quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Exposição de Fotografia e Poesia - "O Fluir do Sentir"

Exposição de Fotografia com Poesia que esteve patente ao público no
Centro de Arte Contemporânea da Amadora
(Alfragide)
entre 19 de Julho e 26 de Agosto de 2008





O Fluir do Sentir
(partes)
O instante ocorrido na urgência do acaso
rasga-se agora.

Separam-se as carnes das carnes
gastas de amanhecerem juntas.

Mordem-se os sonhos consumidos na nódoa
a existência esculpe outra urgência de ser.

E a carência avoluma a pressa que a vida tem de renascer.

As águas levam-te
com sabores de adeus defunto.

Tudo se abastarda na lembrança.
O colo contorce-se na estranheza.
Aposenta-se o rosto das coisas.

E cresce um véu de cetim
entre o que se atrasa de ti e o que resta de mim.



Cansada dispo-me de tempos e sonhos gastos
já mastigados e saturados de uma certa espera.

Cobiço novas primaveras e reclamo o adormecer
no mais profundo habitar das águas.


Amanhecem vulcões no despontar da vida sedenta de vida.
A dor do desejo funde o pico do incêndio com a aragem serena nas tardes de estio.
E desgoverna-se a posse das carnes que latejam em cantoria ensandecida.


Uivam os segredos da posse das pratas
aninhadas atrás do luar.

Mistério de gozo pré-sentido
nos lábios de um desejo antigo
que desata a caminhar.

Sussurros de vento quente
abatem-se nas veias
desfraldadas em intenso rufar.



Luxúrias despertas
abrem as comportas à deriva do navegar.

Hasteiam-se as velas do corpo.

Animais vivos dentro das carnes
arrebitam sensações de desconforto
que confortam.

E impõem gestos, arrebatamentos...

À deriva jorram sensações
que se esvaem no sussurro de um lamento.

Uma loucura quente
como chama aberta em líquido morno
invade tudo o que é da gente.

Rolam certezas e convicções num chorrilho de gemidos e orações
decapitadas

desventradas de interesse

ai o consolo das carnes que na mente rebenta e por tudo se alastra

ai que nos vamos neste mar de coisas boas
que nos arranca a cabeça

e nós
sem força
para resistir…

Ai… que nos arrasta…

O eu repartido em dois
o que quero e o que me assola

O que quero e o que não quero, querendo

E vem o olhar sobre o que dói,
o que é e o porquê
sobre o certo e o caminho

o que é e o que não é
do plano que se constrói
nas passadas que se dão

Um Outono em caramelo torna as coisas mais cremosas

venho inquietada de luz neste fim de tarde em estio

ancoro-me a uma poita antiga
e suspiro,
em paz comigo

trago aragens renovadas
e no peito
um bom amigo


Guardo a vida no meu saco
para o que amanhã for preciso

escorregam degraus pelos pés e amanhece outra aventura

com as carnes em sossego
sigo outra luz mais tranquila

um assobio derramado
dança inquieto
neste estar que é vagabundo

e vou-me à cata de oásis
por esta estrada sem fundo.

Sem comentários: