois, a maioria das estufas está instalada em zonas onde há água da barragem, o que facilita muita coisa e, finalmente, o apoio financeiro em pleno de fundos comunitários que apoiam prioritariamente produtos para exportação.

O que é que a população desta região ganha com a implantação das estufas hidropónicas para frutos vermelhos?
Não encontro nenhum enriquecimento para a região, nem sequer para as estatísticas de emprego porque a maioria dos trabalhadores que lá se encontram são estrangeiros. Como contraindicações, para além de este tipo de agricultura nos afastar de uma agricultura regional, a implantação destas estufas pode impossibilitar esses terrenos para futuras culturas, sejam elas quais forem, porque a estrutura deste tipo de estufas altera a textura e a qualidade do solo agrícola em zonas de terra especialmente fértil e com características diversificadas.

Que tipo de agricultura deve ser feito nesta zona?
Na minha opinião, a agricultura que aqui se deve privilegiar é a agricultura familiar e regional porque estamos numa zona onde a maioria dos terrenos são minifúndio e porque o terreno e o clima se adapta a muitas culturas frutícolas e hortícolas sem ter o impacto que este tipo de agricultura está a provocar.
Mas é muito difícil de responder a esta questão devido à descapitalização, ao abandono de terrenos e à comercialização, entre outros fatores, que não motivam nem propiciam cultivos adequados à nossa região, por isso, a resposta, no fundo, está em Bruxelas, onde agentes que desconhecemos e que não sabemos se conhecem verdadeiramente a situação real da nossa zona, decidem tudo em gabinetes.
Mas também tenho algumas questões a fazer que se prendem com o modo como as coisas se processam cá em Portugal. Por exemplo, o ano de 2014 foi o ano da agricultura familiar portuguesa e a pergunta que eu coloco é a seguinte: O que é que se evidenciou com este ano dedicado a algo que nos faz tanta falta? Quem é que soube que 2014 foi dedicado à agricultura familiar portuguesa? Que divulgação existiu? O que é que as pessoas competentes dentro do Ministério da Agricultura fizeram para que mais famílias portuguesas ligadas à agricultura pudessem não desistir da sua atividade? Já nem pergunto o que é que foi feito para incentivar outras famílias a iniciar esta atividade, só pergunto: o que é que foi feito para que algumas famílias não desistissem?

Entrevista com Paula Ferro



Notícia no Jornal diariOnline - Região Sul (Dezembro 2016)

Rastos de Jornada - Exposição de Fotografia de Paula Ferro





“Rastos de Jornada” é uma exposição de fotografia que vai estar patente ao público no Arquivo Histórico Municipal A. Rosa Mendes, em Vila real de Sto António, entre dia 5 e dia 30 de dezembro.
“Rastos de Jornada expressa uma linha do percurso que tenho vindo a fazer”, explica Paula Ferro, “contém fotografias dos momentos mais significativos dos últimos dez anos de jornada do meu olhar fotográfico.”
A exploração das sombras e da água transporta-nos para um misto de espiritualidade e poesia onde o silêncio conta estórias de intimidade e sonho. Momentos de paisagem que sobressaltam e a cidade surpreendida na pluralidade de mundos que se conjugam num só instante.

No Arquivo Histórico Municipal de Vila Real de Sto António, a partir de dia 5 de Dezembro, das 09:30 às 13:00 e das 14:00 às 16:45 horas, de segunda a sexta.



                                                             
Percurso de Paula Ferro


Paula Ferro nasceu em Lisboa em 1960. Licenciou-se em Filosofia, em Coimbra (1984) e pouco depois começou a frequentar a Ar.Co. em diversas áreas e onde, em 2009, chegou a ser modelo performativo em aulas de  desenho com Armanda Duarte. 
Fez outras formações em áreas como desenho, pintura, fotografia, gravura, escultura e teatro.
Em 1993 expõe pela primeira vez, desenho e pintura. Em 1998 começa a expor também fotografia integrada em projetos de escolas onde lecionou. Seguiram-se locais como Leões de Tavira, RefCafé, Casa das Artes de Tavira, e Galeria Artina, entre outros.
Em 2005 adquire a carteira de jornalista e trabalha no Postal do Algarve em jornalismo de cultura com especialização em artes plásticas, até 2010.

Em 2006 foca-se na fotografia como expressão artística privilegiada e explora sobretudo sombras e reflexos na água. Expõe em locais como a Sociedade Recreativa Olhanense e o Catita & Companhia, em Olhão, a Quinta da Calma, em Almancil, a Casa da Cultura de Loulé e o IPJ, em Faro, entre outros locais do Algarve. É também neste ano que o seu trabalho começa a ser apresentado noutros pontos do país como a Galeria Queiroza, em Arcos de Valdevez.
Faz o curso de “Iniciação à Fotografia Jornalística” (Cenjor e Ar.Co) e o Curso de Escrita Jornalística” (Cenjor).

Em 2008 participa em “Geografias Variáveis” no Palácio da Galeria, em Tavira, expõe no “Teatro del Mar”, em Punta Umbria e no Centro de Arte Contemporânea de Alfragide e termina “Pingado de Fresco”, um livro de poesia que ainda está por publicar.

Em 2009 participa no workshop “I Put a Spell on You” de Ana Borralho & João Galante e realiza o curso de Jornalismo de Cultura (AGECAL com Cenjor e Câmara Municipal de Loulé).
 .
Nessa altura, a nível da fotografia artística, dedica-se ao estudo dos lagos da Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, onde explora o sentir de Fernando Pessoa misturado com o seu próprio sentir poético. Nasce “sentir(me) pessoa” um conjunto de imagens que esteve patente ao público na Associação de Artes Plásticas de Campo Maior, no Quartel da Atalaia, em Tavira, na Galeria Margem, em Faro, entre outros locais.


Em 2010 inicia o “Projeto Íris Vana”, (de foro literário mas que se manifesta em diversos formatos), com a exposição de pintura de Laura Matamouros.

 


Entrevista com Paula Ferro realizada por Paulo Moreno 
no Jornal diariOnline - Região Sul em Dezembro de 2016 
a propósito da exposição de fotografia "Rastos de Jornada".

                         
A empatia acresce sempre à nossa humanidade

Rastos de Jornada. Porquê este título?
Porque o meu percurso em termos de fotografia tem sido uma contínua jornada. A exposição que se encontra patente até dia 30 de dezembro no Arquivo Histórico António Rosa Mendes é uma retrospetiva e contém fotos dos momentos mais significativos do meu percurso na fotografia como forma de expressão artística.

Estás a fechar, aqui, um ciclo?
Sim, fecha-se um ciclo e abre-se outro, como sempre, com a foto intitulada “Polis”. Mas nesta exposição estão pontuados vários ciclos. As fotos viradas a sépia encontram-se aqui três. Duas pontuam a exploração da sombra nas ondas do mar e uma outra, “Interseccionismo na Álvaro de Campos”, representa o auge da fase sépia e abre um outro ciclo, ainda mais intimista, em que o meu olhar se detém só sobre os lagos da Biblioteca Municipal de Tavira. Aí, encontro-me com o poeta da minha eleição, Fernando Pessoa, numa busca que durou mais de um ano, em pedaços de água acorrentada mas que, não obstante a sua prisão, se movimentam e contêm vida própria. O resultado dessa fase foi apresentado em vários locais como “sentir(me) pessoa” e está pontuado em “Rastos de Jornada” com dois dípticos e um tríptico. Este conjunto de fotos “conta” como da mancha que se desconstrói, se viaja pela interioridade e se regressa à reconstrução.
Depois vem outra fase, resultante de um desafio criado por Miguel Proença para “Paisagem Estranha Entranha”, uma exposição coletiva que inaugurou na Casa das Artes de Tavira, em 2012, com a sua curadoria. O Miguel puxou-me o olhar para o movimento do vento e para os campos, isso abanou-me, arrancou-me das profundezas da interioridade e abriu-me outros horizontes para o desejo que estimula o olhar. Em “Rastos de Jornada” duas fotos pontuam esta fase.
A seguir o olhar salta do campo e pousa na comunidade e o alvo são os instantes em que vários mundos coexistem e sobrevivem… Nesta mostra encontram-se duas fotos deste ciclo, uma que abre e a outra que fecha a exposição.

Muito bem. Dás muita importância à técnica fotográfica?
Não, não dou. Ou melhor, dou a importância necessária para usar a máquina e tirar dela o que preciso. Não sou como um Jorge Côrte-Real, não tenho a destreza que ele e outros fotógrafos têm a manejar a máquina… Admiro-os mas não sou assim… e depois, aborrece-me mudar de máquina.
As máquinas não me fascinam, o que me fascina é o mundo e cada um dos bocadinhos dele, seja o mundo externo, seja o interno e, como tal, o que tenho vindo a trabalhar sempre é o olhar.
Acho que o que me conduziu à fotografia como suporte de expressão criativa foi a pintora frustrada. Adoro desenhar e pintar, mas para se desenhar e/ou pintar bem não se pode ser um pintor de fim-de-semana. É preciso pintar e desenhar continuamente.
Mas depois também gosto muito de escrever, de lidar com plantas, de pesquisar, de… fazer muitas outras coisas, e o meu gostar de pintar não consegue saciar-me de tudo o resto, logo, não tenho tempo para ser uma boa pintora.

E então?
Pois!... Quando descobri isso, embateu em mim um certo vazio e, dei comigo, de máquina em punho, em busca das pinturas do Criador, ou seja, das pinturas que já estão impressas na Natureza, no mundo circundante. Comecei pela água, pelos reflexos da Ria Formosa, do Mar, do Gilão e do Sécua. Passei depois a ser mais interventiva na construção da “foto-pintura” quando passei a criar cenários com a minha sombra e com a sombra de objetos. Depois retirei-me de cena e passei a deter o olhar apenas no exterior para falar do interior. Mais tarde saltei para o campo e aí sim, a máquina passou a ser mais importante porque um desafio era criar foco na distância, desfocando o que está próximo e o outro desafio era captar o movimento.
É a fase em que me soube bem mexer com outras potencialidades da máquina fotográfica mas isso foi-me solicitado pelo que queria expressar.

Imagem em movimento, não?!...
Sim, essa é uma outra exploração da imagem que comecei a fazer em 2011 e que é criar vídeos a partir de fotografias. O último que fiz chama-se “estilhaço de um entardecer”, uma forma de dizer adeus ao Leif Lonne, que explora uma técnica muito semelhante à que ele e a Sofia Trincão vinham a usar em vídeo e a que deram o nome de “camara paint”. As fotografias que compõem este vídeo integram nitidamente aprendizagens feitas nessa fase de explorar mais as capacidades da máquina.
A nível de trabalho digital o que faço é muito pouco. Gosto da foto crua. Salvo as viragens a sépia, quanto muito posso dar um pouco mais de contraste, mais ou menos luz, apenas isso.

Mas… este é o teu único projeto artístico?
Não. Este é um dos caminhos da minha expressão artística. (sorriso)
Acho que sou essencialmente escritora. Em 2008 terminei um livro que ainda não foi publicado, mas existe. Chama-se “Verde Pingado de Fresco” e é um marco no meu modo de estar nas metas, nos focos e na prática artística. É a partir de aí que se definem certos caminhos na fotografia e é aí que começa a revelar-se um outro projeto, o “Projeto Íris Vana” que é literário embora se recorra de outros suportes. É um projeto dinâmico e já mudou de nome, agora chama-se apenas “Malicadar” porque o romance já se começou a manifestar.
Íris Vana é uma escritora e é apenas isso. Ela e a sua obra coincidem, são uma e a mesma coisa. A Íris Vana é o seu grande romance, Malicadar, que se começa a manifestar em 2010 através de uma exposição de pintura de Laura Matamouros no Ki-Sabor, em Santa Luzia, cuja inauguração constou de um jantar com cerca de 50 pessoas, conteve momentos de dança com Bruna Félix e uma performance improvisada devido ao desaparecimento da pintora.
Laura Matamouros é uma pintora de Malicadar, um local que contém uma cidade com o mesmo nome, uma aldeia piscatória que se chama S. Vicente e uma aldeia de interior que se chama Atégina, e contém muitos outros lugares. Nesses lugares vivem pessoas. A Laura Matamouros é uma delas e veio a Santa Luzia apresentar pessoas da sua terra através das suas pinturas.
Aqui temos o primeiro grito deste romance. Tudo começa aqui. O segundo passo deste projeto foi mais um momento performativo, “estilhaços de romance”, a partir dos quadros de Laura Matamouros, na “V Palavra Ibérica (Arma Palavra) – Encontro de Escritores Algarvios e Andaluzes”, em 2011, que constou da apresentação das personagens do romance através das pinturas e, oralmente, a história de cada uma delas ia sendo revelada.
Segue-se, em 2012, em Gent, na Bélgica, o mesmo tipo de performance mas a partir de fotografias das imagens.
Em 2015, o quarto momento, acontece na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, integrado na Maré de Contos. Desta vez com uma equipa de oito leitores, e aí começaram a ser revelados escritores de Malicadar que nos vão transmitindo o romance em forma de antologia cujos textos foram escolhidos à laia de “em busca do tempo perdido” de Marcel Proust.
E claro que a Íris Vana / Malicadar vão ganhando forma enquanto o romance se vai desenvolvendo no interior de si próprio. Decerto que brevemente Malicadar alvitrará novo momento certo para desvelar mais um pouco das tramas que se desdobram nas suas entranhas.

A fotografia é um caminho separado?
É e não é. Em mim, tudo se interliga e se conjuga cá dentro. A fotografia que faço não é só de expressão artística. Gosto de imagens. Gosto de fazer paisagem, adoro fazer retrato: gravar a essência de uma pessoa pelo instante de expressão que se lhe captura do rosto. E adoro reportagem que para além de exigir muitas outras coisas, nos coloca o grande desafio de ter de apanhar “aquele momento” em que várias expressões em movimento se manifestam em simultâneo.
Passo a vida a fazer reportagens. E, se calhar, essa contínua reportagem que faço da vida tem sido muito importante para a organização do olhar que, em determinado instante, e em separado de tudo o resto, se expressa mais criativamente através de bocados de mundo que optou por segurar.
É que, tal como para se fazer boas composições em desenho tem que se passar a vida a rabiscar, para se fazer boas composições em fotografia também é preciso passar a vida a reenquadrar o olhar.
E quanto à fotografia como expressão artística ser um caminho à parte nas artes, pois… nunca se sabe se a Paula Ferro fotógrafa não será uma personagem de Malicadar que se antecipou ao romance.

Já trabalhaste em curadoria?
Sim. Fiz alguns trabalhos nesse sentido mas a minha primeira curadoria a sério foi nas comemorações dos 25 anos da Casa das Artes de Tavira.
Havia um tema para todas as exposições, em torno da Casa como espaço que se habita e onde acontecem pedaços da vida. A partir desse tema, nós tínhamos que criar o desafio que colocaríamos aos artistas. Convidei três tavirenses: a Margarida Santos que tem um desenho fortíssimo, visceral mesmo, o Miguel Andrade, um fotógrafo incontornável em Tavira, e a Patrícia Gonçalves que estava a desenvolver um trabalho muito interessante na exploração da luz. Coloquei-lhes o desafio “Metamorfose da Habitabilidade”, ou seja, como é que se habita num mundo em permanente transformação e que cada vez se manifesta de modo mais acelerado? As respostas foram muito interessantes e conseguimos que existisse um bom diálogo entre elas e também uma complementaridade. Foi uma exposição bastante visitada. Acho que todos ficámos contentes com o trabalho que realizámos.
Gosto de trabalhar com artistas durante o seu processo criativo e em curadoria é aí que está o foco. A proximidade torna-se muito intensa. Nesta exposição lembro-me bem do processo da Margarida Santos. Foi tudo muito forte porque fui acompanhando os desenhos a romperem, a crescerem, a berrarem… e fui assistindo às emoções da artista, as suas guerreias internas, as questões que colocava ao seu trabalho e que este lhe colocava a ela, os caminhos que chegavam e como ela os escolhia… foi muito enriquecedor e sou-lhe grata por essa partilha tão genuína.
Em curadoria, essa quase participação no trabalho artístico do outro é muito enriquecedora e desafiadora também. Mas eu gosto de trabalhar com artistas e de me entranhar um pouco no seu sentir enquanto criam e enquanto laboram, seja em curadoria ou fora dela. A empatia, o tentar sentir o sentir do outro e com o outro, acresce sempre à nossa própria humanidade.

No teu entendimento, qual é o papel do jornalismo?
Primeiro que tudo, para mim é uma espécie de bichinho, um caruncho qualquer que não me dá sossego se estou parada e também não mo dá quando pratico jornalismo. É uma espécie de desassossego permanente.
Mas, para além disso é uma grande fonte de aprendizagens e de exercícios: o exercício da imparcialidade e do rigor, o exercício da escrita por que qualquer escritor deve passar, o exercício da superação de nós mesmos para cumprir timings e chegar aos factos, às verdades e às pessoas.
Tem sido uma grande fonte de aprendizagens. Por exemplo, entrei para o jornalismo de cultura, especializando-me nas artes. Isso permitiu-me entrevistar artistas com percurso, maturidade e volume como Bartolomeu Cid dos Santos, Pedro Cabrita Reis, António Inverno, Júlio Pomar,… as entrevistas eram aulas que eu recebia continuamente e dadas por professores incontestáveis.
Agora faço um jornalismo mais social e sinto que o exercício do jornalismo, em si, não só o que pratico mas todo ele, precisa de ser repensado independentemente do modo como se nos apresenta: impresso, on-line, rádio, televisão…
É necessário regressar aos valores originais, aos princípios éticos. Mas, tal como diz Karam em “Jornalismo, ética e liberdade”, a ética jornalística não se reduz à normatização, a ética jornalística faz parte do processo interior do jornalista e este processo deve refletir-se no seu trabalho quotidiano e deve estar relacionado com o mundo social.

Estás a querer dizer que o jornalismo precisa ser repensado?
Claro. Sempre. Por todos. E, pelo menos para mim, para repensar o jornalismo, nada como estar em contacto direto com ele e praticá-lo em processo autocrítico. A práxis do pensar sobre a práxis do jornalismo.
O jornalismo para mim não se manifesta só através da escrita, ele está também na fotografia, na rádio e no vídeo mas todos estes formatos têm de ter por base os mesmos princípios de rigor e ética para que a comunicação / informação sejam o mais factual e isentas possível.
É que, o jornalismo não é a imprensa ou a radio! É sim, um conjunto de técnicas e de saberes, na arte de comunicar de forma ética… É uma maneira de se difundir informação útil, uma forma de alertar a sociedade e de se denunciar as injustiças, as questões sociais, etc....
Antigamente o jornalismo era considerado um aliado da democracia, era uma espécie de “balança” da justiça social e farei os possíveis para que continue a sê-lo.
Neste momento tenho vindo a praticá-lo também como uma forma de impulsionar o exercício da cidadania.

E o associativismo?
O associativismo é um degrau em direção ao futuro que me parece apontar para a necessidade da comunidade autêntica, onde cada cidadão tem um lugar e por isso naturalmente se manifesta e se expressa porque naturalmente participa do mundo de todos.
Estamos todos a vir de uma grande viagem de exclusão, muitas vezes até voluntária, estamos a vir da não participação nas decisões globais mas que nos dizem respeito a todos, a toda a sociedade e também individualmente.
Parece que está a acontecer um despertar e o descontentamento está no ar. As pessoas estão a começar a sentir a urgência em exercer os seus direitos de participantes do mundo e já reclamam a sua necessidade de exprimirem o que querem e o que não querem nas suas vidas.
O associativismo é uma grande via para o exercício da cidadania.

Em que é que isto tudo se relaciona com as artes?
Ninguém cria a partir do nada. Todos somos seres situados, mesmo os mais nómadas, e o estímulo da criatividade, o que nos incita para a expressão artística, é o mundo vivido e experienciado por nós. É nele que mora tudo, é lá que moram as sensações, as emoções, as questões e os desafios que afoitam a criatividade e a necessidade de nos expressarmos artisticamente.
Decerto que não é por mero acaso que quando a minha vida está entregue ao associativismo, o jornalismo que faço é mais social, o projeto literário incide numa comunidade povoada onde as pessoas interagem e que a ponte para o futuro do olhar fotográfico se situe numa foto chamada “polis”.
O nosso universo é determinado pelo desenrolar da praxis da nossa vida e esta está recheada de multiplicidades “inter-relacionadas” que se condicionam umas às outras. O meu olhar artístico tem como cenários o que existe dentro do meu universo vivencial e, neste momento, tudo em mim está muito envolvido com as problemáticas da comunidade, por isso, é aí que a criatividade está a encontrar as solicitações para se expressar.