quinta-feira, 23 de julho de 2009

Entrevista com Miguel Lobo Antunes


in ".S" - Caderno de Artes do "Postal do Algarve"

Abril de 2009



“Quem tem imaginação mas não tem cultura, possui asas, mas não tem pés”.
Joseph Joubert


Miguel Lobo Antunes
Clareza, eficiência e flexibilidade


Miguel Lobo Antunes foi vice-presidente do ex-Instituto Português de Cinema (1983-85), director para o Cinema e Animação na Europália (1989-92), assessor jurídico de Lisboa Capital da Cultura (1994), geriu o Centro Cultural de Belém (1996-2001), foi programador do Festival Internacional de Música de Mafra, jurista do Tribunal Constitucional e actualmente é gestor da Culturgest.

Nunca houve tanta produção artística como actualmente

Gostaria que me falasse sobre a relação entre educação e cidadania e do papel da arte em ambas.
A arte é qualquer coisa de intrínseco à natureza humana. Desde sempre o homem teve uma necessidade ou um impulso para a criação artística. E continua a tê-la. Faz parte da condição humana. O homem sempre teve a procura do belo, ou o uso da imaginação, ou da construção, seja na arte popular, seja na erudita. Isso é um impulso, faz parte da natureza humana. Ninguém pode apagar isso, nunca se apagará. Haverá sempre artistas, sempre, enquanto existirem homens e mulheres.
Põem-se outras questões: haver um ambiente mais ou menos propício para que essas vocações, para que essa necessidade interior que as pessoas têm, se possa de exprimir e chegar aos outros. E isso tem variado segundo épocas históricas embora se tenha mantido sempre.
Existem épocas menos florescentes e épocas mais florescentes na história da humanidade. Houve alturas em que, por circunstâncias variadíssimas, se deu um crescimento singular, excepcional, na produção artística. Acho que actualmente vivemos um desses momentos, no sentido em que a produção artística se generalizou pelo mundo todo. Há imensas relações de comunicação, logo temos o acesso facilitado às produções artísticas mais díspares e das origens mais diferentes. De algum modo a criação artística globalizou-se.
Nunca houve, provavelmente, tanta produção artística como actualmente. Um dos problemas da gestão cultural que se começa a assinalar é que há mais oferta que procura. Há mais gente a produzir e os públicos não aumentam significativamente. Esse é um problema actual que não é de Portugal, é de todos os países mais desenvolvidos.
A arte relaciona-se com a cidadania, no sentido em que, para se exercer bem a cidadania, o conhecimento é importantíssimo, e o conhecimento da inovação e da criação são fundamentais para a formação das pessoas, para o esclarecimento das pessoas, para que tenham uma visão do mundo mais compreensiva, mais tolerante.
O conhecimento da actividade artística, do produto do que os artistas fazem, ajuda-nos a reflectir sobre o mundo, a reflectir sobre nós próprios, portanto, por consequência, a sermos melhores cidadãos, no sentido em que, o conhecimento é fundamental para exercermos bem a nossa vida com os outros.
A educação também se relaciona com isto porque é outra forma de contribuir para a formação do homem, para nos salvar da selvajaria, para nos dar outra dimensão.

Não há razão nenhuma para que se aplique o raciocínio económico à criação artística

Como educar para a cidadania com arte, ou como educar para a cidadania através da arte? É possível? Deve ser assim?
A educação, por natureza, contribui sempre para a cidadania. O simples aprender a ler, a escrever e a contar, mesmo que o ensino seja muito mau, mesmo que haja muitas críticas sobre o ensino, não tenho dúvidas que o adquirir conhecimentos, mesmo que a importância desses conhecimentos não seja a maior, esses não sejam os conhecimentos mais importantes para adquirir, é sempre positivo. E, as opiniões sobre a educação têm variado muito ao longo dos anos, os homens têm-se enganado tanto sobre o que é a educação…. De qualquer maneira, esta é sempre positiva para a cidadania porque forma as pessoas, porque dá conhecimento, e está provado que as pessoas mais educadas são aquelas que têm mais propensão para apreciar, gozar e compreender as práticas artísticas, sobretudo as práticas artísticas não populares, que exigem alguma reflexão, que interpelam as pessoas, que as põem em causa, que interrogam a sociedade. As pessoas que têm educação estão mais habilitadas a perceber, a compreender e a apreciar esse tipo de objecto artístico de construção dos homens.
Como deveremos agir nas nossas cidades relativamente à arte? Devemos dar-lhe valor? Incentivar?
Hoje em dia não há dúvidas. Toda a gente está de acordo que as artes devem ser incentivadas. A parte artística, a construção de objectos artísticos deve ser incentivada. Onde as pessoas se podem dividir é relativamente aos modelos para o fazer. Basicamente existem dois modelos: onde a intervenção do estado é fundamental, e o modelo anglo-saxónico, em que a participação dos particulares, dos privados, é mais predominante, ainda que nesses modelos particulares existam benefícios fiscais, e aí, o estado, indirectamente também apoia. Hoje em dia isso é indiscutível, ninguém põe em causa que sempre foi assim na história da humanidade.
Há certo tipo de realização artística que o mercado não justifica, não sustenta, e sempre foi assim a partir de certa altura na história do homem. Suponho que isso é pacífico. Há um acordo unânime que a prática artística, aquela que não consegue resolver-se no mercado, só sobrevive graças à generosidade dos particulares ou à generosidade do estado.
A arte não poderá nunca ser rentável?
Não. Eu acho que não.
Porque não serve para nada, é isso?
Não, não. Serve! O problema está em que, a certa altura, nos anos oitenta, o poder económico começou a predominar em todos os campos da sociedade. O único padrão de valores, a única maneira de dizer aquilo é bom e aquilo é mau era um discurso económico. No Renascimento, na Grécia, quando se faziam catedrais ou quando se faziam pirâmides, ninguém pensava nisso assim. Era a coisa mais abstrusa do ponto de vista económico e também social, morria imensa gente, os custos eram elevadíssimos.
A certa altura da nossa evolução, só se justificava aquilo que o mercado justificava, aquilo que economicamente se auto sustentava. Acho que não há razão nenhuma para que se aplique o raciocínio económico à criação artística, sem que isso signifique um completo desprezo pelo público.
O artista romântico e muitos artistas contemporâneos achavam que aquilo que tem muito êxito, não presta. Sobretudo a partir do romantismo há muito essa ideia, que muitos artistas geniais, aquilo que faziam, só teria valor se fosse apreciado por muito poucos. De facto, quando as coisas são muito inovadoras, não são compreensíveis pela generalidade das pessoas, são compreendidas por uma fracção. Daí a 50 ou 100 anos já não é assim, mas no momento em que surgem, são de tal modo inovadoras que o número de pessoas para quem aquela obra de arte fala, é um número muito restrito. Mas se não houver inovação também não há evolução na criação artística, por isso é essencial que isso exista assim. O artista, de alguma maneira, está à frente na compreensão. É muito mais inventivo, está muito mais à frente do que a generalidade das pessoas, por isso é que é artista.

Não é por se ouvir muito Marco Paulo que se chega ao Bach.

Para que a arte erudita seja mais amplamente compreendida, deveríamos tentar motivar as pessoas para se interessarem pelas artes. Isso implica uma aprendizagem. É útil e válido intensificar a cultura popular? Há um grau aqui?
Uma coisa não tem a ver com a outra. Não é por se ouvir muito Marco Paulo que se chega ao Bach. Não é por aí! O que não quer dizer que não se dê grande valor à cultura popular. Acho óptimo que as pessoas se emocionem com essas coisas. Muitas vezes não têm outras maneiras de se exprimir, de vibrar.
Agora em relação à arte mais inovadora, acho que deve haver um esforço de explicação. Há artistas que acham que não, que a obra vale por si, quem compreende, compreende, quem não compreende, não compreende. Não concordo, acho que, sobretudo nas formas de maior ruptura, se deve dar a maior informação possível, com a maior qualidade possível, para que maior número de pessoas possa entrar nesse mundo. Daí os serviços educativos e outras medidas que se criam hoje em dia.
Por exemplo nas artes visuais a ruptura é muito complexa. Na música contemporânea a ruptura foi muito grande. Ganha-se em dar às pessoas informação que lhes permita apreciar essa criação. Quanto mais pessoas apreciarem melhor.
Para alguns criadores isso é indiferente, suponho que grande parte deles cria para um grupo restrito de pessoas. Há outros que não, que precisam do sucesso, o sucesso é-lhes fundamental porque chegam a mais gente. Para outros o sucesso é visto noutra dimensão, não é o sucesso em números, é outra coisa.
Mas acho que deve haver a preocupação de tentar, não é explicar, é dar informação, ao maior número de pessoas possível, que há-de ser sempre um número relativamente restrito. Não é possível que todos os homens e todas as mulheres apreciem a Guernica, ou um quarteto de Bartók. Não creio que seja possível. As Quatro Estações de Vivaldi ainda acredito que sim, mas a maior parte das criações não. Depois, há pessoas que gostam de música e não gostam de pintura, depende de cada um. Os homens são muito variáveis.

Paula Ferro

Entrevista reportagem com Rafa Sendin

in ".S" - Caderno de Artes do "Postal do Algarve"


Abril de 2009





“Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria para a fogueira pelo direito de ter e de mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.”

Friedrich Nietzsche


Rafa Sendín
Arte com(o) atitude




Rafa Sendín nasceu em Salamanca em 1971. Frequenta ateliês dinamizados por Christian Boltanski, Gabriel Orozco e Nacho Criado e estuda com Rogelio López Cuenca. Desde 2000 participa em mostras individuais e colectivas, em Espanha, França e Portugal. Em 2005 beneficia da Bolsa Francisco Zurbarán da Junta da Extremadura. A sua obra é objecto de várias publicações e integra as colecções do Banco Santander, da Junta da Extremadura, a Colecção MEIAC, da Institución Cultural El Brocense e do Domus Artium.

A arte detém o conhecimento da história de arte, e há certas normas não escritas, uma delas é a liberdade.

Em “Fossa Comum”, exposição de fotografia e vídeo que se encontra patente ao público até dia 16 de Maio na Artadentro em Faro, Rafa Sendín reflete a partir de registos que retratam o brilho do progresso, ou a informação como sedução. “Este trabalho surge das fotografias publicitárias que podemos ver pelas ruas”, explica, “quando passeio com a minha câmara vou recolhendo muitas coisas, entre elas, fotos aos cartazes publicitários”.
Neste conjunto de obras primeiro vem a ideia, como um desenho mental, depois vêm as fotos, e a seguir, o trabalhá-las em computador. “O estúdio leva-me a elaborar o trabalho de outra maneira. Comecei a reflectir sobre o retrato. Construo um retrato a partir de dois retratos, feitos por outro fotógrafo. Estou a apropriar-me do trabalho de outro artista, ou de outro profissional, neste caso da fotografia publicitária. Utilizo uma parte feminina e outra masculina, e assim introduzo a noção de género: Feminino, masculino. Introduzo o tema da tendência sexual: homem/mulher, mulher/mulher, homem/homem”.
As coisas acontecem. A realidade motiva o olhar de diferentes pontos de vista. “São trabalhos que se desenvolvem muito lentamente. Então, vou introduzindo uma temática múltipla. Não há apenas uma, mas muitas leituras. Por exemplo, os cadáveres esquisitos dos surrealistas. Fazer retratos com duas partes de rostos diferentes que fazem um só retrato. E é curioso ver como duas expressões, de duas secções dos rostos, fazem uma expressão natural”.
Pára diante de uma das suas obras, olha um pouco em silêncio, aponta a fotografia, vira-se e afirma:
“O género não está no rosto nem está no corpo, está na cultura, na educação”.
Somente?
“Principalmente, não somente. É lógico que fisicamente o homem e a mulher são diferentes. Não no rosto, no rosto não são diferentes”.
E no comportamento?
“No comportamento? Sim, mas o comportamento geral é dado pela cultura”.
Nada pelos genes?
“Logicamente algo influirá, mas não tanto como agora sucede”, e lembra, “as nossas mães trabalhavam em casa, cuidando de nós e da casa, enquanto os nossos pais trabalhavam fora. Agora vêem-se, as mulheres e os homens, não de uma maneira igualitária ainda, a aproximar-se muito no desempenho dos mesmos trabalhos”.
Pensa que entre os homens e as mulheres não existem diferenças?
“Muito poucas. As mesmas diferenças que existem entre uma pessoa e outra”.

A arte é uma ferramenta de pensamento e por isso de construção individual

A arte é assumida como gesto, o gesto de um observador intenso em estratégia reflexiva sobre o mundo, essa globalidade variável em permanente transformação.
Também fala de homossexualidade e heterossexualidade…
“Não falo, penso, reflicto. Não trato de resolver. Não me interessa resolver estas questões. Interessa-me assinalar que é negativo que suceda que nos vão guiando. Não quero guias, não quero guias nem na arte, nem na vida. Mas quero informação, quero que me digam as coisas. Com isso me basta, eu decidirei”, pausa., “por exemplo, não tenho formação artística, não estudei arte”, encolhe os ombros num gesto desprendido, “bem, não estudei de forma académica. Evidentemente que me tenho informado e me mantenho informado”, olha com clareza e simplicidade, “não quero tutores. Há uma canção em Espanha que diz ‘eu não quero um bom tutor, prefiro enganar-me eu’”.
“Fossa comum”. Porque razão este título?
“A fossa comum é o local onde se enterravam os fuzilados, na guerra civil, sem identificar os corpos. E como isto sai da publicidade”… sorri, “para mim a publicidade é como uma fossa comum do pensamento dos indivíduos”, olha-me sério, “não?” Pausa, “a publicidade trata de guiar o pensamento, e eu trato aqui de libertar as ideias, de abrir o pensamento”.
Rafa Sendín está atento ao que o rodeia, e para além da dimensão estética, o seu trabalho encerra uma dimensão ética, na medida em que se debruça sobre os fenómenos da alienação colectiva em que vivemos.
“Creio que em arte há um único ponto a atingir, infelizmente muito distante, que é a liberdade. A liberdade de pensamento e a liberdade de acção. A liberdade na hora de trabalhar a obra, na hora de pensar, e na hora de viver”.
Gosta que o espectador da sua obra vá desprevenido de informação, “quero que se possa apreciá-la sem todas as minhas reflexões. Não me importa que não se veja. Quero que o espectador, quando se confronta com uma obra minha, esteja limpo de informação. Primeiro que a veja, que a perceba, e se lhe interessa, que aprofunde a causa. Para isso existe o livro, o texto crítico, as minhas ideias, as minhas intenções… mas primeiro, a obra tem que funcionar visualmente sem informação. Tem que ser vista.”
A arte como generosidade individual, como comportamento, ou melhor, como atitude. “Para mim a arte é uma ferramenta de pensamento e por isso de construção individual”.
Constrói-se através da arte. Essa é uma das funções da arte? Qual a função da arte?
“Bem, função!?” e joga a mão ao queixo para agarrar o pensamento, “bem, não acredito que a arte seja uma coisa inútil. Logicamente não é uma forma de ganhar a vida, não é um trabalho remunerado. A arte é uma atitude, uma maneira de fazer, de pensar e de viver. Não é um trabalho ao uso, que chega ao fim do mês e alguém paga. E não tem horários, pode-se estar trabalhando toda a vida, incluindo quando se dorme. Um artista, tudo o que faz é arte”.
E o que é um artista?
“Aquele que faz arte”.
E o que é a arte?
“A arte detém o conhecimento da história de arte, e há certas normas não escritas, uma delas é a liberdade”.
A liberdade é o caminho da arte?
“Claro, pelo menos como a vejo. Com Goya, nas pinturas da Quinta del Sordo, ou com a pintura política, de livre pensamento, não arte de encargo”.
Pensa que a sua arte é política?
“Existem aí conceitos políticos mas não são reconhecidos na obra. Podem sê-lo, porque falo da liberdade”.
Pensa que a política e a liberdade estão ligadas?
“Sim, claro, a política implica a liberdade e a condenação”.

Nunca me interessou desenhar a realidade. Para isso temos olhos, para vê-la.

Esta exposição é de fotografia, mas Rafa Sendín usa outros suportes para se exprimir. “A ideia vem primeiro, e a ideia é, principalmente, essa meta distante da liberdade. Esteticamente vou procurando a liberdade criativa. Em desenho trabalho com círculos porque me parece ser a forma mais básica. O quadrado é muito artificial. Não faço círculos perfeitos. Se usasse compasso cortaria a minha liberdade”. Em fotografia? “Não sou fotógrafo, utilizo a câmara”.
Gosta especialmente de retrato. “Quando comecei a desenhar fazia sempre retratos. Retratos imaginários, nunca retratavam ninguém. O retrato podia ser desta ou daquela pessoa, mas a única coisa que se assemelhava fisicamente à pessoa que queria retratar era o nome, não o desenho” e sorri, simplesmente, “nunca me interessou desenhar a realidade. Para isso temos olhos, para vê-la”.
Mas o retrato, “é quase o mais importante em arte. O retrato representa-nos, não?”, o olhar abre-se com ar de óbvio, “e através dele quero introduzir muito mais temas. A vida interior do adormecido e a casca da morte”, faz um gesto com a mão, “o corpo que sai…”, olha-me num sorriso, “e estou falando de religião também. Ao fotografar um morto, estou fotografando a alma, ou simplesmente algo que não tem vida? São muitas coisas…” e entrega-se a um sorriso pensativo.
Corto o silencio:
A religião e a morte estão relacionadas.
“Claro, mas eu sou agnóstico. Não creio absolutamente em nada que não seja a vida, o amor, e a liberdade”.
É a concepção da morte, a descoberta da existência da morte, que faz nascer a religião.
“Claro. As perguntas inexplicáveis deram origem à religião. Claro. Inventar histórias para que possamos viver mais a gosto com essas perguntas que não têm respostas”, repousa o olhar no infinito aberto em sorriso, “quando é muito melhor ter perguntas que não têm respostas”.

Paula Ferro

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Entrevista/reportagem com Jorge Côrte-Real

in "Postal do Algarve"
Abril de 2007


"A foto-retrato é um campo cerrado de forças. Quatro imaginários aí se cruzam... diante da objectiva, sou ao mesmo tempo, aquele que a fotografia julga e aquele de que se serve para exibir sua arte."
Roland Barthes in “A Câmara Clara”






Quando deixar de haver “material fotográfico sensível” a fotografia morre.

Jorge Côrte-Real nasce praticamente com uma máquina fotográfica nas mãos. O negócio de família na fotografia vem de Angola faz mais de 60 anos. Começou com um tio paterno que mais tarde passa o negócio a seu pai (hoje com 80 anos). Já em Portugal, passa para o seu irmão mais velho (já falecido). Actualmente encontra-se nas suas mãos. Como profissional começou a “dar ao dedo” em velhas maquinetas analógicas aos 14 anos. Na firma, inicialmente a sua tarefa era mais parecida com a pintura. Limitava-se a retocar os positivos de fotografia. Não apenas as de maiores dimensões como era habitual, mas em todos os tamanhos devido ao perfeccionismo do pai. Apesar de ser um trabalho mais de pintura do que de fotógrafo, entusiasmou-o e agudizou a sua paixão pela imagem.

Depois do 25 de Abril “caí em Olhão por acaso. O meu pai é natural de Ermesinde mas como na altura não havia lá lugar para nós, acabámos por rumar ao Algarve. Naquela altura mandar revelar um rolo de fotografias a cores demorava no mínimo uma semana. Eram todos revelados em Lisboa. O meu pai abriu o primeiro laboratório a cores no Algarve para onde passaram a ser encaminhadas quase todas as revelações da região. Trabalhávamos praticamente 20 horas por dia. Quase todo o trabalho era artesanal”. Nessa altura os Côrte-Real já tinham preocupações ambientais. “Os químicos não eram despejados directamente nos esgotos. Eram previamente filtrados. O processo permitia não só evitar descargas poluentes mas também a recuperação da prata existente na película fotográfica que era posteriormente vendida, o que nos proporcionava uma mais valia. Hoje em dia temos de pagar a empresas para a recolha das soluções químicas.”



- Desculpem interromper. Isto é uma entrevista?
- É!
- Para que jornal?
- Para o “Postal do Algarve”!
- Mas como? Eu também venho fazer uma entrevista para o “Postal”. Há aqui qualquer coisa que não bate certo!
- Problema seu... o meu está praticamente resolvido.
- Mas o que não está é o meu...


- “Desculpem, não tenho nada a ver com isso nem quero ser mal educado, mas ou fazem mais perguntas ou vou-me embora. Tenho mais que fazer!”

Regista Olhão, o Algarve e as suas gentes há mais de 30 anos.

Jorge Côrte-Real regista Olhão, o Algarve e as suas gentes, em película, até hoje. Isso resulta num espólio considerável. Um testemunho histórico importante que já merecia ser estudado e publicado. No seu deambular de mais de 30 anos pelas ruas desta cidade foi captando imagens do que já não existe e daqueles que já cá não estão. Muitas personagens típicas desta cidade só continuam a existir graças às suas películas religiosamente guardadas.
A primeira exposição de fotografia em que Jorge participa foi uma colectiva em Olhão em 1981, num antigo café à data abandonado, onde hoje funciona a dependência do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa. Exposição que na altura se saldou por um sucesso de público calculado em alguns milhares de pessoas.
Em “A Semana Santa do Senhor Morto em Olhão” - fotos nocturnas de 1984- as fotografias são impressas em tela de modo artesanal, o que lhes confere um ar quase “sobrenatural” quando a cor e o brilho da textura da tela se misturam. Todo o processo é manual, desde a captação das imagens sem flash, até às molduras que ele próprio cola e pinta.
- Desculpe mas agora sou eu a fazer a pergunta!
- Como queira, desde que não me atrapalhe!
- Ora querem lá ver!?
- “Ou se entendem ou vou-me mesmo embora!... Santa paciência!”


Possui material e conhecimentos para ampliar fotos em grandes dimensões

Possuidor de diverso material que possibilita ampliações de grandes dimensões em papel fotográfico, mantém-no guardado numa cave do seu antigo laboratório em Olhão, Jorge Côrte-Real confidencia que consegue “revelar fotos de 3 por 5 metros. Hoje em dia não sei se haverá mais alguém em Portugal com capacidade ou conhecimentos para fazer ampliações tão grandes. Há alguns anos havia laboratórios que o faziam mas agora não sei se haverá.” Truques que aprendeu na mestria do ofício e lhe permitem, utilizando pequenas tinas, revelar fotografias de grandes dimensões. Um segredo que guarda só para si: “há pessoas que têm noções de fotografia e quando vêem fotografias grandes dizem: ‘Isto teve que ser no chão, teve que ser na banheira!’ Não é nada disso! A ampliação faz-se na parede e a revelação em tinas pequenas. São trabalhos que dão muito gozo mas que hoje raramente faço por falta de tempo. Estou sozinho no negócio. O meu pai já tem 80 anos, está reformado, o meu irmão faleceu. Tenho mais irmãos que gostam de fotografia mas não se dedicam a ela profissionalmente”.

A firma Côrte-Real foi das últimas a aderir ao formato digital sem ter abandonando o analógico. Prova disso é que as reportagens efectuadas pelo Jorge ainda são feitas em filme e só depois passadas para digital. Diz-nos com alguma mágoa que “no dia em que a película a preto e branco acabar, a fotografia para mim e para outros que eu conheço, acaba também. A fotografia analógica tem magia! É uma lente mágica! Quando deixar de haver o “material fotográfico sensível” a fotografia morre, perde o interesse.”

Não somos pessimistas ao ponto de pensar que a fotografia acabará quando se deixar de fotografar em película ou quando se deixar de revelar em papel fotográfico. A prova disso mesmo é existirem artistas como ele. E enquanto existirem artistas tão sensíveis e imensamente grandes na sua simplicidade como Jorge Côrte-Real uma coisa é certa: as coisas que eles fizeram ou vierem a fazer, quer queiramos ou não, ficarão para sempre guardados em filme, ou em fotografias amareladas pelo tempo, muito para lá da nossa memória colectiva.

- Só por curiosidade, quem assina a entrevista?
- Claro que sou eu!
- Tu... E porque não eu?
- Porque estou há mais tempo no jornal e porque fui eu quem começou a entrevistar o Jorge.
- Pois vê-se pelos cabelos brancos! Mas também pelo que escreves... não aprendeste nada.
- “Basta! Xau até depois. Mas que seca de entrevista!”
- Jorge... Jorge? Espera lá, Jorge... ainda não...
- Olha, foi-se embora! Tinhas mais alguma pergunta para fazer?
- Eu não. E tu?
- Eu também não... que se lixe! Fica assim...


Paula Ferro versus Henrique Estêvão




Entrevista/reportagem com Daniel Vieira



in "Postal do Algarve"
Abril de 2007









“Pela Arte o homem sente que domina e detém, enfim, o poder de imobilizar e conservar, não só o que viu à sua volta, mas também o que viveu dentro de si.”

RENÉ HUYGHE




A minha verdadeira universidade foi pelos cafés e por aí.


Daniel Vieira começou a gostar de pintura em criança. “O meu pai pintava a vista da varanda e eu gostava daquilo. Um dia apareceu aqui um pintor da velha escola dos impressionistas, o senhor Jorge Falcão Trigoso. O meu pai levou-o para casa. Eu gostava das coisas que ele fazia.” Não achava graça à escola. “ Fui estudar para Faro. Mau estudante! Não estudei nada! Eu gostava era de rua! Voltei para Alte e comecei a pintar com o meu pai. Tinha pr’ aí 12 anos.” Hipnotizado pela vida, não parou de aprender coisas. “A gente aprende em qualquer lado, não é? A minha verdadeira universidade foi nos cafés e por aí. O meu tio Caixeiro, um dia deixou cair uma bilha no poço. O poço tinha o gargalo de pedra. Ele disse-me: Estás a ver? O baraço é mole, não é? Mas tantas vezes foi buscar coisas lá em baixo que furou a pedra! Assim podes ser tu!” Nessa altura já Daniel queria ser pintor e “um senhor, parente do Cândido Guerreiro, disse-me que um pintor tem que saber de tudo. Essa também me ficou na cabeça. Entusiasmei-me e comecei a estudar em Loulé, na explicação do sr. Porfírio Lopes. Um personagem engraçado! (parou a olhar para o ar como quem regressa por instantes a um lugar já inabitável mas que se mantém aceso na sua memória. “Fiz o 2º ano, fui para Lisboa. Fiz a António Arroio à noite. Fui trabalhar na Caixa Geral de Depósitos e matriculei-me na Escola das Belas Artes” que concluiu em 1974.

Quem nos tira a aguarrás tira-nos tudo.

Daniel Vieira fez cursos nocturnos de Pintura, Gravura, Música, (um deles com o professor João de Freitas Branco, “grande maestro, gostava muito de ver as mãos dele!”), Teatro, Expressão Dramática… Em Belas Artes especializou-se em Gravura, “quem nos tira o cheiro da aguarrás tira-nos tudo!” Não pára de estudar. No ano passado voltou para as Belas Artes para um curso de Ilustração porque sentia “necessidade de falar com pessoas novas!” Um eterno jovem. “ Nasci no ano da graça de 1937. No ano em que Picasso pintou a Guerenica”, a última invenção feita em Arte. Agora é muito difícil criar algo verdadeiramente novo. Pinta por necessidade, porque sente coisas e tem que as pôr cá fora. Não trabalha todos os dias a horas certas, funciona por impulso quase visceral. “Bem, estou trabalhando sempre, mas às vezes é só de cabeça!” Tem imensos quadros inacabados e trabalhos terminados que são compostos por várias telas que se completam, como se de um puzzle se tratasse. As exposições que apresenta na Horta das Artes, muitas vão-se renovando e continuando, porque o tema lhe agrada e encontra sempre forma de melhorar aquilo que exprimiu. Isso acontece com a actual, intitulada “Herotices”, “sim, sempre fui virado para o herótico mas agora estou mais descarado!!!” (risos), e se mistura com uma série de outros trabalhos que enchem as paredes da “oficina”, trabalhos seus e trabalhos de outros que por ali passaram. Em simultâneo existe outra exposição, permanente, de gravura (sempre a renovar-se, claro!), esta sobre a música popular, tema que trabalha neste instante também em desenho, aguadas e técnicas mistas e sobre a qual tem umas “esculturazitas” de barro.

Aprende a tocar viola campaniça… pelo telefone!?


Detentor de aguçado espírito crítico e social preocupa-se com as raízes dos hábitos e costumes das gentes que estão na vida. Participou em inúmeros Congressos e Colóquios ligados à cultura e música popular. Investiga nessa área. Tem vários trabalhos publicados como “ Simbologia do Povo Português”, “Música, dança e gastronomia medievais” entre outros publicados e inéditos. Teve diversos cargos públicos. Fez várias recolhas de música popular e desde 1976 tem pertencido a diversos grupos de música popular portuguesa, nalguns como coordenador. Ainda hoje pertence ao Grupo de Música Popular Erva Doce da Casa do Povo de Alte (voz, bandolim, cavaquinho e percussão). “Agora deu-me para aprender a tocar viola campaniça.” Como aprende? “Pelo telefone!” Olha para mim, divertido, “com um amigo meu de Évora, o Virgílio Neve, vou-lhe perguntando coisas e ele vai-me explicando.”
Para o Teatro, Daniel Vieira elaborou cenários, foi actor, encenador, agente cultural, e fundador do Teatro da Estrada, um projecto que já vinha de Messines, criado por Pedro Ramos e outros. Continuou-o e adaptou-o juntamente com a Célia Martins “uma força da natureza. Ela é assim como eu, dá tudo pela Arte, até recusou pertencer a um grupo de teatro onde poderia ganhar dinheiro para se dedicar a isto onde o que ganha é trabalho.”
O projecto Teatro de Estrada funciona dentro da Horta das Artes que “começou de uma maneira muito simples. Quando acabei o curso de Belas Artes fiquei por lá a trabalhar em gravura com o Mestre Teixeira Lopes e com a professora Matilde Marçal. De vez em quando lembrava-me de Alte e tinha as minhas confissões. O Teixeira Lopes perguntou-me se eu não tinha cá uma casa velha onde pudesse fazer uma oficina de gravura. Inicialmente isto era só um armazém onde o meu pai tinha as alfarrobas e as amêndoas. Ele deixou de apanhar alfarroba e amêndoa e eu roubei-lhe a casa. (Risos) Fiz a minha primeira oficina! Depois houve aqui um curso intitulado ‘Pensar Alte’ com sociólogos e arquitectos de vários países. A Isabel Raposo era a comandante da malta. Fez-se um estudo bastante completo e interessante sobre como reconstruir a aldeia. A Isabel Raposo escreveu dois livros, ‘Alte e a roda do tempo’, que conta a história de Alte e da sua arquitectura e outro sobre a maneira de reconstruir a aldeia. O livro foi para a Câmara Municipal de Loulé e durante três ou quatro anos esteve guardado em caixotes. Depois de terem feito estes mamarrachos todos é que fizeram o lançamento do livro!?” Nessa altura constatou-se que era necessário criar uma escola. Havia falta de terreno. “Se fizerem uma escola dedicada às artes gráficas, eu dou o terreno. A Câmara não quis! Então eu pedi dinheiro emprestado, a Isabel Raposo fez o projecto, ainda me vi à rasca com isso, cheguei a dever dinheiro a dois bancos ao mesmo tempo. Mas cá está a Horta das Artes” com exposições e outras actividades culturais que abre diariamente das 11 às 19 horas, não apenas aos visitantes mas também a quem queira ir para lá aprender e trabalhar.
E… fica afinal quase tudo por dizer sobre este homem onde a vida pulsa, lançada em diversas direcções que se completam, em permanente renovação.


Paula Ferro

Entrevista/reportagem com Susana Nunes






in "Postal do Algarve"





Novembro de 2007






"Não há nada mais fútil, mais falso, mais vão, nada mais necessário que o teatro."
Louis Jouvet






Já fiz praticamente de tudo que se possa fazer em teatro.











O seu percurso como actriz foi muito autodidacta.



Susana Nunes sempre gostou muito de cinema e de música mas o teatro passava-lhe ao lado até que veio estudar engenharia biotecnológica para a Universidade do Algarve. No primeiro ano inscreveu-se num “curso de iniciação teatral do SIN-CERA. Tinha 19 anos”, era um curso “de três meses, expressão dramática, o geral, o básico para pessoas que quisessem ter o primeiro contacto com o teatro” orientado por “Vítor Zambujo que é actor e professor. Trabalha com o CENDREV em Évora, é um dos manipuladores dos bonecos de Santo Aleixo. No final fizemos uma pequena apresentação pública a partir de uns textos de Karl Valentim, e adorei aquilo, foi a primeira vez que tomei contacto com aquele tipo de exercícios e foi toda uma nova série de possibilidades que se abriram ali. Foi uma sensação muito clara porque foi muito orgânica, uma coisa desproporcionada em relação àquilo que via que os meus colegas estavam a sentir. Não tinha memória de ter feito alguma outra coisa na minha vida que me tivesse dado tanto gozo, que me tivesse dado tanta alegria fazer e percebi que independentemente do curso que a minha vida viesse a tomar, ia ter de arranjar maneira de continuar ligada ao teatro porque simplesmente não havia outra hipótese. Continuei a colaborar com o SINC-ERA e fiz de tudo: sonoplastia, operação técnica de luz, de som… fui fazendo workshops de teatro, de movimento, de dança… coisas promovidas pelo SIN-CERA e por outras entidades em Faro, em Lisboa… Fui complementando a minha formação, comecei a ver espectáculos, tudo o que tinha possibilidade de ver, aqui, fora, onde quer que fosse. Fui-me envolvendo de uma forma cada vez mais intensa com o SIN-CERA, estive na direcção durante quatro anos e a trabalhar como intérprete, sonoplasta, produtora… durante seis anos. Já fiz praticamente de tudo aquilo que consigo lembrar-me que se possa fazer em teatro. Não fiz direcção, nunca parti para um projecto de raiz para encenar e assumir inteiramente a responsabilidade artistica de um trabalho. Para já não é o que me interessa, também porque não me sinto preparada para o fazer. Acho que convém ir acumulando experiências, ver o trabalho dos outros, observar, conversar, ler, e perceber se tenho alguma coisa para dizer e de que forma é que o posso fazer…”


O teatro não pode apartar-se de uma certa responsabilidade.


Quando está a representar “a sensação que considero mais interessante experimentar é a dualidade. Conseguir estar em dois espaços, em dois estados de consciência em simultâneo…é uma viagem que permite abstrairmo-nos completamente de tudo. Um estado de concentração… essa possibilidade de me conseguir fechar sobre uma coisa, sobre um objecto, sobre algo que estou a fazer, mas em que há um publico, um receptor muito concreto”.
O seu percurso como actriz “passou muito pela auto descoberta, desenvolver o auto conhecimento, foi de uma forma muito autodidacta”.
Para Susana Nunes “o teatro não pode apartar-se de uma certa responsabilidade. Considero que a experiência é intensa para o público, sempre. O teatro é eficaz, de uma forma sub-reptícia para que as pessoas se encontrem e se confrontem com as suas próprias emoções. Essa eficácia e esse poder não podem ser usados de uma forma inocente e quem o faz, tem que saber que tem essa responsabilidade. O teatro pode ser um veículo transformador, de desbloqueio, mas não tem que ser nada massivo. Aqueles pequenos dados que se vão introduzindo, deixando sementes... trabalhar com essa subtileza pode ser mais eficaz do que estar a ‘bandeirar’ explicitamente determinadas ideias”. Creio que o essencial é gerar diferenciação, confrontar o público com novos dados, novas perspectivas e deixá-lo ir para casa germinar”.






Representar em interacção com o público é um bocadinho como estar em queda livre.


É muito diferente representar uma peça onde o público não intervém directamente e representar quando existe contracena com o público, como acontece muitas vezes com o grupo Al-MasRAH, do qual Susana Nunes também é fundadora. Representar em interacção com o público é “um bocadinho como estar em queda livre. Ainda que não tenhamos que esperar uma resposta do público, olha-se para as pessoas e percebe-se exactamente o que elas estão a sentir, percebem-se as emoções, os pensamentos, as reacções, em esgares muito pequeninos, em momentos muito pequeninos de expressão. Se calhar as pessoas pensam que estamos alheios ao que elas estão a sentir, que criamos uma esfera para nos protegermos e não deixarmos que isso nos perturbe ou distraia, mas não, nós estamos atentos, presentes e altamente sensíveis a esse estímulo. Esse jogo é muito interessante, a possibilidade de o espectador, de um momento para o outro, tomar a coisa nas suas mãos, alterar o curso, introduzir um dado novo, agora mando-te esta, o que é que fazes com isto? Não posso ignorar isto senão estrago o jogo. Só que nunca acontece, e é essa linha ténue que o actor vai percorrendo porque sabe que o espectador a maior parte das vezes não tem coragem para o fazer, há uma espécie de intimidação, se bem que a possibilidade está sempre presente. Enquanto espectadora sinto muito isso. Quando estou numa plateia e sinto que de repente os actores vão arrancar para o público, vão agarrar alguém pela mão, ou que me vão perguntar alguma coisa, eu fujo! Não sei bem porquê. Se calhar, há uma certa perda da inocência quando se conhece o processo de dentro, e depois se parte para o lugar de espectador. Parte-se do princípio que o actor precisa dessa inocência para fazer o jogo funcionar, e se calhar eu não lhe vou dar isso, só vou tornar a coisa mais complicada”. Quando trabalha directamente com o público, “há essencialmente essa troca e uma sensação muito clara que as pessoas são altamente generosas, receptivas e estão cheias de vontade de participar. Isso é muito evidente e muito estimulante”.




Teatro e expressão dramática não são a mesma coisa.


Susana Nunes também é formadora, “a experiência que tenho é só ao nível da expressão dramática e com um público muito jovem, entre os seis e os doze anos, essencialmente. Teatro e expressão dramática não são a mesma coisa. Expressão dramática, não tem por propósito a criação de um objecto teatral formal para mostrar a um público. É uma disciplina com exercícios próprios, uma ferramenta de trabalho para o teatro mas existe fora do teatro. Existe agora no currículo de escolas secundárias, por exemplo, e independentemente de os alunos virem a ser actores ou não, expressão dramática é útil para a vida”. Para as crianças, “basicamente é o exercício da imaginação, estimular a imaginação. E, é auto conhecimento, o contacto com o outro, o conhecimento dos outros, o conhecimento do seu corpo e da sua expressão particular, dos seus potenciais e limites. Ajuda a inter agir e é partir daí que se cresce. Qualquer pequena brincadeira de crianças tem todo esse processo, eles fazem expressão dramática naturalmente, criam personagens instintivamente, imitam o que vêem os adultos fazer, em casa, na televisão, os professores… O que nós também podemos fazer é trazer questões da vida deles, conflitos, problemas, evidenciar isso de alguma forma no trabalho de grupo e ajudá-los a reflectir para encontrarem soluções”.
A expressão dramática, seja para crianças ou para adultos, ajuda o individuo a tornar-se mais assertivo na medida em que “desenvolver a empatia pelo outro, conhecer o outro, desenvolver o auto conhecimento… predispõe a entender o meio em que se encontra. Se a pessoa se conhecer bem, sabe lidar melhor com os seus próprios ‘reveses’, aceita melhor o que a vida lhe traz, torna-se mais responsável pelos seus gestos e pelas circunstâncias em que se encontra. Fica mais perto de si própria e por isso também mais perto dos outros e do mundo”.

Paula Ferro

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Entrevista/reportagem com Marta Caldas







in ".S" - Caderno de Artes

do Postal do Algarve

Janeiro de 2009








“Temos a arte para não morrer da verdade.”in “Vontade de Poder” de Friedrich Nietzsche







Uma coisa com que não me preocupo nada é com a função da arte, espero que ela não funcione

Marta Caldas nasceu em Lisboa em 1982. Estudou música e teatro. Frequentou o curso de História de Arte na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e completou o Plano de Estudos Completo do Ar. – Co. Participou de exposições colectivas e colaborou em projectos de artistas como Thierry Simões e Armanda Duarte.
A sua primeira exposição individual está patente ao público na Artadentro em Faro até dia 31 de Janeiro.
Presentemente trabalha na tese de mestrado em Artes Visuais na Universidade de Évora.


A forma como construo os desenhos faz com que cada um deles não tenha um parceiro obrigatório.
Onde se inicia a sua relação com as artes?
Em termos de prática das artes plásticas começou no Ar-Co mas a atenção para certas coisas já tinha começado antes, na música e no teatro. Comecei aos treze anos a fazer teatro. Entretanto entrei no Conservatório de Música, fiz um ano de violoncelo que interrompi porque entrei na Escola Superior de Teatro para fazer formação de actor. Posteriormente abandonei o Conservatório e fui para o Ar-Co. Fiz um ano de pintura e percebi que não era de todo a pintura. Não tenho sensibilidade à cor e comecei a aperceber-me que aquilo que fazia na pintura era desenho. Foi um erro de inscrição, no fundo devia ter-me inscrito em desenho e inscrevi-me em pintura por não saber os espaços de cada coisa e que o meu espaço era o desenho e não a pintura.


São dois espaços assim tão diferentes que não se podem misturar?Para mim não. É uma questão de superfície e matéria. A tinta não me serve, nunca me serviu. Com o desenho é completamente diferente. Mudei a tempo. No segundo ano de Ar-Co ainda fiz um semestre de pintura mas percebi que não era aquilo e passei para o desenho que era de facto o sítio onde estava bem. Aí parei. Entrei para o Ar-Co com dezoito anos e mudei muito. Houve uma mudança muito grande principalmente na forma como eu me coloco e como uso as coisas.

Desenho sempre na horizontal e isso implica na visão que tenho dos desenhos e até na forma como eles são desenhados.
Participou de que exposições?
As exposições que fiz foram sobretudo no Ar-Co. A primeira foi no terceiro ano de desenho na Quinta de S. Miguel em Almada na exposição de Verão. Até terminar o Ar-Co, expus outra vez na Quinta de S. Miguel e na exposição de finalistas no Júlio de Matos.
Na Páscoa integrei uma exposição colectiva organizada pela Andreia Brandão. Ela resolveu juntar um grupo de pessoas que por algum motivo achou que tinham alguma afinidade, muitas delas nem se conheciam mas havia algo que permitia construir uma exposição sem que à partida houvesse um enunciado que nos ligasse, ou que servisse de ponto de partida para os nossos trabalhos. Eu não conhecia muitos dos trabalhos até os ver no espaço. Não houve nunca uma conversa, não havia um tema, não havia nada por trás que unisse os trabalhos de toda a gente. Essa foi a primeira exposição autónoma, sem estar ligada a uma escola. Foi no Espaço Avenida. Tínhamos o espaço mas tudo o resto foi preparado por nós. Sorri com um brilho fresco e contagiante. Correu bem! Em Faro é a segunda. Mas o ritmo não pode ser muito mais acelerado do que este. Não faria sentido para mim fazer mais exposições do que as que fiz, acho que foram as justas.
Em relação a esta, na Artadentro, combinou-se a exposição e só depois é que vi o espaço. Tive algum tempo para pensar nela. Muitas possibilidades foram acontecendo na minha cabeça. Fui fazendo o meu trabalho normalmente e depois cheguei ao momento em que percebi que os trabalhos iam ser expostos juntos e tive de perceber se eles podiam ou não estar juntos.
Aquele espaço de galeria é rectangular, tem uma escada e a sala de cima. Sempre percebi que não queria dois níveis de exposição. A forma como construo os desenhos faz com que cada um deles não tenha um parceiro obrigatório. Não faço séries, isso implica que no momento em que os trabalhos são expostos seja um bocadinho complicado encontrar o parceiro. A forma como são vistos implica em cada um deles e pode transformar muito. Quando cheguei ao ponto em que percebi que tinha que começar a juntar os trabalhos que tinha feito, de escolher aquilo que ia ser mostrado, como é que ia ser mostrado, com qual é que ia ser mostrado, é que surgiu a disposição que está lá, um desenho numa mesa e dois desenhos nas paredes.

A mesa faz parte do trabalho, também foi feita por si.Sim, mas não dou a importância de objecto à mesa. A mesa é como a moldura, é um auxiliar de exposição.
O ser mostrado na horizontal é que tem importância para mim porque tem a ver com a maneira como os desenhos são feitos. Desenho sempre na horizontal e isso implica na visão que tenho dos desenhos e até na forma como eles são desenhados. Ao levantá-los, eles ganham outro ponto de vista. Há uns que se permitem a ser levantados, os que estão nas molduras permitem-se a isso, outros não se permitem.
Não é uma regra, não é qualquer coisa que eu imponho à partida mas normalmente coloco-os na horizontal. Há uma relação completamente diferente quando o desenho está levantado na parede ou quando está na horizontal, há uma proximidade completamente diferente com o corpo do desenho. Quando se entra numa galeria e o desenho está exposto na parede não precisamos de chegar ao pé dele para o ver. O facto de estar numa mesa implica um aproximar da mesa e o dobrar para ver o desenho. Isso é completamente diferente.
Quando percebi que aquele era o grupo de coisas que fazia sentido expor porque havia uma união entre elas, tive de jogar com o que vai ser visto ao pé do quê e como é que pode ser visto. O facto de haver dois planos, o da mesa e das molduras, é importante. Não é possível ver o que está na mesa e o que está na parede ao mesmo tempo, implicam tempos de visão diferentes. Quando se entra na sala só se vê os desenhos da parede. O desenho da mesa só é visto quando se chega ao pé dele. Isso foi um elemento que apareceu em relação àquele espaço onde as coisas tinham que olhar obrigatoriamente umas para as outras porque são só paredes, não há recantos nem divisões, é uma sala ampla. Houve alturas em que pensei que só podia expor um desenho. Isso aconteceu no Espaço Avenida, numa das salas só expus um desenho porque tinha de estar sozinho.
Porquê a “queda” como título da exposição?Olha-me a rir, com ar divertido.
O título não é a “queda” (de cair).
Não?Não! Continua a rir da minha confusão. A queda (de cair) ou a queda (de quieta). O título da exposição é a queda (de quieta). A queda (de cair) não me interessa para nada. Interessou-me a palavra por ter esse duplo sentido mas o título só passa a existir a partir do momento em que é lido porque se torna uma opção em relação a ele, até lá, é uma palavra que tem os dois significados. No fundo quem escolhe o título da exposição é quem lê, não sou eu.


Depender do desenho para sobreviver é muito triste.
Também existe texto.
Sim. Descobri que havia uma série de coisas escritas que no início me chegava como uma confusão que me fazia trabalhar. Depois percebi que a confusão não era propriamente uma confusão, era qualquer coisa que existia naquelas frases que escapava à própria frase mas à qual eu conseguia aceder num plano qualquer da frase que não existia na própria frase e que era isso que me interessava, era isso que me fazia desenhar.
Faz uma pausa, baixa a cabeça como quem olha para dentro, abre-se em sorriso que rebenta num gargalhar quase infantil e olha-me, com ar traquina. Depois deixei de roubar frases e passei a ser eu a escrevê-las.

Roubava frases?Sim, roubava de livros, normalmente rearranjava-as, tirava aquilo que as contextualizava, tentava pô-las como frases auto-suficientes que não tinham necessariamente que vir na sequência de outras.

Trabalha independentemente da arte?Sim, sim.

A arte é paralela.O trabalho é que é paralelo. Sorri, mas há segurança e serenidade no seu olhar frontal e cheio de brilho. Dar umas aulas é uma necessidade, preciso disso para comer. Depender do desenho para sobreviver é muito triste. Acho que não há grande hipótese ou se calhar não quero construir essa hipótese. Como é que isso se faz? Não faço a menor ideia. Isso deve implicar fazer mais do que “x” desenhos por mês e não tenho muita vontade de pensar que desenhar tem a ver com a minha sobrevivência.

No fundo onde é que nasce a arte, o que é que é isso da arte?Ai não, não, não! Olha-me com um ar divertido, acenando com as mãos como quem afasta o assunto. Isso não me interessa nada. Sem deixar de rir olha-me de frente com ar seguro embora solto. Não preciso de ter essa resposta para fazer o que quer que seja. É-me indiferente ter ou não ter a resposta, até porque só ter uma resposta é coisa pouca, prefiro ter mais do que uma e ir variando. Um dia posso acordar com uma e outro dia acordar com outra. Prefiro isso do que ter uma espécie de revelação de revista.

Acha que a arte tem uma função social?Espero bem que não. Faz uma pausa. Está nitidamente divertida com as minhas questões. Ter função social? Não sei. Para uns tem uma grande função, ganham imenso dinheiro com isso. Ri, solta. Uma coisa com que também não me preocupo nada é com a função da arte, espero que ela não funcione.

Num momento destes em que se fala tanto em crise, há desemprego, há pessoas que não têm como alimentar os filhos, acha que há o direito de se fazer, comprar e vender arte?Que eu tenha dado por isso não tenho nada a ver com esta crise, não a provoquei, não a pedi. De repente olha-me com um ar sério embora não deixe de sorrir. Agora, se me sinto uma sortuda por poder estar a desenhar enquanto há gente a morrer de fome? Sim, sinto! Mas também acho que essas pessoas vão continuar a morrer de fome mesmo que eu pare de desenhar e esse é que é o problema.


Paula Ferro


Entrevista/reportagem com Jorge Rodrigues

in ".S" - Caderno de Artes
do "Postal do Algarve"
Fevereiro de 2009




A arte não imita, interpreta.”
in "Note Azzurre" de Carlo Dossi



Jorge Rodrigues
persistir e acreditar na própria genialidade


Jorge Rodrigues cresceu na Raposeira, uma terrinha a cerca de 20Kms de Lagos onde o mistério está instalado no ar e o peso da história reside nos gestos das gentes que a habitam. Desde que se conhece, o desenho e a pintura fazem parte do seu quotidiano. “É uma coisa natural em mim”. É curioso, gosta de experimentar. Enquanto aluno do secundário fez teatro e esteve ligado a diversas iniciativas que se prendiam com as artes plásticas. Depois, “Lagos, sempre teve muita força a nível das artes, muitos artistas passaram por lá”. Gosta de aprender com quem sabe, por isso colaborou com artistas de renome internacional, “o artista aprende com o mestre. As escolas afinal são recentes”.
No início da década de 90 decidiu estudar artes e a partir dos encontros que foi tendo apercebeu-se “que realmente no Ar.Co é que estavam os grandes mestres”.
Em 1994 era aluno do Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual) em Lisboa, onde se entregou afincadamente ao trabalho.
“Quando vou pintar, penso sempre que esta tela vai ser a melhor de todas”. Cria metas a si próprio, estimula-se, “tenho que ter um objectivo alto para me motivar e conseguir trabalhar”.
A sua máxima é: “quanto mais trabalhar, melhor conseguirei atingir os meus objectivos”. Não se permite a preguiças e acredita que “a inspiração não faz nada. Dá ideias, e é com o trabalho que ela se espevita. A inspiração acontece com o músculo do trabalho e depois torna-se viciante. Não consigo passar muitos dias sem pintar”.
Em 2000 terminou o Curso avançado de Artes Plásticas no Ar.Co e desde então já participou de diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. Está representado em várias colecções públicas e privadas das quais se citam o Banco de Espanha, a Galeria Filomena Soares em Lisboa, a Fundação EDP, a Fundação Arzpar Szenes/Vieira da Silva em Lisboa e o Hammersith Hospital em Londres.

O azul do silêncio, do infinito, do caminho para a claridade

Neste momento está patente ao público uma exposição de Jorge Rodrigues no Centro Cultural de Lagos intitulada “Silencescapes”.
“A exposição apresenta-alberga alguns trabalhos realizados recentemente. Trinta desenhos em formatos idênticos que foram criados para este projecto e percorrem metricamente todo o espaço. Estes são confrontados por pinturas sobre tela em formato maior que, cromaticamente, oferecem ao olho de quem passa e ao espaço, a consagração da cor. Estas telas levam-nos o caminhar até à última sala onde estão seis desenhos de referência, de trajectória”, obras mais antigas que nos fazem entender um percurso condutor, o caminho de um sentir. E é aqui, afinal, que começa a exposição, “quando se faz o percurso em sentido contrário”. À porta, “estrategicamente colocada à saída que é entrada”, uma tela, “a primeira e a última imagem que se tem da exposição” e “funciona como quadro eléctrico onde tudo se liga energeticamente”.
O propósito da exposição são os trabalhos sobre papel, são eles que “ lhe dão o título. Os outros complementam-nos embora também façam parte dessa solução”. Estes, “cada um tem o seu espaço, tempo e decomposição diferentes que formam ritmos entre si e no todo. Depois há a cor, de silêncio, a mesma cor de milésimas variações de tonalidade, o zoom da escala de cada cor. O azul, que os une em sintonia, aquele azul, das profundezas da cor, da transparência, do vazio exacto, puro e frio. O azul do silêncio, do infinito, do caminho para a claridade”.
Os azuis de Jorge Rodrigues deixam-nos presos a um tempo sem tempo, a um espaço sem espaço, num navegar em estado zen que nos transporta para dentro e para fora em simultâneo. E em paz.

Definir a arte é colocar-lhe limites e ela não os tem.

“O meu próprio olhar como fazedor de pintura e inventor de imagens começou pela paisagem. No início a terra enchia a tela e depois o céu foi crescendo. Fui dando mais importância ao céu, e depois houve uma altura em que deixei de me preocupar”, sorri e um pedaço do céu assoma-se do seu olhar. “É como o mapa da evolução humana, o homem vai-se levantando, vai-se aproximando do céu…”, faz o gesto de como o macaco se faz homem, e abre os braços, como quem já sabe voar.
Mas a sua terra é muito importante para a poética do seu trabalho, para a poética do seu sentir. A terra onde foi aprendendo a ser e a olhar “é finisterra em fim de mundo, é a divina comédia do vento. Onde o mar se ergue, determinante, explodindo de alegria, ao esculpir suas pedras como se de um espectáculo pirotécnico se tratasse”. Há ventos coloridos a correr pelos pigmentos do olhar. “A adrenalina das nuvens, as nuvens das ilusões, do anunciar. O movimento não uniforme, acelerado”. Pequenas pausas acontecem mas as imagens quase se atropelam e adiantam a melodia da voz. “A vegetação que se agita espevitadamente, direccionando e inclinando a verticalidade dos seus traços, proclamando o caminho pró sul”. Um cintilar interior invade o olhar de sorrir. “Em que o fantástico faz 360 graus no que é possível a retina reter em cada ser humano ou ‘coisa’ que capte imagem. Valores tempestivamente intemporais, que sinto de sentir e funcionam na minha pele, no meu corpo, quando me aproximo, e na memória, quando me afasto”.
Este sentir embala-lhe as pinceladas e as suas obras deixam em nós a sensação de uma espécie de concórdia acesa.
O palmilhar do seu trabalho “é espontâneo”. Tanto pode ser “devida e minuciosamente projectado” como pode acontecer “sem projecto algum”.
Para o Jorge, “a estética é formada/dividida por conceitos como beleza, equilíbrio, harmonia, forma. Conceitos que, ao longo da história, sempre estiveram intimamente ligados à arte”. Mas a arte é muito mais do que isso. “É valor acrescentado, é habilidade, consciência…” e não se define, porque “definir equivale a delimitar. Definir a arte é colocar-lhe limites e ela não os tem. Jamais poderia tê-los”.
O seu trabalho prende-se com a sua “(sobre) vivência mental e física enquanto ser humano. O ser conduzido por absoluta necessidade interior do fazer, do continuar”.
O seu lema é “ser perseverante, estar preparado para o reagir do tempo, das massas planetárias, mais, menos, muito ou pouco interessadas ou esclarecidas, que de algum modo têm acesso ao trabalho”.
Acredita que “há um artista em cada homem” e o mais importante “é persistir e acreditar na própria genialidade”.


Paula Ferro